VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O incendiador de palavras

Tenho evitado, por uma precaução meio instintiva, escrever posts ligados a datas de nascimentos que considero importantes, ou mesmo datas significativas em geral (o fato de ter escrito vários sobre o Natal certamente diz algo sobre mim e minhas demandas), principalmente porque isso me exigiria o comprometimento de um tempo de que não disponho. Cheguei a engavetar um ou dois posts já prontos, um deles sobre Raul Seixas – do que, aliás, me arrependo, de modo que na próxima oportunidade, ou seja, na própria data simbólica, o publico.

Do presente post, em todo caso, eu não vou abrir mão, em parte devido ao entusiasmo – digamos, “científico” – da hora, mas também porque ele envolve uma lembrança afetiva muito forte.

No dia seis de janeiro de 1958, em Olho d'Água, antigo distrito de Anicuns-GO, nascia o poeta e jornalista Tagore Biram, oficialmente Ubiratan Moreira. Tagore - uma homenagem ao poeta indiano Rabindranatah Tagore - se iniciou nas letras em Goiânia, onde publicou três livros de poesia, antes de residiir por vários anos em Campo Grande-MS. Aí, quando eu trabalhava na revisão do extinto Jornal do Brasil Central (o “jBc”, um dos semanários nada independentes da cidade mas que, pelo menos, era provavelmente o menos pior deles), tive a sorte de tê-lo, por um curto período, como editor.

Como meu pai, Tagore morreu, ao que tudo indica, em decorrência do alcoolismo. Um motivo a mais, é claro, para a forte empatia, já do tempo do jBc, onde ele chegava não raro atrasado, com a cara lavada e inchada, não sei se daquelas noites ou das já eternas noitadas (deixa eu quebrar essa rima involuntária) – às vezes, com certeza, as duas coisas.

Foi o editor mais camarada e deslocado com que já trabalhei, tanto que, salvo engano – e apesar da qualidade dos editoriais e das longas e brilhantes crônicas que ele escrevia –, não ficou muito tempo no jornal (mas eu saí antes, em busca de melhores cifrões). Lembro que, ainda às vésperas de minha saída, e quando ele começava a me ver como algo mais que um revisor boçal, falávamos em fazer uma página sobre Kafka para o caderno B. Ele – também para minha surpresa – se propunha a escrever sobre a “Carta ao pai”.

Certa vez, ele me pôs nas mãos, ou na minha enfadonha mesa de revisor, uma preciosidade cuja sobrevivência eu não tive, talvez por empáfia, o menor interesse de assegurar: uma ou, se não me engano, duas entrevistas datilografadas com Manoel de Barros, de cuja amizade ele se gabava abertamente. Eram diálogos recheado de elementos ou, quando menos, intenções poéticas, da parte de ambos. Não me entusiasmei com o muito pouco que li, com certeza principalmente por empáfia, e eles devem ter ficado na gaveta que eu abandonei às traças; nem sei se Tagore os recuperou.

Pouco antes ou depois de me casar com a Josy aqui “no Goiás”, tive a enorme surpresa de saber que Tagore não só é goiano como foi colega, mesmo amigo, de meu sogro, o também jornalista e escritor José Faria Nunes, que foi, aliás, quem me emprestou o primeiro livro que li de meu ex-chefe, Flauta noturna. O que fiz já decidido a escrever sobre o poeta – o que, exatamente, eu ainda não sabia, a não ser que teria a ver com o nomadismo que é uma das marcas de Tagore, o qual, saindo de Campo Grande, foi publicar outro livro e morrer no Chile em 1998, com apenas quarenta anos.

Tudo isso, ainda, muito tempo após uma pequena mas importante viagem – quando ainda morador em Goiânia – à então União Soviética, para participar de um encontro de escritores socialistas e declamar, no começo de um longo “Prólogo”, que

       Chegou a hora de incendiar as palavras
              e atiçar fogo na noite escura.

