VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Selvagens alquimias no Rock MS (Parte II)


Finalizar essa postagem sobre as “selvagens alquimias” na atual cena roqueira de Campo Grande foi um pouco mais difícil do que eu pensei que seria. Talvez pelo fato de que escrever sobre Os Alquimistas é um desafio que eu tento encarar desde que os vi pela primeira vez. Na verdade, desde que os ouvi, pois antes disso alguém já me havia me mostrado os três então garotos de ar meio nerd, meio junkie, sem que eu tivesse conseguido acreditar que eles tocavam tanto quanto se dizia.

Pois é, foi preciso ver e ouvir pra crer. De formação atípica – baixo (Perin), teclados (Leota) e bateria (Boloro) –, os Alquimistas são pura energia, mas energia oriunda de muita habilidade instrumental. Com uma cozinha destruidora – a marcação forte e os fraseados curtos do baixo de Perin e a bateria de ar caótico mas precisa de Boloro –, sobre a qual o teclado de Leota viaja em melodias nervosas e solos virtuosísticos com toques psicodélicos, os meninos, no início, mandavam principalmente covers enfezados de Beatles, Stones, Kinks, Mutantes e às vezes até um Raul, e várias coisas que eu não conheço. Que eu me lembre, a única música autoral do repertório era uma colagem de ditos populares.

Mas de repente, como que do nada, as canções autorais começaram a aparecer. Rock songs tão básicas quanto as que inspiraram a banda no início, de letras curtas e divertidas mas nem por isso menos sinceras. Sinceras e só aparentemente banais, pois condensam, em pequenos insights poéticos, as demandas de uma parcela importante da juventude de hoje.

De fato, os temas de Perin exprimem as experiências e os questionamentos daqueles a quem se costuma chamar, preconceituosamente, de “rebeldes sem causa” (como se o que mais sobrasse, em todo lugar, não fosse motivo pra rebeldia). Mas justamente por serem sinceras, por não fugirem dos temas reais desse universo, é que as canções dos Alquimistas podem extrair dele um tipo de arte: uma arte muito crua mas de um vigor que também traduz um tipo de grandeza, um tipo de genialidade que pode parecer puramente instintiva mas que é também conceitual, porque esses garotos sabem muito bem o que fazem e do que falam.

De classe média ou não, Os Alquimistas são jovens – e porta-vozes de outros jovens – que decidiram não abrir mão da integridade de seu ser, e lutam de alguma forma, ainda que às vezes contraditória, por ela. Jovens, sobretudo, que se recusaram e se recusam a vender ou tolher sua liberdade. Jovens de classe-média que preferem repartir seus transbordamentos musicais delirantes e amorosos com jovens como eles do que fazer de tudo pra se tornarem profissionais bem pagos.

E não é preciso que as letras de Perin digam essas coisas expressamente pra que exalem tudo isso, nas reivindicações mais prosaicas, por exemplo, de relações livres e de pessoas e uma cidade que sejam melhores do que são hoje:

Eu gosto mesmo de você
Ah, isso eu não vou negar
Mas eu não quero andar
De mãos dadas com ninguém por aí
..........................................................
Eu gosto de você, mas
Quem precisa de duas sombras?
Eu não
(Duas sombras)

Eu já não sei mais para onde vou
Pois todo lugar que eu vou
Pra mim é batido
Pra mim é batido

Eu já não sei mais com quem conversar
Pois todo mundo com quem converso
Acaba o assunto
Acaba o assunto
(Cidade pequena)

Não me venha com esse papo outra vez
Pois toda essa babaquice me deixou maluco pra burro
Se ao menos você fosse uma pessoa do tipo
Que procura entender um assunto profundo a fundo

Nós poderíamos conversar
Nós poderíamos conversar
Mas não dá
Não dá, não dá
(Não me venha com esse papo outra vez)

Só quem mora numa cidade pequena (não importa o número de habitantes) e tem plena consciência disso compreende o alcance desses versos. Só quem tem esse incômodo pode entender o quanto essas letras retratam, em pinceladas rápidas mas precisas, a “vida íntima” de todo um universo social. Pra falar mais claramente, a realidade social e cultural de um campo que pode ser grande, mas o resto não é tanto.

E, no entanto, é com algo muito próximo da magia, com uma alma que exala beleza e liberdade, que as canções dos Alquimistas exprimem tudo isso. Aliás, antes mesmo de exprimir, elas já nos lavavam disso, pois só pode ser esse o efeito de uma música tão livre numa realidade tão pequena. 

