VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ABAIXO-ASSINADO
Professores universitários em defesa dos estudantes secundaristas de São Paulo


Nós, professores de diversas Instituições de Ensino Superior abaixo assinados, manifestamos nosso apoio veemente à causa dos estudantes de ensino médio que ora ocupam quase duzentas escolas no Estado de São Paulo, em ato de protesto e resistência contra a “reestruturação” da educação básica que o Governo do referido Estado pretendeu impingir sem qualquer diálogo ou negociação com as pessoas diretamente afetadas: alunos, pais, professores e a sociedade em geral. Manifestamos, também, nossa  preocupação extremada  com os rumos tomados pela repressão aos estudantes, sobretudo as agressões físicas e psicológicas e o cerceamento de direitos fundamentais (inclusive o de nutrição), atos estes condenáveis em qualquer situação, tanto mais quando dirigidos a jovens e adolescentes. Tais agressões e cerceamentos ferem princípios fundamentais da democracia e da dignidade humana, sendo passíveis de denúncia aos organismos internacionais competentes. Solidarizamo-nos fortemente com os pais que acompanham e, mesmo angustiados, apoiam e respeitam a luta de seus filhos.


Esta é uma ação iniciada entre amigos na data da postagem. Peço que os partidários da causa se manifestem nos comentários (se possível fazendo login), declarando o nome e a IES onde lecionam. Apenas as assinaturas declaradas em comentários com login serão incorporadas à lista abaixo, mas toda manifestação é válida.

Assinam:

1. Ravel Giordano Paz (UEMS)
2. Marcos Siscar (UNICAMP)
3. Rinaldo de Fernandes (UFPB)
4. Suzi Frankl Sperber (UNICAMP)
5. Luiz Antonio Mousinho (UFPB)
6. Geraldo Vicente Martins (UFMS)
7. Flávia Cavalcante Gonçalves (UEMS)
8. Andre Benatti (UEMS)
9. Eliany Salvatierra (UFF)
10. Lígia Winter (ESAMC)
11. Marilda Alves Adão (UEG)
12. Genésio Fernandes (UFMS)
13. Fábio Dobashi Furuzato (UEMS)
14. Isabella Fernanda Ferreira (UFMS)
15. Maria Adélia Menegazzo (UFMS)
16. Marcelo Bueno (UEMS)
17. Mara Falconi da Hora (UEMS)
18. Carla Villamaina Centeno (UEMS)
19. Leon Alves Correa (UEG)
20. Eduardo Batista da Silva (UEG)
21. Paulo Edyr Bueno Camargo (UEMS)
22. Susylene Araujo (UEMS)
23. Fabio Akcelrud Durão (UNICAMP)
24. Jorge Eremites de Oliveira (UFMS)
25. André Monteiro (UFJF)
26. Luiz Fernando Medeiros (UFF)
27. Silvio Oliveira (UNEB)
28. Eliane Giacon (UEMS)
29. Vitor Cei (UNIR)
30. Samira Saad Pulchério Lancillotti (UEMS)
31. José Barreto dos Santos (UEMS)
32. Volmir Cardoso Pereira (UEMS)
33. Paulo Duarte Paes (UFMS)
34. Marcus Villa Góis (UEMS)
35. Ruberval Maciel (UEMS)
36. Paulo Cesar Tafarello (UFMT)
37. Rosana Zanelatto (UFMS)
38. Gustavo Vilela (UFMS)
39. Maria Inês Toledo (UnB)
40. Ana Claudia Duarte Mendes (UEMS)
41. Marcelo Moreschi (UNIFESP)
42. Bianca Fanelli Morganti (UNIFESP)
43. Maria de Lourdes Baldan (UNESP)
44. Wanderlan da Silva Alves (UEPB)
45. Andressa Zoi Nathanailidis (UVV)
46. Denilson Soares Cordeiro (UNIFESP)
47. Paulo da Luz Moreira (Southern Connecticut State University)
48. Helena Franco Martins (PUC-RJ)
49. Laura Rabelo Erber (UNIRIO)
50. Milena Cláudia Magalhães Santos Guidio (UNIR)
51. Anita Martins Rodrigues de Moraes (UFF)
52. Miguél Eugenio Almeida (UEMS)
53. Marlon Leal Rodrigues (UEMS)
54. Rosimar Regina Oliveira (UEMS)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O ROTEIRO DO SUICÍDIO POLÍTICO DO PT, QUE VAI CUSTAR CARO À ESQUERDA


por Luiz Carlos Azenha

Como escrevemos anteriormente, aqui e no Facebook, o mar de lama da Samarco teve também uma dimensão simbólica.