Clichês e emocionalismo – forte, às vezes mesmo barato, mas, à semelhança do “Amor barato” do Chico, nunca falso – são parte, mesmo, da poesia desse admirador de Neruda, desse pequeno grande cantor da vida, do amor, do desespero e das utopias. Pois é sensível como do primeiro para o terceiro livro – ou seja, de Flauta noturna para O anjo desafinado (vencedor do Prêmio Cora Coralina de 1987), sendo o segundo, Poemas do amor e da ausência, um curto intermezzo – a pena de Tagore se embebe de um fogo mais vivo, nessa sóbria e ébria arte incendiária que também Raulzito cantou, no forró-rock Movido a álcool (aliás, um protesto avant gard contra o etanol).

É desse entusiasmo que eu bebo agora, e devo muito dele a um grande amigo de Tagore, o também escritor Valdivino Braz, que prepara uma reunião dos poemas do Alfenim cerradense e me fez a enorme gentileza de adiantar a digitação d’O anjo desafinado – e além disso raríssimo – para que eu pudesse lê-lo, aliás, entorná-lo. Também a primeira foto deste post eu devo ao Braz, que a utilizou neste belo ensaio para a revista Bula.

Pois, então, um abraço no Faria e no Braz – e um brinde sadio, como igualmente raro se tornou ultimamente, à memória e à poesia de Tagore!

O eternamente jovem Tagore, em
foto de Flauta noturna

3 comentários:

  1. O colega Eguimar Chaveiro, de quem em breve o Arquivos Críticos publicará uma crônica, me enviou esse comentário:

    Conheci o Tagore pessoalmente. Na época, ele havia se misturado com a poesia. Tinha entregue a sua vida aos versos. Recitava e compunha versos sem parar. Mostrava-se quase sôfrego por tanta emoção. Era uma pessoa interessante, possuída e possessa. Tinha criado uma planeta simbólico, de onde não queria sair.

    Talvez não haja mais vanguarda, nem possessão poética, o que é um sinal de mesquinhez. Talvez haja poetas que conseguem o equilíbrio mínimo entre a fagulha de céu na ponta dos dedos e o júbilo de margaridas no âmago do coração.

    Meu muito obrigado ao Eguimar!

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  2. Meu estimado genro,

    Com esta memórável página (claro, refere-se à memória)de homenagem a Tagore Biram, vc me levou e elevou aos sobrevoos do ontem, de um ontem ainda vivo de quando Tagore comigo conviveu nas redações de dois jornais diários de Goiânia, o JORNAL OPÇÃO e FOLHA DE GOYAZ. Ele na editoria de cultura, eu na editoria jurídica e de economia.
    À época Tagore chegou a me prestigiar em um dos eventos literários que eu já então estimulava em minha cidade (Cassu) integrado uma caravana cerca de dez escritores de renome em Goiás para participar de nossa Semarcult. Salvo engano a VII. Do grupo, integrantes da UBE, do IHGG, da AGL. Companhia marcante, irreverente, ousado, mesmo sem a influência etílica.


    Além de colega de redação (ambos, ele e eu, ainda jovens, convencidos de que nossa geração mudaria o mundo para melhor - fizemos nossa parte) compartilhávamos também os mesmos ideais literários, nenhum de nós simpatizante com a direita e ambos contários às ditaduras, quaisquer que fossem, no momento especial em que vivíamos, a ditadura militar. A diferença é que ele persistiu na militânia ideológico-política enquanto eu me recolhi aos horizontes da infância e adolescência no Extremo Sudoeste de Goiás, ainda que, mesmo daqui, eu tivesse continuado o embate por meio de minha ação de escriba incoformado com as injustiças sociais.

    A separação física não significou mudanças de nossas afinidades intelectuais, inobstante em plagas diferentes, todas, a meu ver, válidas, nenhuma sem espinhos.

    Ravel, eu o cumprimento pela homenagem a Tagore e agradeço por me reavivar a memória e pela lembrança de minha presença na história do homenageado.
    Obrigado e parabéns. Vc é mais que um grande machadiano, mas também um tecelão que, na urdidura de seus escritos, imprime no tempo nossa história no que há de mais humano.
    (José Faria Nunes

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  3. Grande sogrão:
    Obrigado pelas boas e belas palavras. Essas coincidências entre pessoas e ofícios dão a impressão de que o mundo é pequeno, mas, se isso é verdade, não será por isso que é (se é que é) ruim.
    Grande abraço, agora, do cerrado matense!

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