É verdade que essa alma era mais sensível no início, quando o repertório de covers era explorado com alegria quase infantil, os meninos se lançando de forma quase alucinada aos instrumentos, imersos no prazer corporal e espiritual de saber brincar tão bem de música. Mas a verdade é que Os Alquimistas ainda estão começando...

E depois de rasgar tanta seda pra eles, nem sei ainda se tenho forças pra falar do seu subproduto chamado Sexy Burger...

Subproduto no bom sentido, porque a banda capitaneada pelo alquimista Boloro, e que agora conta com o também alquimista Leota nas baquetas e ainda o ex-outras coisas Diego Reinhardt na guitarra e a estreante mas desde sempre musa Mariana no baixo, não deixa de ser uma evolução em relação aos Alquimistas, pelo menos no sentido de que traz um repertório mais raro e seleto, com destaque para a cena protopunk novaiorquina.



Pra falar da Sexy Burger é preciso falar do Boloro, e se eu fosse definir o Boloro diria que ele é uma mistura de Lou Reed com Iggy Pop, mas com uma alma de Peter Pan por trás dessa velharada toda. Pra não pegar tão pesado, vamos substituir o Peter Pan, sei lá, pelo Ringo Starr. O fato é que Boloro sempre foi ao mesmo tempo o mais soturno e o mais leve, quase etéreo, dos Alquimistas, e é ele quem está à frente na Sexy Burger, com sua voz grave e rasgada, peculiarmente bêbada e vigorosa.

O contraponto e complemento perfeito dessa voz é a guitarra solo rascante e alucinada de Diego, à qual a cozinha do baixo, da bateria e da guitarra base do próprio Boloro dão sustentação perfeita. Leota, o tecladista alucinado dos Alquimistas, vira um monstro na bateria, distribuindo com fartura pancadas secas de dar dó.

O que falta agora à Sexy Burger é a produção autoral. Além de namorar, o casal Boloro e Mariana podia topar esse desafio. Ou, de repente, todos eles juntos. Aí, quem sabe, nascerá no céu de Campo Grande uma estrela capaz de brilhar sabe-se lá em quantos continentes e sistemas solares... ou, não importa, uma estrela pouco conhecida (eu, pelo menos, não conhecia) como a Big Star adorada pelo Boloro, mas de grandeza única.

Algo, em todo caso, que a gente percebe que está brotando na cena cultural de Campo Grande – e, claro, de outros lugares –, pelas mãos dos artistas que integram as bandas de que falei nesses dois posts e ainda outras, como a Macumbapragringo, projeto instrumental de Rafael Omar com outro corumbaense radicado em Campo Grande, Jean Santos, ou o projeto solo do próprio Omar, ou ainda a precocemente finada The Linquentes e outras coisas que estão começando a acontecer. Porque os selvagens alquimistas não param de chegar.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Uma nau de dor e salvação

Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

A isso alude, naturalmente, o estranho título do romance. “Amoucos” não é, como cheguei a pensar – e a própria autora me corrigiu, me obrigando a recorrer ao Google –, um neologismo alusivo a essas duas palavras-chave, amor e loucura, mas a sugestão semântica certamente participou da escolha (até porque a referência direta parece ser a nau dos loucos de Foucault). “Cheio de fúria, votado à morte; desesperadamente obcecado”: de fato, um amouco não difere muito de um amante louco, de um louco que ama ou quer amar desesperadamente.

E é esse o caso de Inácio, o protagonista do romance, e mais ainda o de sua mãe, Custódia. Em linhas gerais, Nau dos Amoucos se compõe do entrelaçamento das histórias desses dois personagens, e embora ela, a feminina, ocupe muito menos espaço que ele, sua importância não é menos capital: não tanto, talvez, na trama quanto no “espírito” da narrativa, com o detalhe de que é à dimensão subjetiva dos acontecimentos que a autora dedica a maior parte de seu empenho.

Ao mesmo tempo, é a história de Custódia, com sua pequena mas tumultuada sucessão de fatos dramáticos, que mais se investe de um conteúdo fabulístico no romance. Naturalmente, seria um desserviço revelar esse conteúdo ao leitor; basta saber que justamente aí, nessa cruel fábula moderna com ares naturalistas, amor e loucura se enredam de forma mais trágica. E é a efetiva loucura de Custódia que permite a Isloany abordar um assunto muito real e que, por sua formação psicanalítica, certamente lhe é caro: o do horror dos manicômios. A autora não se furta a descrever a mórbida existência da personagem na triste “montanha mágica”, uma irônica alusão ao romance de Thomas Mann, em que é internada: “Moscas insistentes, que se atraem, doentiamente, por cheiro de carne podre, eram os inquilinos que mais movimentavam cada canto. As pessoas eram restos humanos ainda vivos”.

