VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sábado, 29 de junho de 2019

Um Brasil procê ver (ABrazylForYouSee)



I

Chegaram quase no fim da tarde, num horário em que já era perigoso entrar na Mata. Sem falar que, apesar das carnes rijas e das peles de bebê, eram Velhos (Oldyes): ele beirava os cem, ela os cento e vinte. No dia seguinte, garantiu-lhes o guia, teriam todo o tempo do mundo.

– AllRyght, respondeu o Velho.

O guia foi dormir tranquilo, mas eles não. WhatTheFückey, não tinham cruzado o AbismoDoPanamá pra dormir! E tanto melhor, livrarem-se logo do guia. Teriam de fazer isso cedo ou tarde, e, de qualquer forma, o GuiaQuântico (QGuyde) era muito mais confiável.

Saíram às escondidas, depois de pegarem as mochilas com os Apetrechos (Apparatus), incluindo o DespistadorQuântico (QDeceyver), que os ocultaria dos rastreadores e câmeras de segurança. Um mecanismo polêmico, mas eles tinham licença de uso: eram pais e avós de AgentesFederais.

Foram a pé, confiantes na saúde, no ânimo e nos Apetrechos. Em todo caso, estes incluíam relaxadores quânticos de última geração. Tudo nos conformes para viverem uma verdadeira GrandeAventura (BygAdventure), conforme combinaram e selaram com um aperto de mãos, olhos nos olhos, faros apurados. Cheiravam a óleos.

Ele ia na frente, por pura convenção. Sabia que quem guiava, de fato, era ela, que pisava mais duro. Nunca expressaram a menor consciência disso, mas uma determinada pisada dela o fazia parar, outra mover-se, outra virar à esquerda, outra à direita.

Seguiam pela RotaDasPedrasRetorcidas, o caminho mais longo e mais árduo. Queriam apreciar a paisagem devastada. Quando alcançaram a Mata já era noite.

Na Aldeia, o Pai disse ao Filho:

Estão vindo. Vai.

E o Filho foi.

II

Não muito longe da entrada da Mata, os Velhos encontraram um EspécimeAnimal e mataram-no. Há meses não viam um, pelo menos desse porte, em seu habitat natural. Conforme o rodízio, coube ao Velho a primeira tentativa. Mas ele tinha mania de não usar os RecursosQuânticosDePrecisão (QPrecysyonTools) em caçadas, por isso o bicho fugiu; por sorte, ela foi rápida e eficaz o bastante para abatê-lo.

Cumpre notar que agiam dentro da lei, aliás, faziam-na valer: há mais de um século, mamíferos e aves só podiam viver em cativeiro ou em campos de caça privados. Não era o caso da MataDoNorte do GrandeDomínioSul (BygSouthDomayn), administrado pelos ClarosSulistas (SouthmenPale), os legítimos descendentes dos AntigosSenhores da EraAntiga (AntyquosEra), mas que ainda continha vestígios de PovosPréAntigos, os SemiHumanos, principalmente nas regiões dizimadas pela DerradeiraGuerra (UltymateWarUWar).

Com uma hora e pouco de caminhada, chegaram a uma gruta, a primeira e última indicada no GuiaQuântico. Dali em diante, tudo era incerto: desde a UWar, as instabilidades magnéticas e radioativas da área, uma vasta ÁreaInstável de milhares de quilômetros, impediam que o QGuyde atualizasse o mapeamento. Na verdade, ele o atualizava e, ao mesmo tempo, incluía uma miríade de potenciais eventos futuros no resultado, gerando um caos indecifrável.

Não era isso, naturalmente, que os havia atraído até ali, e sim os boatos, sempre desmentidos mas nunca refutados, acerca de um Brasil (Brazyl) incrustado naquela ÁreaInstável. Por muito tempo os cientistas da BAN (BygAmerycanNatyon) sequer reconheceram a existência dos Brasis, atribuindo-os às mitologias nativas da região, mas nas últimas décadas vários exemplares haviam sido registrados e mesmo apreendidos para fins de estudo e exibição pública.

