VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O olhar de Gelsomina


Para Carol de olhos serenos.
I
Graças a um convite dos colegas Marcus Villa Góis e Edneia Cerchiari, tive a chance, nesse fim de semana, não só de conhecer como de debater o filme “La strada” (1954), de Federico Fellini. Este post é uma tentativa de registro e ordenação de minha contribuição – de improviso, numa fala um tanto confusa – nesse debate, que ocorreu na última sessão do projeto Sábado Cênico, no último dia 21, e que também contou com a participação de Miguel Eugênio de Almeida, Juliana Simkzac Treuherz e Aline Dessandre Duenha, além do próprio Marcus e da plateia.
Sempre fui um pouco arredio a essa obra-prima de Fellini; em parte, eu acho, devido a esse mesmo elemento, fundamental na película, que dá título a este post: o olhar de Gelsomina, com sua mistura de peraltice infantil e carência temporã, entre outras coisas menos ou mais indefiníveis, sempre me incomodou nas vezes que o vi em trailers do filme...
Não foi por acaso, portanto, que escolhi esse tópico para dizer algo sobre essa obra que, confesso, me surpreendeu muito mais do que eu esperava. Mas também, naturalmente, porque se trata de um detalhe significantíssimo, que literalmente defronta – para não dizer afronta – o tempo todo o espectador.

Com Zampanò
Menos que apresentar uma leitura sistemática, o que me propus foi dizer algo de bonito – essa expressão prosaica traduz melhor a intenção – sobre esse filme que, antes e para além de tudo, emana uma grande e profunda beleza. O que naturalmente não deixa de constituir uma leitura, mas não uma leitura exploratória ou explicativa: talvez uma leitura essencialista – quiçá, epifânica –, no sentido de que busca trazer à tona algo da essência de seu “objeto”.
Mas isso não significa abstrair o filme de sua construção formal e seu contexto de produção. Pelo contrário, é no interior destes que nasce a singularidade estética e espiritual – que são uma coisa só – do objeto estético. Por isso, comecei tentando situar o cinema de Fellini no interior de uma dicotomia conceitual, como todas problemática mas que, bem manejada, pode ser bastante útil.
II
Essa dicotomia é a conhecida oposição entre cinema de poesia e cinema de prosa, da qual se valeu, décadas atrás, o cineasta sul-matogrossense Joel Pizzini – não sei se autor ou não dessa distinção – ao falar de seu filme (“de poesia”) Caramujo Flor. Trata-se, em suma, de supor ou sustentar que existem filmes ou cineastas onde o que impera é o tratamento estético da imagem e demais recursos fílmicos – com fins de significação e não apenas com objetivos técnicos e de verossimilhança –, e outros onde o que impera é a finalidade e o tratamento realísticos da imagem e a narratividade fílmica.
Por mais teoricamente problemática que seja – ainda mais aplicada a um cineasta que não raro extrai sua poesia do cotidiano mais chão (além do fato de toda imagem fílmica ser simultaneamente um trabalho estético com a imagem em si mesma e um registro temporal, “narrativo”) –, essa distinção não deixa de ser útil para discutir procedimentos e aferir gradações no que diz respeito, digamos, ao grau de poeticidade de um filme.