No entanto, é em seu pertencimento ao conjunto da trama que a história de Custódia se revela em toda a sua importância. Pois é nesse desdobramento que Isloany trabalha a “loucura”, com aspas ou sem, dos ditos “normais”, certamente com aspas. “O louco é quem grita o meu sufoco”, diz a sabedoria empírica dos pichadores, enquanto um cantor vira e mexe tido como louco ou “alienado” complementa: “A certeza da certeza faz o louco gritar”.

Em linhas gerais, a trama de Nau dos Amoucos gira em torno das escolhas amorosas de Inácio, e de como as consequências dessas escolhas afetam seu estado emocional. Ao abrir mão da livre afirmação de seu desejo, mais que isso, da própria evidência da felicidade que se revelava a seus sentidos e sua consciência, Inácio se vê envolto por um crescente abismo de solidão e desamparo. A ânsia de resgatar um ideal amoroso da infância remete a uma ânsia e um desamparo mais fundamentais, onde a loucura da mãe certamente marca presença. E é justamente no ato de encarar essa chaga viva que se abre a possibilidade de superação para o personagem. Como isso se dá, e com quais consequências, também é melhor o leitor descobrir por si mesmo.

Por outro lado, é natural que, diante da tortuosa magnitude de Custódia, a figura de Inácio se descolora um pouco. O protagonista parece, às vezes, um trapalhão a quem a autora leva um pouco mais a sério do que ele merece. Ainda assim, para além mesmo das intenções ou afetos que enformam a narrativa, ou até porque esses afetos como que invocam os nossos no trato com o personagem, este tem o grande mérito de nos parecer vivo; e esta, certamente, é pelo menos metade da arte do ficcionista. Mesmo as passagens que parecem um pouco forçadas ou de verossimilhança duvidosa, como a de certa reação fisiológica ao fim de um ato sexual, têm uma força caracterizadora no mínimo provocadora.

Resta sublinhar a importância das outras duas personagens que, constituindo os objetos de desejo, cristalizam também as atitudes existenciais básicas de Inácio. Pois se Fabíola representa o retorno irrefletido, a aposta ilusória no mito de origem, Diana se alia à chance de escolha consciente, de reescritura do destino rasurado. Por via de uma, o passado de Inácio se fecha em si mesmo; pela outra, abre-se – sem dissolver-se, simplesmente – para o futuro.

Também a solução em que se configura essa abertura pode parecer frágil, no sentido de uma concessão excessiva ao personagem, mas ela comporta algo, também, de uma aposta, de um voto de confiança no humano – ou, mais especificamente, talvez, nos homens, enquanto, digamos (e complicações à parte), metade da espécie. Marcada por uma escrita eminentemente feminina, a ficção de Isloany se investe de uma potência desconstrutora face às contradições da masculinidade, ao mesmo tempo que as absorve a uma espécie de ritualística expiatória. Nesse impasse entre a radicalidade crítica e uma demanda redentora, mais ou menos correspondente à oscilação entre a crueza naturalista e o sentimentalismo romântico, talvez resida a principal aresta a ser trabalhada pela autoconsciência ético-estética da autora.

No mais, o estudo das técnicas narrativas e de construção do enredo e do espaço diegético, a atenção às mudanças de registro estilístico – por exemplo, no trânsito entre a voz sentenciosa do narrador (ou narradora?) e as falas mais prosaicas dos personagens – e ao ritmo da narração certamente ajudarão a lapidar o talento da jovem ficcionista, que já de início se arrisca a um salto tão ousado. Quem embarcar nessa nau certamente ficará ansioso por outras viagens de sua brava condutora.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Selvagens alquimias no Rock MS (Parte I)