Acamparam na entrada da gruta: o QGuyde indicava a presença de substâncias desconhecidas, potencialmente tóxicas, no interior. O ar nauseante da selva os excitava, por isso fizeram SexoProgramado: sob hipótese alguma ela viajava sem o QSex. Escolheram, como quase sempre, o Programa112, ou VórticeExtático, também chamado de CavalgadaGiratória. Quando ela chegou ao orgasmo, ele já estava há meia hora no 100% automático, roncando sonoramente. Esquecera de trazer o InibidorSônico, o idiota.

A vários quilômetros dali, o Filho apurava os sentidos, confirmando a direção indicada pelo Pai.

III

Acordaram com o alerta do QGuyde tão logo este identificou a presença do CorpoEstranho no limite do seu raio de ação, ou seja, a menos de cem metros da gruta.

O Velho foi o primeiro a ver o Filho. Dessa vez não vacilou: ativou o AparatoBélicoCompleto (ApparatusBellicusCompletusABC), incluindo os Recursos DePrecisão.

– Paygun!, gritou.

– Pagan, corrigiu a Velha.

Não! No, no! Khrystyan!

O Filho exibia a DuplaSaudaçãoDaTerraUnida: uma continência com a mão direita e, com a esquerda, o GestoDaTrindade (TrynytyHand), vulgarmente conhecido como UmDoisTrês (OneTwoThree).

Impressionado com a perfeição da pronúncia e do gesto (os três dedos firmemente arqueados para trás), o Velho passou o Aparato do ModoPréAtivo para o ModoDeAlerta.

– OnKnees!, gritou.

O Filho se ajoelhou.

– YouKhrystyan?

– Yes, respondeu o Filho.

– Swear!

– YSwear!

– YnLat'Englysh!

– YTestor!

– YnNamenyPatry!

– YTestor!

– YnNamenyFylly!

– YTestor!

– YnNamenyMöney!

– YTestor!

– VeryWell... NowYKyllYou!!

Não! Eu tenho um Brasil procê... Sorry! ABrazylForYouSee!

– What?!, fez o Velho.

– ABrazylForYouSee, repetiu o Filho.

– OhYes!, fez a Velha.

– KallMeSyr!, gritou o Velho para o Filho.

– YesSyr! SorrySyr!

O Pai o havia instruído muito bem.

IV

Os Velhos seguiram tranquilos, confiantes e em boa velocidade até o LimiteDeSegurança. Valiam-se de seus AceleradoresQuânticos (QAcceleretors); o Filho ia entre os dois, meio que correndo para não ser totalmente arrastado. A partir dali, no entanto, os Apetrechos não funcionariam mais; não em condição seguras, pelo menos.

– TooLong?, inquiriu o Velho.

– NoSyr!, respondeu o Filho, repetindo a DuplaSaudação.

Aconselhou-os, então, a deixarem ali os Apetrechos, que pesavam um bocado, principalmente o AparatoBélico. Eram impermeáveis, mesmo a chuvas ácidas, e inamovíveis por terceiros. Mas os Velhos se recusaram energicamente. Sobretudo ele, que amava terrivelmente seu Aparato: seu NúcleoFamiliar (FamylyarNukleus) havia feito fortuna fabricando MiniBombasAtômicas (MynyABombs) no período conhecido como EstadoDeLoucura (KrazyState).

Dois quilômetros adiante, porém, atingiram o GrandeRioMorto (BygDeadRyver) que atravessava e estendia-se para além da Mata. Era um vasto e caudaloso rio de lama química, semissólida e intensamente colorida.

– OhWonderful!, exclamou a Velha.

Ambos olhavam devidamente embasbacados, com os queixos caídos e os punhos nas cinturas. Ele, na verdade, fingia: era insensível à beleza, como ela constatara inúmeras vezes. Mas seguia fielmente as convenções.