"Coroada" como Carlitos
E sem dúvida que os filmes de Fellini são, de diferentes formas e com diferentes intensidades, extremamente poéticos, sem que deixem, quase sempre, de versar sobre a prosa da vida; além de serem, não digamos essencialmente, mas estruturalmente narrativos, ou seja, de assentarem sobre estruturas narrativas, não raro (mas não sempre) básicas e convencionais. É o caso, aliás, de La strada, basicamente um enredo – e um jogo – cômico-dramático, com a estrutura dramática se impondo no final.
Mas, em que pesem certos momentos-chave, poesia e prosaísmo não são, em Fellini, elementos que se deixam, simplesmente, substituir ou encobrir (como na “poesia” dos filmes hollywoodianos, que recobre os conflitos) um pelo outro. Sem dúvida, muitas vezes o elemento “poético” se sobrepõe explicitamente, enquanto em outros ele chega a parecer ausente. Ele impera, por exemplo, em La nave va, onde Fellini flerta com o surrealismo, enquanto em Amarcord ele se alterna de forma delicada – e, portanto, em si mesma profundamente poética – com a narratividade. Em La dolce vita – o mais urbano e, talvez, mais desolado dos filmes de Fellini –, o prosaísmo supostamente domina, mas, além de ser sempre muito relativo, deixa-se dissolver num momento de poeticidade quase circense, chapliniana, como é a conhecida cena do banho no chafariz.
De um modo geral, no entanto, em La dolce vita poeticidade e narratividade convivem numa profunda e quase permanente tensão, manifesta, sobretudo, em diálogos espinhosos mas profundamente inspirados, algo semelhante a diálogos poético-filosóficos. E é um pouco assim, também – mas por outros caminhos –, em La strada.
Um ótimo exemplo da tensão entre prosa e poesia em La strada é a sequência de abertura. Sinteticamente, ela narra (“registra”) a venda de Gelsomina por sua mãe em condições que, no âmbito de um registro convencional, “realista” e despido de ironia, se apresentariam como trágicas. De fato, logo na primeira cena sabemos da morte de alguém, que logo adiante saberemos ser Rosa, suposta filha (provavelmente mais velha) da mesma mãe que, agora, pede para Gelsomina acompanhar o mesmo homem que havia levado a primeira (aliás, vende-a antes mesmo de “consultá-la”)... Tudo isso com a comicidade histriônica do choro descaradamente falso da mulher, que contrasta com o ar pesadamente utilitário e cobiçoso de Zampanò mas ao qual se soma a alegria ingênua e algo primitiva da própria Gelsomina.

Com o "louco"
Para além de qualquer representação crítica ou mesmo irônica – mesmo supondo, por exemplo, que a mulher sequer seja mãe das crianças, e que aquilo seja um comércio já corriqueiro para ela –, há no cunho tão acentuadamente grotesco dessa sequência uma espécie de princípio poético de composição.
Pois o grotesco, aí, nasce de um sentimento de paradoxo que se forja na mistura de tons incompatíveis: o tom cômico da superfície e o tom trágico latente e mesmo assim tremendamente pulsante, na medida mesma, inclusive, que já ali entrevemos o destino de Gelsomina; na medida em que o que vemos ali – a entrega de uma segunda filha (ou, que seja, pessoa) para o mesmo carrasco da primeira –, no âmbito, note-se bem, de uma cenografia que afinal de contas simula o real, deveria ser radicalmente avesso a qualquer comicidade.
A meu ver, nessa sequência se define o tom predominante da prosa e da poesia – ou da prosa poética – de La strada: a estranheza.
III
E sem dúvida que há um tanto de estranheza no olhar de Gelsomina. Em si mesma, a personagem é um compósito estranho.
A matriz de Gelsomina é claramente chapliniana. Há também, é claro, sua relação mais direta com o clown (que Aline Duenha explorou em sua bela fala no mesmo evento), mas diversos elementos explicitam a matriz-homenagem específica: o andar, o cabelo curto, vários trejeitos, o quase-chapéu coco que ela recebe de Zampanò... E é útil compará-la com essa matriz, até porque em Chaplin, e mais especificamente em Carlitos, existe esse dado igualmente fundamental em Gelsomina que é a aliança de elementos cômicos e dramáticos permeada, ou melhor, selada por um sentido marcadamente social, já que se tratam, ambos, de figuras radicalmente alijadas de quaisquer benesses sociais: um pela pobreza e outra não só por isso como pela escravidão.
Carlitos é, de certa forma, a personificação da inocência reencarnada no adulto. Sua carência e sua infantilidade são tão extremas, e suas demandas tão básicas – basicamente, subsistência e afeto –, que não podemos vê-lo senão como uma criança crescida. O que há de subliminarmente mais tocante na foto do Vagabundo com o menino e o cachorro é que os três por assim dizer se equivalem.
Gelsomina é diferente. A infantilidade de Gelsomina é muito mais impura, seu olhar não emana apenas carência de um afeto pueril, que pudesse ser suprido por uma criança ou um cachorro. Gilsemina tem sede da vida, e seu olhar exprime não só inocência ou carência como desejo. E seus atos o confirmam, seja na tortuosa fidelidade a Zampanò seja no amor mais pleno que emerge mas não se consuma com o acrobata (o “louco”, como que sua alma gêmea no filme). E seu desejo é também anseio de reconhecimento: vide seus trejeitos e seus olhares pedindo/simulando aplausos.