Eu não queria ter terminado 2016 sem ter publicado alguns posts. Mas fazer o quê, enquanto eu não puder dizer “antes cedo do que tarde”, “antes tarde do que nunca” vai continuar sendo meu lema.
Enfim, este post é um deles. Pior que o atraso só tornou as coisas mais complicadas, pois o que deveria ser um texto sobre duas bandas, agora deve ser sobre quatro, já que as duas por assim dizer se duplicaram. E se antes eu não sabia muito bem o que dizer, já que sou um “crítico musical” totalmente desabilitado, pois não sou músico, agora sei muito menos. Mas vamos lá. No fim das contas, isso vai acabar sendo mais um texto nada crítico em louvor ao underground do Estado – agora, não só de Campo Grande mas também de Corumbá.
Este é o momento, aliás, de eu declarar que, desde que escrevi pela última vez sobre o rock da capital, pouca coisa tem me sido mais grata do que a descoberta do vigor e da qualidade que, embora obviamente em números menores, também viceja no da Cidade Branca. E mais gratificante ainda foi descobrir que esse vigor deve muito à cena que mal se esboçava quando saí de lá, no comecinho da década de 90; que amigos da época não só persistiram na cena como a enriqueceram com projetos de qualidade indiscutível, como a Resistência Suicida e a Sacrifício (que teve o Diogo Zarate da Jennifer Magnética nas baquetas), respectivamente dos camaradas velhos de guerra Lorenzo e Dição.
Resistência Suicida
E aqui eu me permito um parágrafo à parte pra registrar a surpresa e a gratidão por descobrir, já há alguns anos, que a minha “Arquivo de guerra” (minha entre aspas, porque a parte musical é fruto de uma costura coletiva) ocupa lugar de honra no repertório da Resistência, que por sinal resiste cada vez mais firme.
Capitaneadas pelo guitarrista e vocalista Gabriel Omar Postigliatti, as bandas corumbaenses de que vou falar (e já vou avisando que essa primeira parte deve ficar exclusivamente nelas) emergem diretamente dessa cena. Não por acaso, até outro dia Gabriel segurava o baixo na segunda formação da Resistência. Foi, aliás, o próprio Lorenzo o primeiro a me falar, com o entusiasmo de um verdadeiro apoiador, da primeira banda do Gabriel.
A velha carne, cujos primórdios datam de 2009, é um power trio formado pelos hermanos Gabriel (guitarra e voz), Rafael Omar Postigliatti (ex-baixo, atual bateria) e Ian Vitor (baixo). Uma referência que desde o começo me pareceu muito marcante na banda é a do grunge, principalmente Nirvana e Alice in Chains, mas a esse respeito Gabriel me esclareceu que há uma concomitância e certa afinidade entre a banda e movimento pós-grunge Stoner Rock. Outra vez, ele a descreveu como uma espécie de The Doors (de fato, vide versos como “E o céu serve de leito / Pra transa do dia com a noite”, que remetem aos de “Break on through”, de ) com uma pegada punk.
Mas com certeza as peculiaridades dA velha carne também se devem a outras vivências e influências. Entre estas, um pouco de atenção às letras e ao próprio nome da banda (mas não vou entrar em detalhes) revela ecos de ninguém menos que os Titãs; os velhos Titãs, bem entendido, dos anos 80 e começo dos 90, apesar da roupagem pop que envolve as canções mesmo dessas fases áureas. Por outro lado, as performances de Gabriel às vezes me lembram as de Paulo Miklos (apesar dos tons, timbres e estilos muito diferentes), que, como ele (por exemplo, em “Diversão”), tenta extrair o máximo de sua voz.
A velha carne (formação atual)
E se eu brinquei com a palavra “hermanos”, não foi por acaso: em que pese todas as broncas que já levei dos irmãos Omar por causa disso, em que pese a sonoridade muito mais suave (pelo menos a partir do segundo álbum), as inflexões ultradelicadas dos vocais de Marcelo Camelo, etc., eu sustento que há ressonâncias diretas da banda carioca na corumbanse. Algo, aliás, que se coaduna com os vínculos quase umbilicais entre Corumbá e o Rio. Não que A velha tenha algo a ver com o samba, mas confira o leitor, por exemplo, a introdução de “Coração nobre, espírio podre”, a faixa que abre a demo gravada em 2015 (ver os “anexos” abaixo), e me diga se não há um swing meio los hermanístico aí. E pelo menos uma letra, a de “Conselho”, me remete diretamente a algumas dos Hermanos:

O problema que você apresenta nos pertence também
Eu ouvirei um pouco, tentarei ajudar
Nós andamos rumo ao fim da estrada sem saída

Muito mais que as influências, porém, são propriamente as vivências que fazem d’A velha carne uma banda única, e uma das melhores do underground brasileiro. O que há de mais forte e singular nas canções, sobretudo nas letras, de Gabriel Omar é a forma como elas, mais que espelhar, exalam as carnes, as almas, o sol e os chãos calcinantes da velha Cidade Branca, como se o som pesado e distorcido da banda emanasse diretamente de seu asfalto tórrido. Eu mesmo já fiz versos não muito distantes destes de “Corpo líquido”, a última faixa da demo (e essas afinidades me deixam tão feliz que me permiti incluir a versão “punkacústica” da minha “Agonia” nos anexos):