Explicitou que a captura das instituições públicas brasileiras pelo poder econômico é absoluta.

A Samarco disse que a lama não era tóxica, que estava “monitorando” a enxurrada, etc. etc.

A empresa e uma de suas controladoras, a Vale, assumiram papeis que cabiam ao Estado, dentre os quais distribuir água.

Das autoridades não saiu um pio, a não ser pelo anúncio de multas milionárias que afinal não serão pagas.

O governo de Minas cassou a licença para a Samarco operar em Mariana, como se ela ainda fosse capaz de fazê-lo.

Duas decisões judiciais tomadas no caso favoreceram a empresa: uma rapidíssima liminar para desbloquear a ferrovia por onde passa minério e o habeas corpus preventivo que impede a prisão do presidente da Samarco.

Toda uma bacia hidrográfica destruída, praias e oceano poluídos…uma verdadeira catástrofe.

Enquanto isso, quatro jovens foram presos por “crime ambiental”: sujaram de lama um corredor do Congresso.

É óbvio que esta múltipla falência de órgãos engloba o PT e o governo Dilma.

Um breve roteiro do suicídio político, incluindo apenas fatos recentes:

1. Ganhar uma eleição e governar com o programa econômico alheio;

2. Colocar toda a conta da austeridade nas costas dos trabalhadores;

3. Propor uma lei antiterrorista que, lá adiante, em 2018, servirá para a direita demolir os movimentos sociais, permitindo a ela aprofundar ainda mais, se necessário, a depressão econômica do Levy.

Para completar, Delcídio Amaral, denunciado aqui e aqui como homem que articulava barbaridades contra o Brasil e os movimentos sociais, é flagrado em conluio com um banqueiro para evitar uma delação premiada.

Por mais que seja um petista de DNA tucano, é o líder do governo Dilma no Senado!

A partir dos depoimentos, a mídia fará, obviamente, o que sempre fez: criminalizar alguns e poupar os seus.

Mas o suicídio político é do PT. Por exemplo, ao sugerir que sua bancada votasse pela soltura de Delcídio.

Para todos os efeitos, 25 de novembro é o dia em que o PT se afogou em público, sob os olhares dos 300 picaretas do Congresso.

O que virá? A delação do Cerveró, possivelmente do próprio Delcídio, do banqueiro Esteves… um efeito em cascata que vai arrastar gente graúda, com o efeito prático de paralisar o governo Dilma.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, um quadro de primeira qualidade, acusou o baque numa entrevista ao Estadão:

“Quando você tem um sonho de transformar a sociedade em favor da igualdade e você se desvia para se apropriar de recursos ou para beneficiar quem quer que seja, você está cometendo dois crimes: o primeiro é colocar a mão em recurso público, o segundo, você está matando um projeto político”.

Uma delicada nota de falecimento.

Quanto à esquerda que sobreviver ao PT, tem encontro marcado com a lei antiterrorismo logo ali adiante. A não ser que, como o PT, priorize os gabinetes.


sábado, 14 de novembro de 2015

Um rio está morto. 
Em seu leito, peixes ainda agonizam, e à sua volta pássaros e outros animais olham sedentos e estupidificados.
Um rio está morto. A Estupidez do Homem o matou.
Um rio está morto. 
O Homem poderia tê-lo salvo, mas o Homem precisava justificar sua Estupidez, e agora precisa tomar seu café-da-manhã, aliciar seu ego podre e cultivar seu ódio ferrenho por seus semelhantes.
Parece que realmente não existem anjos.
Se existissem, talvez algum descesse à Terra e decretasse que o Homem não merece viver.

domingo, 23 de agosto de 2015

E eram tempos difíceis... A montanha de Lenin e o rochedo de Sísifo


                                                                             Paulo Edyr Bueno de Camargo
                      Professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS)

O PT acabou. É um cadáver insepulto que anda zumbizando por aí, com um quê de vampiro, sugando o sangue das pessoas, tentando voltar à vida. Transformou-se, sem glamour e sem finesse, num tocador de violino. Pega o instrumento com a mão esquerda e toca com a direita. Doravante, cá entre nós, “de mim para comigo”, não irei mais carregar o instrumento para a música tocada deleitar os ouvidos da alta (e nada nobre) burguesia. Basta!

