VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 21 de junho de 2015

A Fury Road de Mad Max: percalços e atalhos



Quando, há três ou quatro dias, eu saí da sala de cinema depois de ver
Max Max – Fury Road, o único pensamento mais ou menos formulado que eu tinha na cabeça era este: “Meu Deus, quanto eu não daria pra ter meu nome perdido no meio da multidão de nomes dos créditos finais desse filme!”. Nem que fosse, sei lá, como faxineiro; e tanto por vaidade quanto para ter visto um pouquinho daquilo se construindo.
Depois, caminhando pelas prosaicas avenidas Afonso Pena e Ceará em direção ao terminal de ônibus, o deslumbramento foi cedendo ao senso de realidade. Claro, com todo o primor de seus efeitos especiais e a força sintética mas certeira de seu argumento, Mad Max não foge a alguns elementos básicos dos filmes de ação hollywoodyanos, entre eles a crassa inverossimilhança de, digamos, seu resultado (já que ele se estrutura como uma espécie de competição) e certos atenuantes da radicalidade ideológica (afinal, o conflito se dá entre, digamos, membros da elite).
Enfim, decidi esperar alguns dias para escrever sobre o filme. O ideal seria assisti-lo mais uma vez, o que eu gostaria muito, mas ele ficou pouquíssimas semanas em cartaz em Campo Grande. (Quem perdeu, recomendo que espere a versão blue-ray.)O fato é que, passados três ou quatro dias, e como não podia deixar de ser, a admiração voltou a se sobrepor aos reparos críticos. Porque o Mad Max de George Miller é mesmo um grande filme, talvez uma obra-prima; no mínimo, um dos maiores filmes entre os que unem ação e ficção científica de todos os tempos.
Mais do que uma continuação da saga, Miller (e seus parceiros, pois mais três ou quatro assinam o roteiro com ele) empreende uma releitura ou atualização radical de seu personagem. Aqui, mais do que nunca, Max faz plena justiça a seu epíteto. Mas muito já se disse sobre isso e sobre as virtudes desse filme que tem, de fato, o mérito de aliar primor técnico e profundidade humana e político-social. O que vou tentar fazer é sopesar o equilíbrio entre esses elementos.
E para dizer logo o fundamental, digo o seguinte: de um modo geral, o imenso aparato técnico mobilizado por Miller não dilui a força humana do filme, mas se soma a ela, na verdade ajuda a expressá-la. A palavra “expressão”, aliás, vem bem a calhar aqui. As ressonâncias de Fritz Lang e as homenagens a Murnau não são gratuitas: como nos filmes do Expressionismo Alemão, Fury Road é um filme onde cada quadro, cada movimento de câmera e, portanto, mesmo cada tiro e cada porrada exprimem uma significação humana.
(Atenção, aqui começam os spoilers. Quem não viu o filme, recomendo ver antes.)
Sim, Fury Road é antes de mais nada um grande de filme de ação, mas a tortuosa caçada pelo deserto a caminho do suposto Vale Verde das Várias Mães é acompanhada por um clima de angústia que em nenhum momento se dissolve, e cada cena de ação reforça essa angústia, inclusive pela relativa incerteza de sua conclusão – já que logo percebemos que os fugitivos (embora com as exceções de praxe) realmente estão sujeitos à morte.
O fato é que a angústia é a emoção predominante no filme, e nisso Miller foge completamente à regra hollywoodyana: a inevitável inversão de posições, quando os mocinhos enfim começam a se sobrepor aos vilões, não se faz acompanhar de nenhuma euforia sádica, dessas que tornam a morte de cada vilão um deleite para o espectador. Mesmo quando o grande algoz é destroçado pela horda, isso soa como um ato de justiça um tanto amargo, que atesta o horror da “realidade”.
Um detalhe que reforça isso é o fato de que antes não víamos sinais de revolta na multidão de miseráveis: a catarse vem “de dentro”, e não de um aliciamento demagógico operado pelo enredo junto ao espectador (cuja posição, note-se bem, é mais afim à horda que aos heróis: a de um aglomerado humano passivo).
Outro detalhe significativo: a oscilação de uma das “esposas” entre a insistência na luta por liberdade e a submissão a Immortan Joe não é punida com uma morte sádica. No drama de sua oscilação, é sua humanidade, não a mera tolice, que sobressai, e sem que palavras de explicação sejam necessárias para isso: a relativa escassez de diálogos do filme não reduz o peso da dimensão humana.
A força disso tudo deriva dos alvos certeiros da dimensão política do enredo. Os senhores da guerra; a exploração vampiresca do outro, particularmente da mulher; a fanatização religiosa como estratégia de sujeição, aliada à monstruosa apropriação privada dos já escassos recursos da Terra. Mesmo não explorados de forma exaustiva, esses temas pairam de forma onipresente sobre cada cena.
Isso não impede que a grande inversão – e facilitação – final se opere, e nisso Mad Max se assemelha muito a outro grande filme de ação e ficção recente, o Elysium de Neill Blomkamp, do qual também tratei aqui. O que a viagem de ida tem de difícil, a de volta – apesar das muitas perdas humanas – tem de fácil. E no final tudo se revolve com uma facilidade embasbacante. Sequer se oferece resistência aos novos, aliás, às novas senhoras das águas. (Ficando, propositalmente ou não, a dúvida quanto a seu efetivo compromisso com as hordas “populares”, já que o olhar de Max lá em baixo para cima sugere a manutenção dessa distância.)
É como se os efeitos especiais tivessem, no fim das contas, esse fim, ao mesmo técnico e político: a potência pirotécnica da produção se transmite como que por osmose aos heróis maltrapilhos, tornando-se, afinal, potência redentora.
Mas tudo bem, ou não tão mal, pelo menos: com sua, digamos, relativa radicalidade antropológica e político-social, Mad Max tem o imenso mérito de colocar determinadas questões com uma força talvez única na intersecção dos gêneros ação e ficção. Ainda que, nele, essa interseção permaneça palatável ao gosto do espectador médio americano (incluindo-nos aí), a angustiosa questão colocada no filme se fixa no horizonte de nosso próprio tempo: quem está matando o mundo?
E se Miller ainda não desiste de falar em redenção, pelo menos não se trata da redenção da fuga para um suposto paraíso, mas do olhar para trás, do retorno para o lugar de onde não se pode fugir: em seu cenário muito específico (o deserto da Namíbia), Max Max – Fury Road pode ajudar muita gente a se dar conta de que a África e seus problemas não são tão distantes assim.
Dedico esse post ao velho amigo que me apresentou o então jovem Max, e que hoje, coxinha consumado, provavelmente não gosta mais do personagem. Ao menos se quiser ser coerente consigo mesmo.