Derretido pelo calor do sol
Tornou-se um líquido no asfalto
As rodas dos carro te esparramam
O salto da moça te perfura
O sapato do cara te esmaga

Mais que isso, ainda, é admirável como as canções d’A velha extraem desse lugar tão aparentemente isolado algo de universal. A província deformada, como eu já quis chamá-la, com suas quebradas sujas, seus labirintos físicos e mentais povoados de fantasmas. Não por acaso, “Tudo que se sente” é a canção-chave da banda:


Tão profundo era o sono que
Pesadelos e sonhos pareciam reais
Através de desejos secretos e obscenos
Lembranças remotas quase esquecidas
Tudo que se sente embutido na velha carne

Em outras letras, as agruras psicológicas se desdobram em imagens metafísicas, que na voz meio operística de Gabriel compõem espécies de hinos antievangélicos. Além de “Coração nobre, espírito podre”, é o caso de “Tema da descida”, também da fase inicial da banda:


Descendo a escada até tocar o chão
Apertei a mão do diabo
A velha carne, em seus floridos primórdios
Ouvi o sussurro de Deus
Olhos e punhos fechados
Até onde posso descer?
Encontre-me embaixo
Na terra dos anjos sem asas

Um aparte pra dizer que o ar dantesco desses versos me lembra os do poeta campograndense Jânder Baltazar Rodrigues, autor do Campo Grande do Inferno; com a diferença, é claro, de que nos de Gabriel Omar o sopro “metafísico” convive com figurações não só carnais como libidinais.
O fato é que pelo nível e atualidade das letras, pela densidade e vigor sonoros, com uma qualidade que aumentou com a ida de Rafael para a bateria (na demo, as baquetas são de um tal de o que a demo não registra, mas o vídeo ao vivo de “Corpo líquido” sim), A velha carne tem tudo para ocupar um lugar de destaque, mais que no underground local ou mesmo nacional, na cena musical brasileira: nesses anos temerários, em que as farras (ricas e pobres) do populismo finalmente acabaram, talvez não seja de espantar se o rock brasileiro finalmente renascer das cinzas.
Se a alma punk está presente n’A velha carne, A cidade e o selvagem tem a alma e a carne punks. Fundamental quanto a isso é a presença de dois músicos oriundos da excelente Alcoólatras, que há poucos dias impressionava com a autenticidade de seus covers raivosos de Cólera, The Clash, Dead Kennedy e Ramones e agora trabalha suas próprias criações: Felipo Ronaldo, nas baquetas, e no baixo Rodrigo Daltro, vocalista dos Alcoólatras.
A cidade e o selvagem
Mas a sonoridade d’A cidade, projeto bem mais recente, não deixa de conter elementos experimentais (principalmente quando um charango, de João Carlos Ibanhez, se soma à banda), assim como as letras, de cunho muito mais político e social (há, inclusive, uma sobre os sem terra), não deixam de conter elementos existenciais. E certamente é algo importante que esses elementos se casem tão bem, por exemplo, em “Escravo da rotina”, não só pela qualidade que isso atesta como porque faz perguntar se os trabalhadores brasileiros já não estariam prontos pra esse tipo de percepção.


Aos berros um olhar
Tentava acalmar o mundo
Estava no lugar errado
Para se tentar sozinho
Então, os olhos ficaram cegos
Pelo brilho das correntes
Correntes, correntes
(Não deixam suas ideias desabrocharem)
São os ferros que prendem o cérebro ancorado
Do escravo da rotina
Depois de um dia exaustivo de trabalho
Basta refletir um pouco mais
Saia do seu leito
Olhe para fora


Mais estranha e dissonante, “Sistema de suor” volta a encenar a fusão de coisas dos mundos com visões quase transcendentais:


No buraco do mundo
A carniça fede e os urubus se excitam
O clima é pesado, o coração martela
Um medo compartilhado
Alimenta a fome dos patrões
Num olhar para o alto
Vê-se o pano de fundo, o céu
A fumaça passeia e se une às nuvens carregadas sobre todos


Sem mais o que dizer. Na minha humilde opinião, essas bandas, assim como os Alquimistas e a Sexyburger, das quais vou falar na continuação deste post, merecem figurar na proa do cenário underground nacional. Essa cena que, volto a insistir, nos próximos anos talvez se revele mais forte e importante do que se pensa. Nossos dias de Seattle hão de chegar.
Anexos”

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O cão do homem


Fábio Dobashi Furuzato

Hoje eu sonhei que escrevia que era o Jake que sonhava que era eu.