Infelizmente, e com pesar, não é um fenômeno político circunscrito à terra brasilis, porque a América Latina, a Europa, o sul da África e até os Estados Unidos conheceram algo do gênero. É o fracasso da social-democracia e do trabalhismo. Não conseguiram superar a máxima de Margareth Thatcher: “Não há alternativa”. O que significa capitulação e rendimento às políticas capitalistas neoliberais.


Chico de Oliveira
O sociólogo e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) Francisco de Oliveira, o velho e sábio Chico de Oliveira, denominou tal fenômeno político de Hegemonia às avessas, tomando como base uma inversão do conceito de hegemonia do marxista italiano Antonio Gramsci. De acordo com Chico de Oliveira, no atual momento do capitalismo, compreendido como um sistema mundial, apesar das particularidades nacionais, a classe dominante se deixa governar por indivíduos oriundos de outros segmentos sociais com uma única condição: seguir à risca a sua política econômica e ponto final. Observamos, nesse sentido, na América Latina, um metalúrgico ascender ao poder, sucedido por uma ex-guerrilheira urbana, um presidente de origem indígena na Bolívia, um bispo católico ligado aos movimentos campesinos no Paraguai; no mundo, o fim do apartheid com Nelson Mandela na África do Sul, a terceira via de Tony Blair na Inglaterra e, pasmem, um presidente negro nos Estados Unidos. Foi uma concessão da classe dominante no intuito de “tudo mudar” para tudo permanecer como está. A mudança é muito diferente da transformação. Afinal, melhor ceder os anéis do que perder os dedos.

No Brasil, país singular, onde tudo pode piorar, parte da classe dominante não aceita essa concessão. Ela odeia a democracia, detesta ver o filho do pobre cursando a universidade e os aeroportos frequentados pelo “populacho”, expressão utilizada pela nobreza às vésperas da Revolução Francesa (1789). É como diz a letra do rapper Criolo: “Uns preferem morrer a ver o preto vencer”. Não é uma atitude estranha à elite brasileira porque, desde Vargas, passando pelo golpe militar de 1964 e chegando aos dias atuais, ela sempre defendeu o golpismo e a quebra da democracia. O Brasil foi um dos últimos países do mundo a libertar os escravos e, aqui, ainda persiste a mentalidade Casa Grande e Senzala. É certo que esse tempo passou, e cada vez fica mais longe, mas deixou marcas.

Zizek
Que fazer? Eis a pergunta formulada por Lenin no início do século XX. E nós, hoje, após a falência dos tocadores de violino, de forma ainda mais dramática, perguntamos: E agora, o que fazer? Slavoj Zizek relembra um texto pouco conhecido de Lenin chamado “Sobre a subida de uma alta montanha”, para discutir a importância do recomeço e da volta às origens. Lenin diz que quando o alpinista não consegue atingir o topo da montanha, ele deve recomeçar a escalada da base da montanha; de nada adianta partir do lugar em que estava, é preciso, antes, voltar ao início, esperar o tempo melhorar, a situação propícia e começar novamente a escalada. Quem se habilita a subir a montanha? A metáfora de Lenin serve para os tempos sombrios que vivemos atualmente na sociedade e, por conseguinte, na política. Precisamos voltar lá nos anos finais da década de 1970 e fazer o velho e bom trabalho de base.

O que acontecia no Brasil nos anos 70 e, portanto, antes da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980? Tínhamos, então, três instituições em profunda “crise” e que, necessariamente, precisavam repensar os seus conceitos e atuações. O PT teve o mérito de aglutinar as três instituições e reatar as suas relações. A primeira, e mais importante, no sentido de força social, foram as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), vinculadas à Igreja Católica que perdia espaço junto ao povo nos anos 50.

Leonardo Boff
O Concílio Vaticano II, em 1962, e depois a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Medellin, em 1968, orientados pela Teologia da Libertação, associaram o tema da salvação com o da justiça social. A imagem de Cristo passou a ser referência para a luta de libertação. A Igreja Católica retomou a mística dos cristãos perseguidos que não temiam sacrificar-se pela boa causa. A “salvação” do indivíduo tinha como pressuposto a instauração de condições de vida mais dignas e humanas. Valores morais como a solidariedade, a dignidade e a paz superaram o egoísmo e as injustiças sociais típicas do sistema capitalista. Calcula-se em 80 mil o número de CEB’s em todo o território nacional no ano de 1981. Era, sem dúvida, uma força social
poderosa.