Desprezada por Zampanò
Elementos como esses impedem que vejamos Gelsomina apenas como uma criança crescida. O elemento ao mesmo tempo latente e pulsantemente adulto de sua personalidade  – como latente e pulsante é, desde o início, a tragédia de seu destino – torna seu olhar um pouco menos afeiçoável, ou pelo menos não tão imediatamente afeiçoável quanto o de Carlitos.
Em minha explanação oral, inquiri a plateia a esse respeito, e, como já previa, fui contradito, por uma ou duas senhoras e talvez um senhor, que afirmaram (ou esboçaram o gesto de afirmar) ter sentido uma empatia imediata com Gelsomina. Essa recepção simultaneamente estética e empática, no entanto, a meu ver só se estabelece de um ponto de vista superior à da teia diegética e significacional em que Fellini quer enredar o leitor, no sentido de que é um ponto de vista que não toma para si a demanda desejante que é Gelsomina. Um ponto de vista, em suma, maternal ou paternal – ou, em todo caso, dotado de um sentimento que se sobreleva ao olhar e à carência da personagem. Mais que empatia ou mesmo reconhecimento aristotélico, esse ponto de vista talvez comporte uma piedade subsunsora.
E tudo em Gelsomina, de seu olhar a seu destino, clama contra qualquer subsunção. O que Gelsomina quer é nada menos que isso a que chamamos realização, e nada, nela, pode nos constranger mais do que isso: no fato dela querer de forma tão adulta mas agir de forma mais tola que uma criança. E no fato de seu olhar já exprimir esse estado, essa sina ou o que seja, de um adulto que não consegue deixar de ser criança. É na percepção dessa formação incompleta, que não é o estado de graça da infância eterna do Vagabundo, que emerge toda a estranheza da “inocência” de Gelsomina: essa inocência é, sim, um atributo seu, mas o que ela tem de sublime não a purga do que tem de toleima. Uma toleima, para falar com todas as letras, que às vezes irrita.

Vendo o louco pela primeira vez
E nisso mesmo, justamente nisso, se vislumbra a grandeza do humanismo e da poesia – do humanismo poético, ou a poesia humanista – de Fellini em La strada. Pois o olhar com que ele nos defronta não tem a inocência fácil das crianças, mas, com tudo o que ainda traz dessa inocência, a contraditoriedade pulsante da vida adulta, algo estranha e grotescamente sublimada em tudo o que vemos cristalizado e vivificado nos olhos de Giulietta Masina. O desafio com que Fellini nos defronta é, portanto, muito maior: o de olhar e aceitar alguém na constrangedora premência de suas demandas.
E como esse alguém e essa premência – Gelsomina e seu olhar – particamente se derramam sobre tudo no filme, sem dúvida que eles constituem peças-chaves, senão a peça-chave, na intenção humanista que tão claramente informa La strada: a intenção de trazer à tona o valor do humano em tempos degradados como os do pós-guerra italiano, e dos quais Zampanò se faz o representante maior. E é esse “derramamento” empático, que pressupõe do espectador o aprendizado de amar Gelsomina, que permite a esse mesmo espectador aceitar como algo premente de um anseio humano de alguma forma válido, e não como um brado hipócrita, essa outra cena fortemente paradoxal que é o discurso de Zampanò recusando-se a abrir mão de sua liberdade por ter matado (digamos, quase acidentalmente) o acrobata.
De certa forma o olhar de Gelsomina já comporta esse paradoxo. Sob ele, no entanto, pulsa a, ingênua ou não, mas certamente prosaíssima – ou poeticamente prosaica – profissão de fé do cinema felliniano, e que se erige na confluência de seus laivos cristãos e anarquistas: a confiança acerca de alguma pureza ainda na mais torpe e contraditória humanidade. Como numa depuração de si mesmo, Fellini faz Gelsomina carregar – e espalhar – em seu olhar essa confiança.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Campanha “Dudu Livre” arrecada livros para presídio e denuncia arbitrariedade da Guarda Municipal


Durante a manifestação do dia 7 de setembro na Praça do Rádio, organizada por várias associações e movimentos sociais, tais como Anonymous Mato Grosso do Sul, Vem Pra Rua Campo Grande e Grito dos Excluídos, amigos do ator Eduardo Miranda Martins, o Dudu, irão lançar uma campanha com o intuito de cobrar das autoridades do Poder Judiciário a sua soltura.