Quando esse eu sonhado pelo Jake da história que eu escrevia no meu sonho chegou em casa, o Jake e a Jolie latiram muito ferozmente para mim. Ou melhor, o Jake e a Jolie sonhados pelo Jake da história que eu escrevia no meu sonho latiram muito ferozmente pra esse eu sonhado pelo Jake da história que eu escrevia no meu sonho. Sendo que, daqui em diante, vou chamar cada um dos eus simplesmente de eu, não importa se sonhado, escrito ou acordado, assim como chamarei cada Jake simplesmente de Jake e cada Jolie de Jolie, para que consiga prosseguir com a história.

Pois bem, após ter sido muito ferozmente latido, ficado bastante chateado e outro tanto espantado, fui andando até a sala, onde encontrei Johann Sebastian Black Sabbath – sendo esse, do mesmo modo, sonhado pelo Jake da história que eu escrevia no meu sonho e também devendo ser tratado, daqui em diante, apenas como Johann Sebastian Black Sabbath ou simplesmente Jão. Mas, enfim, lá estava o Jão todo folgadão na sala, vendo TV e tomando umas cervas, com os pés em cima da mesa.

Caraca, Jão! O Jake e a Jolie latiram muito ferozmente pra
mim...

O Jake e a Jolie sonhados pelo Jake da história que você escreve no seu sonho?

Pô, não começa com isso...

Foi mal, cara! Mas é que, nesse sonho do Jake da história que você sonha que escreve, você não é você!

Como assim, eu não sou eu?!?

Não é, porque o Fábio desse sonho do Jake da história que você escreve no seu sonho tá lá dormindo no quarto e roncando que nem um porcão...

...?

Vai lá ver!

Chegando no quarto, lá estava eu de fato, ou melhor, eu nesse nível da realidade que vocês já sabem qual é. Não estava dormindo, muito menos roncando que nem um porcão, mas parecia ter acabado de acordar e escrevia algo no computador, como se registrasse algo antes que pudesse esquecer.

Olhamos um para o outro, ou melhor, eu pra mim mesmo, bastante assustado(s). Em seguida, tive curiosidade de saber o que o outro eu escrevia e lhe perguntei.

Qual dos eus? – ele respondeu.

Putz! Chega dessa piada...

É que tem pelo menos três eus escrevendo agora...

...?

Tem dois eus sonhados pelo Jake da história que você escreve no seu sonho, sendo que eu escrevo e você não. Tem aquele que escreve que era o Jake que sonhava que era eu. E o outro que escreve que sonhou que era o Jake sonhando que era eu.

Ainda mais perturbado, tentei olhar à força pra tela do computador e ver o que é que o outro eu escrevia, mas, nesse exato momento, o note desligou e fiquei sem a resposta. Ou melhor, esse eu sonhado pelo Jake da história que eu escrevia no meu sonho ficou sem a resposta...

Quanto ao eu que acordou e veio correndo para escrever este sonho, não faço ideia de qual seja, mas desconfio seriamente que seja o Jake!

Para a Jolie (in memorian)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A propósito das desventuras de uns meninos e sua narração


Por Geraldo Vicente Martins (UFMS)

Confessional desde o início, a narrativa de “Os meninos da colina”, livro com que o professor e crítico de literatura Ravel Giordano Paz adentra o terreno da ficção, busca estabelecer um diálogo próximo com seus leitores, revelado na interpelação direta ao interlocutor com que se inicia. A partir desse viés subjetivo, todos nos encontramos convocados a recordarmos de nossos dias de adolescência (“dias de luta”, diria a letra da canção de uma das bandas de rock brasileiro não citadas no texto), bastante reconhecíveis no cotidiano do menino Jean e seus amigos. 

Da perspectiva do conteúdo, a trama conduzida pelo narrador-protagonista cativa por sua simplicidade, em que se relatam as (a)venturas e desventuras de um grupo de adolescentes que, aos poucos, descobre as vicissitudes da jornada humana, com seus infortúnios e mazelas, advindos, sobretudo, da visada com que os adultos, munidos de sua peculiar autoridade, a direcionam. Nesse sentido, o tom leve e divertido que o narrador imprime à história permite que se acompanhem as artes da turma com interesse e prazer, fruindo-se, com facilidade, do jogo ficcional que a obra propõe.