Paulo Freire
Outra instituição que precisou repensar seus conceitos e sua prática no final dos anos 70 foram os partidos de esquerda. Após a desarticulação e a derrota dos movimentos guerrilheiros no início da década, o equívoco da famigerada teoria do foco, a “crise” calou fundo na esquerda brasileira. A maneira encontrada, por parte dos militantes, para “ligar-se novamente ao povo” ocorreu através do método Paulo Freire, que, além de ater-se à alfabetização de adultos, procurava despertar a “consciência crítica”.


A terceira instituição participante da criação do PT e que também precisou se reformular foram os sindicatos. Havia, nos anos 70, um sindicalismo conciliador, pelego e governista, herdeiro do populismo da Era Vargas. O chamado “novo sindicalismo”, sobretudo no ABC paulista, deu novos ares ao movimento sindical. A esperança renascia.
Lula, o sindicalista

Foram, portanto, as três instituições, ou melhor, os três movimentos sociais brevemente discutidos, além de outros como clube de mães, associação de moradores, movimento de saúde na zona leste paulistana, etc., os responsáveis
pela fundação do PT. Não foi ao contrário, como muitas vezes ouvimos falar. Hoje, infelizmente, a criatura dominou e silenciou o(s) criador(es).

O necessário trabalho de base, nos dias atuais, não pode repetir o passado. O Brasil mudou muito.  As estruturas sociais não são mais as mesmas. A história somente se repete como farsa, ensinava Karl Marx no século XIX. Temos, hoje, outros movimentos sociais que podem engajar-se na construção de outra forma de organização social. São apenas possibilidades, potencialidades, sementes que podem germinar, mas que existem e são atuantes. Refiro-me, por exemplo, ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que possui cerca de 50 mil famílias cadastradas, integralizando mais de 150 mil pessoas. É, sem dúvida, uma força social emergente. A questão da moradia deve ser pensada em conjunto com a reflexão a respeito do direito à cidade e da explosão da violência policial nas periferias. A lógica do “condomínio fechado” e do shopping quer segregar uma diminuta população de privilegiados
em detrimento da parte majoritária da população escassamente atendida pelas políticas públicas. Vivemos um apartheid não oficializado.

Outro movimento social que merece atenção é o Movimento Passe Livre (MPL), de matriz anarquista, com sua organização horizontalizada, plebiscitária, defensora da ação direta. Tem uma feição mais democrática do que os tradicionais partidos de esquerda e seus “chefes infalíveis”. Temos muito o que aprender com essa moçada, convenhamos e confessemos. Também merece atenção o número recorde de greves nos últimos anos. Em 2013 foram registradas mais de 2000 greves em todo país, superando o recorde histórico de 1989. Apesar das mutações do mundo do trabalho e da avalanche de terceirizações, as greves estão aumentando. O caldeirão está fervendo. Temos, ainda, diversos movimentos culturais nas periferias das grandes cidades com seus saraus, grupos de teatro de rua, movimentos de ocupação de praças, os adeptos do rap, música urbana que denuncia a violência policial nos arrabaldes. É preciso algo que aglutine a atual dispersão dos movimentos. Será possível a construção de um novo partido político radicalmente de esquerda? Não é supérfluo lembrar que o pensamento político de esquerda surgiu há mais de 200 anos como crítica e alternativa ao modo capitalista de produção. A questão é complexa. Será que a forma partido ainda é válida?

Precisamos, e isso é ponto pacífico, a exemplo do que já foi feito no passado, nos aproximar novamente do povo, “colar pra somar” (mais uma vez Criolo), ouvir atentamente as suas reivindicações e necessidades, descobrir o elo de ligação, a linguagem apropriada (ninguém nega que o Lula fala a língua do povo), ao invés de discursar a respeito da luta de classes e das mudanças estruturais da sociedade, embora ambas sejam verdadeiras e necessárias.  Não adianta ter a cabeça na “revolução” e os pés longe do chão. A palavra-chave é construção. Começar dos alicerces em direção a sonhada, a inadiável, a necessária, e nunca realizada, revolução proletária no Brasil.