O fato é que ali tiveram de deixar os Apetrechos. O trajeto fazia-se pelos pontos menos instáveis do lamaçal, alguns arriscados, embora em outros fosse possível até montar acampamento, conforme garantiu o Filho. Mas não era a ideia: queriam chegar à Aldeia até a LuaAlta (HyghMoon). O Filho teria preferido descansar, mas lhes assegurou que conseguiriam.

V

Foi uma travessia lenta e difícil, agravada pela discussão dos Velhos acerca do cheiro do rio, que ele afirmava ser fétido e ela Wonderful, além da pouca destreza dele. A certa altura, deu um mau passo e enfiou-se na lama até a cintura.

– OhMyGödey! YDyyng! HelpPlease! ForMyMöney!

Ela arrancou-o de lá de qualquer jeito, ardendo de vergonha do Filho, que se manteve discreta e educadamente de costas.

O Velho se desculpou: sentia-se desamparado sem os Apetrechos. Ela o mandou calar a boca: se estivesse com os Apetrechos, teria afundado até o pescoço.

Ambos, então, quedaram pasmos: ela nunca o havia advertido – muito menos ofendido – daquela forma. Não, pelo menos, em voz alta o suficiente para que ele ouvisse. Lembraram-se, então – ela primeiro que ele –, da costumeira advertência acerca das InstabilidadesPsíquicas provocadas pela permanência excessiva em ÁreasInstáveis.

Ele teve medo. Ela tomou a dianteira, apertando o passo.

VI

Não houve mais incidentes até a Aldeia. Chegaram, de fato, com a LuaAlta luzindo, só e esverdeada, sobre suas cabeças.

Esverdeadas, também, as paredes de concreto da Aldeia, tanto pelo avanço das trepadeiras quanto pela corrosão do ar. O Pai os aguardava sob um grande PórticoAntigo.

O Velho amava a ArquiteturaAntiga, e deplorou encontrar a construção, que conhecia de imagens anteriores à UWar, em condições tão lastimáveis. Mesmo sabendo da condição inabitável das ÁreasInstáveis, nunca entendera como os PovosAntigos puderam abandonar obras e lugares tão magníficos nas mãos dos SemiHumanos. No alto do Pórtico, uma EstátuaVendada, cujo significado se perdera na DerradeiraGuerra, empunhava sua EspadaPréAntiga e sua enigmática EngrenagemDePratos.

Mesmo esgotado, o Velho deu início imediato ao RitoDeCumprimentoDiferencial:

– OnKnees!

– Non'This, disse o Pai. WeSendHere!

A pronúncia era ainda melhor que a do Filho. Indeciso, o Velho olhou para a Velha. Esta sacou um recipiente alongado dos seios fartos, no qual se lia, em letras douradas, o LemaSagrado da BANYnGödey AndMöneyWeTrust, e que, aberto, revelou um novo brilho esverdeado, e muito mais intenso que o da lua.

– QDöllars!

Eles deviam saber, a julgar pelo NívelLinguístico e de ConhecimentoDosRitos, que as MoedasQuânticas dependiam da emanação dos SinaisVitais de seus Fiadores para terem Valor.

– WeNoNeedMöney, respondeu o Pai.

Ela gelou.

– NoEatHumansToo.

Ela suspirou.

O Velho tinha se borrado todo. O tecido nanotecnológico do Uniforme estava desregulado, e, ao invés de absorver as fezes, banhou-o com elas.

– K'mon, disse o Pai. SeeTheZyl.

– Zyl?!, fez a Velha.

– Zyl, Brazyl.

– OhYes!

Seguiram por uma trilha espinhenta. Os Uniformes, ao invés de protegerem do incômodo das espetadas, intensificava-o. O Velho tentou se coçar mas a Velha impediu-o com um tapa.

– Quyet!

Ele recuou, assustado e acanhado.