Acompanhar o processo de amadurecimento de Jean, em meio às descobertas que se descortinam no comportamento dos parceiros de turma, seja na escola ou fora dela, revelando a ele a complexidade dos homens, não importa se jovens ou adultos, passando pelos grandes temas que afetam a todos nós, como amizade, amor, liberdade, justiça e responsabilidade (para citar apenas alguns), constitui-se como um exercício de descoberta também para o leitor, valorizando o seu percurso de leitura e construção de sentidos a partir da narrativa.

No que concerne a alguns elementos que compõem a história, alguns pequenos deslizes podem vir a ser corrigidos em edições futuras, com vistas a evitar qualquer desvalorização, por conta disso, do enredo bem contado nas páginas do livro. A título de exemplo, mencionem-se apenas duas ocorrências dessa natureza: na página 12, “2º B” (em vez de 1º), e na página 15, “The Grandfather” (em vez de The Godfather).

Considerando a estruturação narrativa do texto e os procedimentos empregados pelo autor, três ressalvas devem ser apontadas. A primeira vai para a presença de certos anacronismos ao longo da história; dois exemplos, um mais explícito e outro menos, ajudam a entender o senão: em determinado episódio, um dos personagens se refere ao roqueiro Lobão como “coxinha” (expressão cuja conotação política é bem própria dos nossos dias, mas não do final dos anos 1980); em outro, alude-se aos grandes protestos da juventude, duvidando que pudessem encontrar ressonância em momentos posteriores da história do país. Ainda que se revistam tais menções com traços de ironia, elas acabam trazendo ao texto resquícios de um exercício de futurologia que acabam por não condizer com sua totalidade.

A segunda ressalva que se pode apontar diz respeito ao apêndice que se apresenta ao final do livro, o qual, problematizando ficcionalmente a criação fictícia do próprio romance, provoca, por vezes, certo desconforto no leitor, decorrente de algum exagero em sua composição, tal é o modo com que insiste em “desmerecer” o valor da própria ficção. Aliás, essa desconfiança é alimentada também em outros momentos do texto, como no início da página 64, em que o narrador questiona a veracidade de seu relato por meio da expressão “Por incrível que pareça”...

Finalmente, a terceira objeção dirige-se para a organização temporal dos eventos narrados; tendo em vista que o autor é bastante enfático com relação a esse ponto, espalhando índices marcadores de tempo por todo o texto – às vezes, inclusive, em curto intervalo da trama –, torna-se necessária uma atenção maior para a questão, pois, em diversos momentos, a impressão que se tem é a de um descompasso entre a passagem do tempo e sua marcação – em linguagem ordinária, diríamos que “parece acontecerem muitas coisas em pouco tempo”.

Com relação às duas primeiras ressalvas, pelo controle que demonstra em sua escrita, não parece haver grande dificuldade para Ravel resolvê-las em obras futuras. A nosso ver, o grande desafio que a ele se apresenta é o de trabalhar o domínio do tempo e, mais ainda, do ritmo da narrativa, elemento essencial para que sua prosa possa alcançar patamares mais altos, uma vez que a matéria para seus textos ficcionais ele já encontrou: histórias de gente comum transfiguradas pelo poder da linguagem que emana de sua escrita.

Não deixa de ser um ótimo começo.

Prof. Geraldo Martins

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Aquarius: a miséria de alguns e
a grandeza do humano

Que toda obra de arte reflete seu tempo, por vezes de formas muito diretas, é um fato inegável, mas não é todo dia que arte e política se imiscuem de formas tão intensas quanto no episódio do filme Aquarius. O aparente desfecho do caso foi a decisão do Ministério da Cultura de indicar outro filme – que, pelo trailer, é, tanto estética quanto ideológica e até social-etnicamente, quase que o exato oposto do filme de Kleber Mendonça Filho – para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. O que, de uma certa forma, é até bom – pelo menos garante a Mendonça o cultivo de sua veia underground por mais um tempo –, mas não deixa de ser uma grande mesquinhez, não apenas pelo evidente conteúdo político do gesto, e não tanto no sentido de que talvez esteja impedindo o cinema brasileiro de, finalmente, receber a cobiçada estatueta (uma “lacuna” que redobra seu valor de fetiche) quanto no de que sabota a divulgação deste que é, certamente, um dos melhores filmes do ano (assim como O som ao redor, o primeiro longa de Mendonça, foi em 2012).

