VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A DIALÉTICA DA CATÁSTROFE

" Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés." (Walter Benjamin)


         Em meio a barafunda global em que a humanidade se encontra, onde todos os fundamentos sob os quais ela se alicerçou estão ruindo, causando uma sensação de caos e desespero, essa nova Babel que se estende por todo o planeta, em que os homens não conseguem estabelecer um diálogo comum que os una em uma causa coletiva; onde as ideologias econômicas, políticas e religiosas que nortearam o projeto ocidental de progresso social se esfacelam em seu lugar de nascimento, a Europa, faz-se necessário  ultrapassar os limites do que o pensamento acadêmico oficial considera como científico, pensamento gerado neste mesmo continente que se perde em uma crise social gravíssima, para se poder ter uma compreensão, mesmo que parcial e limitada, da totalidade do que podemos chamar de espírito do tempo.
          Para se ter uma ideia desta Babel  globalizada , onde as pessoas parecem ter perdido a capacidade de compreender o outro, basta ver os debates que são transmitidos pela TV sobre temas diversos. A esquerda acusa a direita, os religiosos acusam os homossexuais, os homossexuais acusam os homofóbicos, os homofóbicos acusam os negros e judeus, todos acusam os políticos que acusam a economia, que parece ser obra de uma entidade sobrenatural que determina a vida de todos, mas que ninguém sabe quem a determina no seu movimento de auto-expansão .
          Como os problemas da maioria da população tem uma causa econômica, que é desconhecida por quase todos que vivem sob seu domínio, o deus-mercado, a divindade que preside o destino de todos que vivem no capitalismo, procura  um bode expiatório para ser apontado como culpado e, se possível, sacrificado para alegria geral da nação.  Uma hora os culpados são os pobres, ou então os negros, ou os gays, ou os judeus, ou os árabes, ou os políticos, ou os religiosos, ou os jovens, ou os terroristas, ou os corintianos, ou os estrangeiros, etc.
          Enfim o desacordo é amplo, geral e irrestrito. Vivemos uma guerra ideológica de todos contra todos. Uns defendem a pena de morte, outros a redução da maioridade penal, reforma no código penal para tornar as penas mais duras, outros defendem uma revolução armada para derrubar a ordem constituída e instalar o paraíso na Terra; outros defendem o vegetarianismo; outros defendem o sexo livre e sem compromisso; outros defendem o fim das religiões, outros mais radicais defendem a morte de Deus, já que o consideram o grande culpado por todo esse caos, pois foi Ele quem criou este mundo.
          O que todos esses discursos ideológicos ocultam, propositadamente ou não, é a questão central que está na causa desta e de todas as outra guerras: a dominação de classe, a divisão da sociedade em classes com interesses antagônicos, entre quem domina e quem é dominado, entre quem explora e quem é explorado. Pelo menos nos últimos cinco mil anos esta é a causa principal da guerra que os homens travam entre si. Os dominadores, para justificar sua dominação, afirmam que o mundo é assim porque Deus quer, que a humanidade está progredindo, que mesmo com os problemas sociais, o mundo é bom, principalmente para eles, e o que atrapalha o desenvolvimento são os pobres, os negros, os gays, os comunistas, os cristãos, os judeus, os muçulmanos, a religião, a política, a democracia, os jovens, os ladrões, os vagabundos e os preguiçosos. Enfim, em cada época histórica os ricos elegem um bode expiatório para projetar sua responsabilidade pelas injustiças que existem no mundo. Atualmente a bola da vez são os terroristas, que a mídia, controlada por eles, acusa como sendo os maiores inimigos da raça humana.
          O repertório de engôdos, manipulações, mentiras, calúnias, hipocrisias e desfaçatez é vasto. Vale tudo para perpetuara dominação de classe dos ricos sobre os pobres, inclusive guerras fratricidas que só no século XX exterminaram mais de 100 milhões de vidas, sem falar no genocídio indígena e na escravidão monstruosa dos africanos. O capital é insaciável em sua sede infinita por lucro, por dinheiro, por luxo, por ostentação. E para sustentar esse sistema vampiresco que se alimenta do sangue, do suor, das lágrimas e da alma dos trabalhadores, tudo é válido para semear a discórdia entre os homens, para que eles não reconheçam seu verdadeiro inimigo.

" Quero defender uma proposição marxista que mesmo os marxistas ortodoxos tendem a rejeitar: a tese do empobrecimento absoluto( não relativo) do proletariado. (...) O trabalhador industrial não está hoje muito melhor do que em 1800? O trabalhador industrial, sim, ou pelo menos muitos trabalhadores industriais. Mas a categoria "trabalhador industrial"  continua a abranger uma pequena parte da população mundial. A maioria esmagadora, das forças de trabalho do mundo, que vive nas zonas rurais ou se desloca entre elas e as favelas urbanas, está em piores condições do que seus ancestrais que viveram há quinhentos anos."