Depois subiram por um MorroDeEntulho, na verdade um GrandeAnelDeEntulhoDerretido cuja vista se perdia de ambos os lados. Os Uniformes passaram a absorver e intensificar a radioatividade do ambiente, de modo que o Velho e a Velha tiveram de livrar-se deles. Seguiram nus, como o Pai e o Filho que iam à frente.

Fizeram, então, a travessia das AreiasPretas, longa e tensa, imersos no breu absoluto afora o brilho verde da lua. Alguns quilômetros adiante, chegaram a outro AnelAtômicoGeológico, dessa vez na forma de uma leve depressão que exalava uma umidade nauseabunda. Na iminência de adentrá-la, a Velha curvou-se, dobrou os joelhos e vomitou. O Velho, que vinha transtornado e excitado atrás dela, penetrou-a sofregamente, com o produto de sua primeira ereção espontânea em quase trinta anos, fazendo-a atirar-se urrando na depressão. O Pai e o Filho precisaram socorrê-la.

O Velho, confuso mas afoito, lambuzado de esperma e outras coisas, seguiu em frente:

K'monBastards!

– KeepKalm! Yt'sKlose, assegurou o Pai.

Uma hora depois de ultrapassarem a ravina, ordenou:

– Stop!

O Filho já havia estacado a dois passos. Os Velhos, arrastando-se atrás, deixaram a cabeça descansar no pó vermelho do ChãoImpuro.

VII

Os primeiros raios solares, pálidos e acinzentados, tremulavam no horizonte. No fundo da cratera, o enorme CarvãoAceso ardia com uma violência trêmula e estéril, agonizando em seu próprio calor. Não demoraria trinta anos para se apagar, certamente dando origem a um DiamanteMorto (DyamondDye). O decepcionante nos Brasis era isso: tão logo se extinguiam, seus núcleos se tornavam DiamantesMortos, de BrilhoZero. Ainda assim, eram sempre impressionantes. Para muitos, o maior espetáculo da Terra.

Os Velhos já haviam visto Brasis maiores, mas jamais numa ÁreaInstável e, muito menos, Impura como aquela: Brasis que ardiam em GrandesMostras, caríssimas, para muito poucos, mas não exclusivamente para eles e seus olhos ávidos.

Empenharam-se em obter a Visão (Vysyon). A Velha, como sempre, foi a primeira a vislumbrar o EspíritoBraseiro (BrazyerSpyryt) no âmago da imensa pedra ardente. Mas logo o Velho também o distinguiu, sentindo-se excitar de novo.

O Espírito, no cerne do Brasil, agitava-se num frenesi de saltos descontrolados, lançando mãos, pés e joelhos para o alto como um ServoAutômato em pane, girando sobre si mesmo como um SimuladorDeFuracões, vibrando como um VibradorQuântico, mas com tal leveza e graça, com tal promessa de ÊxtaseArdente, que fazia quem quer que o visse querer juntar-se a ele. Por isso as grades de proteção eram obrigatórias nas GrandesMostras.

– ALyttleAndBeautyDevyl, balbuciou o Velho.

– ABygAndBeautyAndLovelyDevyl, corrigiu a Velha.

Nunca, antes, tinham sentido sua FrialdadeInterior se aquecer de forma tão intensa como diante daquela Visão. Ela pulou primeiro. Ele ainda vacilou um instante, mas o Pai ajudou-o, de leve, com o bico do pé.

O Filho, exausto e um pouco melancólico, perguntou qual dos corpos deveria ser destinado a GRANDDANU, o GrandeDeusDoAbismoNuclear. O Pai respondeu, sem vacilar e em bom português:

O dele, claro. O Brasil merece o melhor.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Selvagens alquimias no Rock MS (Parte II)


Finalizar essa postagem sobre as “selvagens alquimias” na atual cena roqueira de Campo Grande foi um pouco mais difícil do que eu pensei que seria. Talvez pelo fato de que escrever sobre Os Alquimistas é um desafio que eu tento encarar desde que os vi pela primeira vez. Na verdade, desde que os ouvi, pois antes disso alguém já me havia me mostrado os três então garotos de ar meio nerd, meio junkie, sem que eu tivesse conseguido acreditar que eles tocavam tanto quanto se dizia.