Como estratégia de mobilização, serão arrecadados livros para que sejam doados ao Centro de Triagem, presídio onde Dudu se encontra. Dessa forma, enquanto não ganha a liberdade, Eduardo poderá promover atividade cultural importante, incentivando a leitura entre os detidos e os agentes carcerários, organizando uma biblioteca no local.

Outra forma de chamar a atenção da opinião pública será através de uma intervenção artística. Os amigos do ator vão ficar, durante as manifestações do dia 7, enjaulados, revezando-se, a fim de que as pessoas que estejam na praça tomem conhecimento do abuso de poder ocorrido nessa prisão, do desrespeito às garantias e direitos fundamentais e das liberdades individuais.

A performance questiona as políticas criminais e de segurança pública, que não são pautadas por valores democráticos e tampouco voltadas ao interesse público.

Droga plantada

Dudu foi preso após a passeata do dia 21 de junho, em frente ao Paço Municipal, como assevera Carol Emboava, testemunha que estava ao lado dele no momento em que foi pego:

“De repente, vimos um movimento de cerca de cinco pessoas com roupas normais saindo da ‘corrente’, ‘paredão’ que cercava a Prefeitura. Eram guardas municipais que ‘protegiam’ a Prefeitura. Um fingiu que foi pegar o ônibus, os outros foram para o outro lado disfarçando... chegando perto do ponto de ônibus, o homem que fingia estar esperando o ônibus (guarda à paisana, estava de boné vermelho, blusa branca, jeans, capa de chuva e mochila estilo ‘saquinho’) correu e pulou no Eduardo Miranda, os outros homens (guardas à paisana) que foram para o outro lado chegaram o derrubando, rendendo o Eduardo. Ele caiu, colocou os braços para cima e disse ‘mas eu não fiz nada, eu não fiz nada...’. Eu esperei que eles me pegassem, não me pegaram, eu saí caminhando lentamente e observando, foram levando o Eduardo Miranda para trás da Prefeitura, para dentro da ‘corrente’, do ‘paredão’ de guardas que estavam trabalhando naquele dia.”

Outra questão intrigante revelada pelos autos de inquérito policial é que Dudu foi detido aproximadamente às 20h30, mas só foi levado para a DENAR (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), segundo consta na lavratura do termo de detenção, por volta de 01h40, o que demonstra a ilegalidade da ação dos guardas municipais.

Dudu foi enquadrado pelo crime de tráfico de drogas, de acordo com a denúncia do Ministério Público. Supostamente foram encontrados em sua mochila 23 papelotes de cocaína e uma trouxinha de maconha.

Desde o ocorrido, seus amigos se mobilizam via Facebook para relatar uma nova versão dos fatos, a de que a droga foi plantada pela Guarda Municipal, ou seja, de que houve um flagrante forjado. Também denunciam que o modo como a prisão foi realizada teve caráter arbitrário e ilegal.

Na primeira semana em que Dudu ficou detido no Presídio de Trânsito, nenhum advogado conseguiu visitá-lo. Para garantir essa visita – que é direito constitucional –, a advogada Carine Giaretta teve que acionar a Comissão de Direitos Humanos da OAB e a Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados, sendo que os membros da primeira comissão também participaram da impetração de habeas corpus.

Os advogados de Eduardo Miranda, Rogério Batalha Rocha e Arnaldo Molina, já impetraram habeas corpus, que não foi conhecido pelo Desembargador Relator, Carlos Contar, bem como promoveram um pedido de revogação de sua prisão na 4ª Vara Criminal de Campo Grande, que foi indeferido no dia 03 de setembro.

                              Cidadão politizado e com engajamento cultural

Eduardo Miranda Martins é um jovem negro de família muito humilde. Foi candidato a vereador pelo PPS em 2012. Seu discurso político incluía um enfrentamento à Guarda Municipal, com declarações contra o Projeto de Lei – atualmente aprovado – que altera o art. 8º da Lei Orgânica do Município, autorizando o porte de arma pelos guardas. Entre outras coisas, Dudu criticava a falta de um regimento disciplinar para a Guarda.·.

Além disso, no dia 30 de abril, Dudu protocolizou reclamações contra a Guarda Municipal na Câmara dos Vereadores, na OAB e no Ministério Público Estadual, alegando ter sido espancado por 12 integrantes da Guarda, o que foi amplamente divulgado pela imprensa. O processo administrativo está sendo apurado pela Corregedoria da Secretaria de Segurança Pública de Campo Grande.