Immanuel Wallerstein, Capitalismo Histórico e Civilização Capitalista.

(Sebastião Ricardo)


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Dudu e o absurdo

Sou professor universitário há mais de dez anos. Sou formado em Letras pela UFMS, tenho mestrado em Teoria e História da Literatura pela Unicamp, doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP e concluí recentemente meu pós-doutorado na Unicamp. Não sou nenhum gênio, mas me considero razoavelmente - digamos, medianamente - inteligente, e me esforço, às vezes muito, para entender tudo o que ouço, vejo e leio.

É mais ou menos assim, com exceção da última oração, que me apresento em meu currículo Lattes, mas nunca havia cogitado em registrar nada disso neste blog, até porque meu objetivo é dialogar com quem quer que se disponha a isso. Acontece que, infelizmente, há situações em que é preciso demonstrar, como diz o chavão popular, que não se é ninguém, e esta é uma delas. Tudo para dizer o seguinte:

A ideia de que Eduardo Miranda Martins pudesse estar portando mais de vinte papelotes de cocaína na segunda noite de protesto em Campo Grande (aliás, uma noite de chuva intensa), sendo ele um dos manifestantes mais ativos e visados do movimento no município, é um acinte à minha inteligência. Um acinte, acredito, à inteligência de qualquer cidadão minimamente sensato.

Eduardo Miranda Martins, o Dudu, é um músico e ativista político e cultural de Campo Grande. Conversei algumas vezes com ele - a mais demorada delas foi durante um ato em defesa da luta dos índios Terena -, e tenho a convicção de que se trata de alguém em pleno uso de suas faculdades mentais. E também uma excelente pessoa; apenas idealista, aguerrido e sincero o bastante para que alguns o considerem um "porra louca".

Negro, pobre, autodidata, extremamente lúcido e corajoso: não tenho como deixar de admirar o Dudu.

Lembro de tê-lo visto na noite de 20 de junho, o primeiro dia de protestos em Campo Grande. Eu fotografava os cartazes e ele passou gritando alguma palavra de ordem, sem me ver. No dia seguinte, marcado por ações mais radicais que tive a sorte ou o azar de não acompanhar de perto, Dudu foi preso pela guarda municipal. A primeira notícia que circulou na Praça do Rádio, onde eu estava, foi a de que, depois de ter sido abordado pelos guardas, seu paradeiro era desconhecido. Só um tempo depois - uma hora ou mais - é que soubemos da prisão.

Detalhe: Eduardo tem um histórico de enfrentamento político com a guarda municipal, ou melhor, contra a autorização, hoje concedida, para os guardas portarem armas de fogo. Já discursou na Câmara Municipal a esse respeito, e essa foi uma de suas bandeiras quando concorreu para vereador em 2012. Mais ainda: Dudu move um processo, anterior à sua prisão, contra guardas municipais que, segundo ele, o agrediram na Orla Morena.

Feito esse resumo, peço licença para dizer e sublinhar novamente:

A ideia de que Dudu pudesse estar portando mais de vinte papelotes de cocaína na segunda noite de protesto em Campo Grande (aliás, uma noite de chuva intensa), sendo ele um dos manifestantes mais ativos e visados do movimento no município, é um acinte à minha inteligência. Um acinte, acredito, à inteligência de qualquer cidadão minimamente sensato.

Usei a palavra "absurdo" no título dessa postagem, criando uma eufonia com "Dudu", e pensei muito se manteria ou não esse recurso literário. Mas não há outra palavra. A permanência de Dudu na prisão beira o absurdo kafkiano. A esperança é que, ao contrário do que acontece n'O Processo de Kafka, a Justiça deste País e deste Estado seja - ou comece a se tornar - mais cega no bom do que no mau sentido: o da isenção, e não o da falta de bom senso.

Uma nota que pode soar como um gesto covarde, mas não é: não tenho nada contra os guardas municipais, embora também seja contra o porte de armas de fogo por eles. Mas respeito-os como cidadãos e trabalhadores. Conheço pessoalmente ao menos um deles, a quem admiro como pessoa e como músico. Na mesma noite em que o Dudu foi preso, vi uma jovem dirigir-se, indignada, aos guardas que protegiam a Prefeitura Municipal, chamando-os de covardes e coisas do gênero. Quando ela se retirou, eu disse a eles que nem todos pensavam daquela forma, que havia manifestantes que entendiam a situação deles etc. Lembro de dois ou três terem agradecido com a cabeça. O respeito e o bom senso podem estar em qualquer lugar.

Não costumo assinar minhas postagens (o nome já aparece aí embaixo), mas esse caso é mesmo uma exceção.

Ravel Giordano Paz