Ainda resta uma pergunta, talvez a mais difícil, quais serão as pessoas mais indicadas para a realização do trabalho de base? Nós, digo, nós mesmos, ou melhor, a nossa geração, o pessoal dos anos 80, porque temos mais experiência e formação cultural e política. Nós somos aqueles que estávamos esperando. Teremos, assim, que nos armar de muita paciência e perseverança, além de aguentar muita incompreensão e desconfiança. Não será tarefa fácil. Escalar a montanha de Lenin com medo do rochedo de Sísifo. Avante!

bônus:
"Lion Man" (ao vivo)

domingo, 21 de junho de 2015

A Fury Road de Mad Max: percalços e atalhos



Quando, há três ou quatro dias, eu saí da sala de cinema depois de ver
Max Max – Fury Road, o único pensamento mais ou menos formulado que eu tinha na cabeça era este: “Meu Deus, quanto eu não daria pra ter meu nome perdido no meio da multidão de nomes dos créditos finais desse filme!”. Nem que fosse, sei lá, como faxineiro; e tanto por vaidade quanto para ter visto um pouquinho daquilo se construindo.
Depois, caminhando pelas prosaicas avenidas Afonso Pena e Ceará em direção ao terminal de ônibus, o deslumbramento foi cedendo ao senso de realidade. Claro, com todo o primor de seus efeitos especiais e a força sintética mas certeira de seu argumento, Mad Max não foge a alguns elementos básicos dos filmes de ação hollywoodyanos, entre eles a crassa inverossimilhança de, digamos, seu resultado (já que ele se estrutura como uma espécie de competição) e certos atenuantes da radicalidade ideológica (afinal, o conflito se dá entre, digamos, membros da elite).
Enfim, decidi esperar alguns dias para escrever sobre o filme. O ideal seria assisti-lo mais uma vez, o que eu gostaria muito, mas ele ficou pouquíssimas semanas em cartaz em Campo Grande. (Quem perdeu, recomendo que espere a versão blue-ray.)O fato é que, passados três ou quatro dias, e como não podia deixar de ser, a admiração voltou a se sobrepor aos reparos críticos. Porque o Mad Max de George Miller é mesmo um grande filme, talvez uma obra-prima; no mínimo, um dos maiores filmes entre os que unem ação e ficção científica de todos os tempos.
Mais do que uma continuação da saga, Miller (e seus parceiros, pois mais três ou quatro assinam o roteiro com ele) empreende uma releitura ou atualização radical de seu personagem. Aqui, mais do que nunca, Max faz plena justiça a seu epíteto. Mas muito já se disse sobre isso e sobre as virtudes desse filme que tem, de fato, o mérito de aliar primor técnico e profundidade humana e político-social. O que vou tentar fazer é sopesar o equilíbrio entre esses elementos.
E para dizer logo o fundamental, digo o seguinte: de um modo geral, o imenso aparato técnico mobilizado por Miller não dilui a força humana do filme, mas se soma a ela, na verdade ajuda a expressá-la. A palavra “expressão”, aliás, vem bem a calhar aqui. As ressonâncias de Fritz Lang e as homenagens a Murnau não são gratuitas: como nos filmes do Expressionismo Alemão, Fury Road é um filme onde cada quadro, cada movimento de câmera e, portanto, mesmo cada tiro e cada porrada exprimem uma significação humana.
(Atenção, aqui começam os spoilers. Quem não viu o filme, recomendo ver antes.)
Sim, Fury Road é antes de mais nada um grande de filme de ação, mas a tortuosa caçada pelo deserto a caminho do suposto Vale Verde das Várias Mães é acompanhada por um clima de angústia que em nenhum momento se dissolve, e cada cena de ação reforça essa angústia, inclusive pela relativa incerteza de sua conclusão – já que logo percebemos que os fugitivos (embora com as exceções de praxe) realmente estão sujeitos à morte.
O fato é que a angústia é a emoção predominante no filme, e nisso Miller foge completamente à regra hollywoodyana: a inevitável inversão de posições, quando os mocinhos enfim começam a se sobrepor aos vilões, não se faz acompanhar de nenhuma euforia sádica, dessas que tornam a morte de cada vilão um deleite para o espectador. Mesmo quando o grande algoz é destroçado pela horda, isso soa como um ato de justiça um tanto amargo, que atesta o horror da “realidade”.
Um detalhe que reforça isso é o fato de que antes não víamos sinais de revolta na multidão de miseráveis: a catarse vem “de dentro”, e não de um aliciamento demagógico operado pelo enredo junto ao espectador (cuja posição, note-se bem, é mais afim à horda que aos heróis: a de um aglomerado humano passivo).
Outro detalhe significativo: a oscilação de uma das “esposas” entre a insistência na luta por liberdade e a submissão a Immortan Joe não é punida com uma morte sádica. No drama de sua oscilação, é sua humanidade, não a mera tolice, que sobressai, e sem que palavras de explicação sejam necessárias para isso: a relativa escassez de diálogos do filme não reduz o peso da dimensão humana.
A força disso tudo deriva dos alvos certeiros da dimensão política do enredo. Os senhores da guerra; a exploração vampiresca do outro, particularmente da mulher; a fanatização religiosa como estratégia de sujeição, aliada à monstruosa apropriação privada dos já escassos recursos da Terra. Mesmo não explorados de forma exaustiva, esses temas pairam de forma onipresente sobre cada cena.
Isso não impede que a grande inversão – e facilitação – final se opere, e nisso Mad Max se assemelha muito a outro grande filme de ação e ficção recente, o Elysium de Neill Blomkamp, do qual também tratei aqui. O que a viagem de ida tem de difícil, a de volta – apesar das muitas perdas humanas – tem de fácil. E no final tudo se revolve com uma facilidade embasbacante. Sequer se oferece resistência aos novos, aliás, às novas senhoras das águas. (Ficando, propositalmente ou não, a dúvida quanto a seu efetivo compromisso com as hordas “populares”, já que o olhar de Max lá em baixo para cima sugere a manutenção dessa distância.)
É como se os efeitos especiais tivessem, no fim das contas, esse fim, ao mesmo técnico e político: a potência pirotécnica da produção se transmite como que por osmose aos heróis maltrapilhos, tornando-se, afinal, potência redentora.
Mas tudo bem, ou não tão mal, pelo menos: com sua, digamos, relativa radicalidade antropológica e político-social, Mad Max tem o imenso mérito de colocar determinadas questões com uma força talvez única na intersecção dos gêneros ação e ficção. Ainda que, nele, essa interseção permaneça palatável ao gosto do espectador médio americano (incluindo-nos aí), a angustiosa questão colocada no filme se fixa no horizonte de nosso próprio tempo: quem está matando o mundo?
E se Miller ainda não desiste de falar em redenção, pelo menos não se trata da redenção da fuga para um suposto paraíso, mas do olhar para trás, do retorno para o lugar de onde não se pode fugir: em seu cenário muito específico (o deserto da Namíbia), Max Max – Fury Road pode ajudar muita gente a se dar conta de que a África e seus problemas não são tão distantes assim.
Dedico esse post ao velho amigo que me apresentou o então jovem Max, e que hoje, coxinha consumado, provavelmente não gosta mais do personagem. Ao menos se quiser ser coerente consigo mesmo.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Horror e beleza em Red Hookers