Os amigos de Dudu apontam para a estranheza do fato de que apenas ele, entre os ativistas presos nas manifestações de junho, foi acusado pelo delito de tráfico de drogas, justamente pela Guarda Municipal que o ator vem denunciando há muito tempo.

Dudu, além de ser cidadão politizado, tem participação ampla em atividades culturais na cidade. Coordenou e participou de diversos eventos como o Festival das Culturas Populares, Cinema Livre, Vídeo Índio Brasil, Teatro no Ponto, Avá Marandú, Semana Brecht, Mídias Contemporâneas e Narrativas Populares, Campo Grande Meu Amor, além de ser professor de teatro no projeto “Casa de Ensaio”.

Texto publicado originalmente no blog www.pollycansadadeguerra.blogspot.com.br

SÃO DONADON E A URNA PROSTITUTA


Havia uma Urna que, após vários anos se prostituindo, decidiu mudar de vida. São Donadon, repleto de longanimidade, confortou-lhe o coração dizendo: “Urna, Urna, minha pobre e gentil senhora, todos somos pecadores nesse mundo. Mesmo o mais santo há que se reconhecer no mais vil pecador. Só assim o mais vil pecador poderá ser reconhecido como santo. Aquele que não tiver pedra, que atire o primeiro pecado. Deixai que todos nós depositemos a semente em ti, pois é de tua promiscuidade que brota o Panteão dos mais belos deuses que há na terra. De ti depende o Panteão de vidro que resplandece sobre os pecados lançados e as pedras emudecidas.” Ouvindo isso, a Urna tranquilizou-se e regalou seu orifício a todos os demais santos com júbilo e alegria.