É óbvio que a manifestação dos atores em Cannes contra o governo Temer pesou, e muito, nessa decisão; mas eu tenho minhas dúvidas se, de qualquer forma, pessoas a serviço de um governo conservador elegeriam para um “cargo” como esse, de “representante nacional” num evento de magnitude global como o Oscar, um filme com uma visão tão livre e libertária da vida, comportando, inclusive, várias cenas quase pornográficas; mais que isso, porém, que mete o dedo em feridas tão profundas, e com tamanha qualidade artística, tamanha grandeza de visão humana, que, mesmo com seu pertencimento tão agudo a seu tempo, o tornam muito mais do que uma peça de polêmica.

De fato, a primeira coisa que tem que ser dita sobre Aquarius é que se trata de um grande filme, e graças não tanto a suas virtudes técnicas, como a fotografia e mesmo a direção, ou mesmo ao drama de seu enredo (que nem é tão dramático assim), mas sobretudo à grandeza com que retrata a vida humana, na busca de uma espécie de realismo extremo, não no sentido de uma estética naturalista (apesar da importância do sexo e do desejo), mas quase, talvez, de uma antiestética, e isso não no sentido vanguardista do Cinema Novo, mas de busca de fidelidade ao real da vida para além dos esquemas dramáticos. Claro que tanto a direção quanto as atuações pesam muito nisso; aliás, apenas a atuação de Sônia Braga (essa é mesmo a Sonia Braga que foi Gabriela, Dona Flor, etc.?) já seria suficiente para torná-lo um filme inesquecível; o primeiro e talvez maior mérito de Aquarius, porém, é ter um roteiro excelente, principalmente na construção dos diálogos e, menos que da trama geral, dos fatos humanos.

Num texto que tenta cumprir a ingrata e constrangedora tarefa de diminuir o valor de uma obra de arte tão forte, Carol Prado, do G1 (e olha que a Globofilmes é uma das produtoras do filme), diz que Aquarius faz uma “reflexão poderosa” mas tem uma “visão simplista” devido ao maniqueísmo, uma afirmação que não soa como a coisa menos contraditória do mundo.

O fato é que se há algo que Aquarius não é, é um filme maniqueísta. Clara é uma mulher íntegra e forte, mas de forma alguma a encarnação da bondade ou mesmo da estrita coerência. Isso se manifesta não só em suas relações familiares mas também nas relações sociais, principalmente com a empregada doméstica, que, mesmo tida como velha amiga, amarga pequenos ranços autoritários da patroa. Se fosse preciso e possível localizar a família de Clara no espectro ideológico do ideário de esquerda, seria o da esquerda populista-patriarcalista (ou, no caso, “matriarcalista”) de Brizola e Arraes, e há claras indicações de que o filme não "fecha" estritamente com ela. A aguda fala de outra personagem sobre o roubo das jóias cometido por outra empregada, e que depois suscitará um sonho na heroína (mas chega de spoilers), é mais do que sintomática nesse sentido.

Enfim, Aquarius é um filme de rara complexidade humana. Como em O som ao redor, os diálogos laterais ao fio do enredo e a atenção, mais que ao cotidiano, ao corriqueiro têm a função de mostrar que a vida é sempre muito mais que o que cabe na tela. Na telona e, mais ainda, na telinha, já que é sobretudo com os estereótipos sociais das telenovelas que o filme de Mendonça contrasta.

E é essa, no fim das contas, a grande oposição que configura o drama do filme: entre aqueles que amam a vida, que a sabem muito maior que as aparências e as ambições, e aqueles que desprezam o humano pelo dinheiro e pelo poder. Há, sim, essa divisão, muito clara, no filme, mas ela não é maniqueísta nem caricatural. Uma divisão que, infelizmente – e mesmo com mil matizes –, também existe na vida. Se nenhuma virtude dos Bonfim é mostrada, Mendonça também não explora seus defeitos; simplesmente sua ambição desmedida é um dos motores da trama. O filme poderia mostrar, por exemplo, que se a intelectual e meio artista Clara fuma sua maconha, o jovem engenheiro provavelmente cheira sua cocaína. Um Sergio Bianchi provavelmente faria isso.

Mas este não é um filme sobre o ódio ou mesmo as atrocidades da vida contemporânea. O atroz está presente, sim, mas Aquarius é um filme, principalmente, sobre a grandeza e a contraditoriedade do humano; um filme, como escreveu Matheus Pichonelli na Carta Capital, sobre a necessidade de resistir – pois, num mundo onde a miséria de alguns fecha as portas do humano, resistir é necessário para viver.