A vontade – mais ainda, talvez, a necessidade – de escrever sobre o belíssimo filme de Larissa Anzoategui, Ramiro Giroldo (roteiro) e Pedro Roza (fotografia) foi uma das razões da minha retomada destes arquivos. Red Hookers é, provavelmente, o primeiro grande filme de terror produzido em Mato Grosso do Sul; grande, não no sentido da extensão, pois se trata de um curta-metragem – ao contrário de Astaroth, do mesmo trio e em fase de conclusão –, mas pela qualidade de concepção e realização. Antes, portanto, que o novo marco certamente constituído por Astaroth venha à luz, é melhor eu fazer minha lição de casa.

Eu escrevi “belíssimo” e, com tudo de arriscado e inadequado que essa palavra pode conter, é ela que de fato me advém, agora que revejo o filme na íntegra pela quarta ou quinta vez. Naturalmente, não se trata de um trabalho sem problemas, mas se eu tentasse me ater a isso estaria cometendo dois erros: o de opinar sobre questões que conheço muito pouco (sobretudo as técnicas e as relativas às propostas e ambições do cinema de terror) e o de trair a aposta que eu sinto que, mais do que a mera avaliação, um trabalho desses merece.

O fato é que, descontados os inevitáveis detalhes, ainda mais numa produção semidoméstica e de baixíssimo custo, Red Hookers é mesmo um filme belíssimo. Apenas o capricho da produção, o primor dos enquadramentos, da iluminação e da trilha sonora, já seriam suficientes para reserver a este curta de 18 minutos um lugar de honra na filmografia do Estado. Mais que isso, porém, Red Hookers é um belo filme enquanto conjunção dos elementos fundamentais que constituem uma obra de arte; uma conjunção na qual o valor da concepção encontra não só correspondência como potencialização a nível de execução – em suma, uma ótima aliança entre roteiro, direção e demais recursos ou níveis construtivos.

(Atenção, no próximo parágrafo começam os spoilers! Quem não viu o filme, não deixe de vê-lo antes de prosseguir. Ele pode ser adquirido aqui.)