Finda a parábola, vamos ao menos importante: uma interpretação para nossos dias, para o nosso mês de setembro deste 2013, com seu iminente dia sete, data importante em nosso carnaval fora de ética. Dom Pedro, tu és pedra, e sobre ti edificamos nossa nação faz-de-conta. O fato é que, por esses dias, a Câmara dos Deputados não cassou o senhor Natan Donadon. Preso recentemente por peculato e formação de quadrilha, o parlamentar rondonense foi perdoado, beatificado, santificado pelos seus iguais em voto secreto. Habemus sanctum. O Panteão segue firme. Junho passou, pedras rolaram, pedras quebraram vidros, mas os vidraceiros trabalharam rápido. E os vidros parecem estar reforçados, afinal, pela primeira vez desde a Constituição de 1988 um deputado presidiário segue congressista. Houve um avanço ético do judiciário brasileiro ou foi o legislativo que superou todas as expectativas celestiais do autoperdão? E não precisa ir ao Planalto pra gente falar em santos pecadores. Na morena cidade vereadores cassados não largam o osso, o Mussolini pantaneiro segue descendo a guacha no lombo do povo, é tudo boiada, é tudo boiada, o Mensalão do MS revelado, filmado, comprovado e, por fim, inexistente. Fazem milagres: mais do que o Valdomiro Santiago, a classe política faz as doenças, o câncer da corrupção generalizada, o cancro coronelista, desaparecerem. Mas assim como para o próprio Valdomiro, televisão é sempre fundamental. Magia na tela, ofertas na cesta. Enquanto isso, Eduardo Miranda Martins segue enclausurado para jogar na cara de todos nós as palavras duras de Thoreau: “Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão”. Enquanto isso, os médicos campo-grandenses que matam matam matam pessoas enfiam cem mil reais de salário no rabo murcho de suas consciências ocas. Observando a máquina, quase queremos dizer: Finja-se de louco, Dudu! Faça como Raul! Não o Seixas, mas o Freixes. É a Lucidez o que eles não querem ver passeando livre por aí.
Só a Lucidez pode redimir a Urna prostituta e violentar a auréola de São Donadon.
E a Lucidez é a Reforma Política. E a Lucidez da Reforma Política exigirá mais luz no futuro. Muito mais. A luz de Lênin, talvez. Um Lênin Guaicuru. Um Lênin Luxemburgo Rosa sem Stálin. Um Lenin Tupã-Y Marçal Dorcelina nunca Dorsa. Mas vamos com calma. Uma Lucidez de cada vez, senão a gente fica doido.
A Reforma Política é o ponto central em um presente incerto. Sendo bem claro: a primeira Lucidez é o Financiamento Público de Campanha. Impedir as empresas, os banqueiros, as empreiteiras, a turminha da Kátia Abreu de bancar as eleições. “Ah, mas eles continuarão controlando a Urna prostituta, afinal, são os donos do bordel tupiniquim”, ouve-se. Fiscalizar, cobrar, cuidar da Urna deverá ser trabalho de todos. Não será fácil limpar suas doenças venéreas. Mas há remédio. A seguir, falaremos em democracia participativa, plebiscitos constantes, votação em temas nacionais o ano todo, assembleias populares, socializar a cultura política em detrimento do narcisismo pequeno-burguês. Brindaremos uma juventude curada de antigas viroses espirituais com medicina cubana. Em Cuba, crianças guardam as urnas em dia de eleição. Em Cuba, Yoani Sánchez não consegue sequer um voto em seu próprio bairro, mesmo com seu sorriso verde de dólares. Mas mesmo quem não acredita na medicina cubana, tenha certeza de uma coisa: a Peste é real. A Peste, esse cadáver malcheiroso dentro da Urna. A Urna Prostituta.
Em botânica, chama-se também Urna a boca das plantas insectívoras. Esses dias, o ilustre e cândido deputado Vaccarezza encabeçou um projeto de reforma política. Uma “minirreforma”. Urna, boca grande de planta carnívora: exigir menos documentos comprovando os gastos das contas de campanha, não vetar a candidatura de sujeitos que tiveram contas de campanha rejeitadas pela Justiça Eleitoral, usar o fundo partidário para pagar as multas aplicadas em partidos acusados de cometer irregularidades eleitorais. Vaccarrezza. A Urna prostituta, o Veneno do Escorpião autoinoculado. Esse sujeito é do PT. PT, aliado do PMDB. Quem te viu, quem te vê. Pior ainda, o PSDB. Haja o que houver, não votemos no PSDB. Quem, DEM, vai dizer o quê? Praticamente todos contaminados. Os não-contaminados, usam armaduras pesadas de Quixote. Eu vou atrás dos Quixotes ano que vem. Eu, Sancho Pança, quero a minha ilha, aquela que não se curva noite adentro vida afora, como disse o cantor engenheiro. Dragões danadões donadões não são meros moinhos de vento. Dragões-anguê. Enquanto isso os frágeis guaranis kaiowás, acampados e esfaimados na beira do nosso asfalto MS Forte, são os profetas apedrejados de um mundo em desgraça, de um húmus que talvez estoure a dureza dessa mesma brita onde estamos plantados.
As pedras saíram dos bolsos em junho. Descobriram mais uma vez que o vidro que corta, quebra. Um risco: as pedras bolsonariadas deste setembro perigoso podem quebrar a Urna. Uma esperança: as pedras que eu quero lançar miram o cocuruto corrupto de São Donadon. A Ágora contra o Panteão. Maria Madalena não era prostituta, mostraram os exegetas. E esta Urna será amante do povo, portadora da Boa Nova, anunciarão os historiadores que ainda sonham. Urna, esposa ardente de todos os trabalhadores. Esta Urna será também, no futuro que desejo, caixão da burguesia. Mas já não cheirará mal. Desta Urna sairá apenas o perfume e a música da Revolução. Urna-realejo: uma Revolução em crescendo, com flores, pedras, flechas, beijos despudorados, afinal, castidade e paz de espírito não são virtudes confiáveis. Uma Revolução permanente, com Sonhos que poderão continuar não cabendo na Urna, mas que ao menos poderão fazer amor com Ela sem ter que pagar nada por isso.


(Volmir Cardoso Pereira)



P.S. 1: Há um projeto encabeçado pela OAB chamado Eleições Limpas. Esse projeto, embora não preveja o financiamento público integral de campanha, estabelece que as doações de pessoa jurídica sejam vetadas e as doações de pessoa física se limitem a 700,00 reais. O projeto destaca ainda o voto em lista fechada e aberta e outros temas caros a uma reforma eleitoral urgente. É um bom começo para a Reforma Política. É uma das tantas vias possíveis. Vale a pena ler, apoiar e assinar. Vale a pena muito mais.

https://eleicoeslimpas.org.br/assine

P.S. 2: Dudu segue preso injustamente em Campo Grande. Neste dia 7 de setembro de 2013 a campanha "Dudu livre" promoverá ato em apoio a Dudu e arrecadará livros para levar ao presídio onde o ator se encontra recluso.

http://pollycansadadeguerra.blogspot.com.br/2013/09/campanha-dudu-livre-arrecada-livros.html