O primeiro trunfo de Red Hookers, naturalmente, é o roteiro, e a primeira virtude deste é sua absoluta simplicidade – a qual, longe de confinar com a pobreza, tem um caráter decididamente arquetípico. Em linhas gerais, a trama de Ramiro Giroldo nada mais faz do que recortar e duplicar – numa sequencialidade que praticamente resume o enredo – um dos elementos ou “fases” fundamentais dos contos de fadas: a armadilha. Nesse sentido, o filme pode ser visto como uma variação do, talvez, mais arquetípico dos contos de fadas, “João e Maria”, que por sua vez ecoa o conto bíblico de Adão e Eva. Não será o caso, aliás, de que o tema do incesto fraterno, abordado no filme de Larissa e Ramiro de forma não exatamente sutil, ilumina algo a respeito dessas duas narrativas?

Seja como for, é na forma como dialetiza e ressignifica os campos em conflito nas arquinarrativas de armadilha que reside a novidade de Red Hookers. Primeiro, pelo esvaziamento semântico do que se configuraria como o campo de uma moralidade positiva. Esse campo, cujo único esboço efetivo se dá na forma da harmonia fraterna e familiar sugerida pelas fotos das irmãs Karen e Karina na abertura, logo se dissolve no ar de hipocrisia pequeno-burguesa que passa a envolver as personagens pelo falseamanto da situação prática e existencial de uma delas perante a figura de poder presente-ausente da matriarca familiar.


Sobre essa figura, vale notar que tanto sua condição feminina quanto sua própria presença-ausência contribuem para investir sua autoridade de um caráter não só repressivo como autorrepressivo – que incide diretamente sobre Karen, a filha que ecoa sua voz “muda” –, no que tange à própria condição feminina.

De par com o esvaziamento do campo moralmente positivo, há a ausência da estigmatização absoluta do que se configuraria como o campo negativo – tanto mais sugestiva e interessante na medida em que Ramiro Giroldo opera uma releitura da mitologia lovecraftiana, na qual essa estigmatização é uma marca importante. Não que a negatividade se dissolva na positividade em Red Hookers, pois o horror é um efeito buscado e obtido, mas ela não deixa, em praticamente nenhum momento, de se investir ou se aliar a uma positividade que, ainda que perfeitamente amoral, não deixa de ser efetiva: a da beleza.


Sem dúvida que o horror estranha e deforma a beleza, mas em nenhum momento a abole ou inverte completamente, como é comum nos contos de fadas (pelo menos quando refugados pelo maniqueísmo hipócrita da sociedade de consumo). Por sinistros ou repulsivos que sejam os efeitos obtidos pela maquiagem das escravas de Cthulu, parece ter sido um ponto de honra que a beleza das atrizes fosse perceptível pelo espectador. Da mesma forma, quando nos deparamos com os olhos polanskianamente sinistros de Lady Shub ela não perde a pose, nem suas curvas, que deslizam diante da câmera a seguir, se tornam menos sensuais.

O próprio estranhamento, no entanto, tem duas faces: uma desconstrutora, que se volta sobretudo para os padrões da Lei patriarcal oculta, e outra potencializadora, que se dá pela assunção de um poder eminentemente feminino: um poder terrível, mórbido e ambíguo, não exclusivamente feminino, já que por trás dele existe Cthulu, mas cuja forma visível e sensível é eminentemente feminina. Esse empoderamento comporta, obviamente, o paradoxo da sujeição – e nesse sentido Red Hookers pode ser visto como uma fábula sobre a restrição dos horizontes utópicos numa sociedade decadente ou terminal como a nossa –, mas mesmo essa sujeição é relativa.


Afinal, nada é mais desconstrutor no que se refere à potência masculina no filme do que a única protoforma visível (pelo menos ativamente visível) assumida por Cthulu, ou seja, os três falos grotescos que a certo momento vemos em ação. Tanto pelo estranhamento gerado no espectador (inclusive por sua proximidade com a genitália feminina) quanto por sua fragilidade, essas protoformas sugerem menos poder do que decadência; tanto que Lady Shub precisará compensar seu fracasso valendo-se das mãos (o que pode lembrar piadas pouco elogiosas a respeito da eficácia dos pênis). E se Shub sugere que é Karina quem fracassa, nem por isso o êxtase glorioso com que esta “incorpora” Cthulu deixa ser virtude de sua beleza (mais que do “mal” que ele representa).

É verdade que também se pode dizer – prosseguindo nessa inquirição de microelementos simbólicos ou protossimbólicos – que as dançarinas masturbam um grande “falo”, mas enquanto esse falo está fadado à insensibilidade e permanece aquém de qualquer êxtase, é a sensualidade delas que emana vivamente.


A conjunção dos elementos básicos e auxiliares da construção fílmica também aponta nessa direção. Por exemplo, a fotografia límpida de Pedro Roza e a trilha sonora de Leonardo Copetti, que plasma o horror do “ritual” de “conversão” de Karen numa minissinfonia das profundezas e o clima de estranhamento predominante no filme numa harmonia eletrônica dissonante, mas também a dimensão de empoderamento da trama na batida seca e precisa que acompanha essa anti-harmonia, dando-lhe um ar meio cyberpunk. E quando finalmente Karen demonstra sua submissão a Cthulu, é um belo solo de sax (de Leonardo Cavallini, em composição em parceria com Copetti) que acompanha sua exibição, como que redesenhando melodicamente suas curvas.

Em suma, mesmo revestido pelo horror, pelo estranho e pelo grotesco, o belo feminino impera em Red Hookers (que nesse sentido faz lembrar a figura sensual-vampiresca de Mirza, a personagem de quadrinhos de Eugênio Colonnese, cuja complexidade e dimensão psicossocial, no entanto, é bem menor). Um filme que consegue essa proeza não merece ser chamado de belíssimo? Nessa proeza, no elogio que tece da beleza acima de tudo – acima da repressão, da submissão e do próprio medo –, Red Hookers é um filme, muito mais que terrível, libertário.

terça-feira, 14 de abril de 2015

De volta à sopa

Há tanto tempo que eu abandonei isso aqui às traças que, se elas quisessem, poderiam me expulsar alegando usucapião. Em todo caso, não vou me preocupar em expulsá-las. Se elas ocuparam os espaços deixados vagos por tantos assuntos que eu deveria ter abordado aqui se fosse fiel aos compromissos assumidos comigo mesmo, que fiquem onde estão – provavelmente, aliás, vão se reproduzir e espalhar por outros espaços, porque eu não nunca pretendi e muito menos pretendo agora ocupar todos. Mesmo assim, se quero o benefício de um leitor que seja, acho que preciso fazer meu mea culpa. Porque se eu posso dividir a responsabilidade desse sumiço com algo, é com o meu atordoamento, já que o deprimente processo eleitoral do ano passado e, sobretudo, a insensatez discursiva que o acompanhou e ainda se sucede a ele me tornaram um bocado cético quanto ao papel da internet como espaço de cultivo de uma consciência crítica ou benéfica em qualquer sentido.

Mas claro que isso é uma grande injustiça. A internet é parte de um tipo de “expansão da consciência” que pode não ser a coisa mágica dos esotéricos mas que certamente existe. É preciso, no entanto, escolher os espaços; e o fato é que o espaço público e discursivo a que mais me dediquei nos últimos anos simplesmente não me serve. Não vou negar sua importância, mas a mim ele não serve. Tenho a impressão de que o Facebook (acho que as maiúsculas soam mais saudavelmente impertinentes que as minúsculas, constitutivas da própria marca) tem como grande resultado esvaziar as pulsões íntimas mais fortes que conduzem um sujeito à escrita, assimilando-as a esquemas simplificadores e levianos. Por mais séria que seja uma postagem, a procupação com os julgamentos alheios quase sempre predomina, e estabelece o primado dos mecanismos de conveniência ou exibicionismo. Claro que para muitos isso é parte de processos de sociabilidade e desrecalque decerto importantes, mas de minha parte estou saco cheio disso: não só de ser conivente como de me sentir praticando isso.

Este blog miserável, por menos leitores que tenha (e acho que eu consegui perder os poucos que tinha), ainda é um espaço no qual me sinto à vontade de uma forma mais efetiva para dizer o que efetivamente penso e sinto, e no qual posso tratar com um pouco mais de vagar de questões que eu acho que merecem isso.

Mas, enfim, por enquanto é isso: só pra dizer que os arquivos críticos (sim senhor, com o benefício das minúsculas) estão de volta. Não esperem grande coisa, aliás, não esperem nada. Não porque saber esperar não seja uma virtude nesses dias em que as sombras voltam a se adensar ante o fim de mais uma ilusão prolongada (cujo início não data dos governos Lula, e sim da neoliberalização do Brasil), mas porque a experiência comprova que isto aqui não merece o crédito exigido pelas grandes promessas. Isto aqui é no máximo como a sopa ralada de Jards & Wally – é uma forma também, afinal, de voltar àquela grande merda líquida, como a definiu um amigo. Com a diferença de que, graças aos deuses, nesta aqui ninguém precisa curtir porra nenhuma.