Pois é, foi preciso ver e ouvir pra crer. De formação atípica – baixo (Perin), teclados (Leota) e bateria (Boloro) –, os Alquimistas são pura energia, mas energia oriunda de muita habilidade instrumental. Com uma cozinha destruidora – a marcação forte e os fraseados curtos do baixo de Perin e a bateria de ar caótico mas precisa de Boloro –, sobre a qual o teclado de Leota viaja em melodias nervosas e solos virtuosísticos com toques psicodélicos, os meninos, no início, mandavam principalmente covers enfezados de Beatles, Stones, Kinks, Mutantes e às vezes até um Raul, e várias coisas que eu não conheço. Que eu me lembre, a única música autoral do repertório era uma colagem de ditos populares.

Mas de repente, como que do nada, as canções autorais começaram a aparecer. Rock songs tão básicas quanto as que inspiraram a banda no início, de letras curtas e divertidas mas nem por isso menos sinceras. Sinceras e só aparentemente banais, pois condensam, em pequenos insights poéticos, as demandas de uma parcela importante da juventude de hoje.

De fato, os temas de Perin exprimem as experiências e os questionamentos daqueles a quem se costuma chamar, preconceituosamente, de “rebeldes sem causa” (como se o que mais sobrasse, em todo lugar, não fosse motivo pra rebeldia). Mas justamente por serem sinceras, por não fugirem dos temas reais desse universo, é que as canções dos Alquimistas podem extrair dele um tipo de arte: uma arte muito crua mas de um vigor que também traduz um tipo de grandeza, um tipo de genialidade que pode parecer puramente instintiva mas que é também conceitual, porque esses garotos sabem muito bem o que fazem e do que falam.

De classe média ou não, Os Alquimistas são jovens – e porta-vozes de outros jovens – que decidiram não abrir mão da integridade de seu ser, e lutam de alguma forma, ainda que às vezes contraditória, por ela. Jovens, sobretudo, que se recusaram e se recusam a vender ou tolher sua liberdade. Jovens de classe-média que preferem repartir seus transbordamentos musicais delirantes e amorosos com jovens como eles do que fazer de tudo pra se tornarem profissionais bem pagos.

E não é preciso que as letras de Perin digam essas coisas expressamente pra que exalem tudo isso, nas reivindicações mais prosaicas, por exemplo, de relações livres e de pessoas e uma cidade que sejam melhores do que são hoje:

Eu gosto mesmo de você
Ah, isso eu não vou negar
Mas eu não quero andar
De mãos dadas com ninguém por aí
..........................................................
Eu gosto de você, mas
Quem precisa de duas sombras?
Eu não
(Duas sombras)

Eu já não sei mais para onde vou
Pois todo lugar que eu vou
Pra mim é batido
Pra mim é batido

Eu já não sei mais com quem conversar
Pois todo mundo com quem converso
Acaba o assunto
Acaba o assunto
(Cidade pequena)

Não me venha com esse papo outra vez
Pois toda essa babaquice me deixou maluco pra burro
Se ao menos você fosse uma pessoa do tipo
Que procura entender um assunto profundo a fundo

Nós poderíamos conversar
Nós poderíamos conversar
Mas não dá
Não dá, não dá
(Não me venha com esse papo outra vez)

Só quem mora numa cidade pequena (não importa o número de habitantes) e tem plena consciência disso compreende o alcance desses versos. Só quem tem esse incômodo pode entender o quanto essas letras retratam, em pinceladas rápidas mas precisas, a “vida íntima” de todo um universo social. Pra falar mais claramente, a realidade social e cultural de um campo que pode ser grande, mas o resto não é tanto.

E, no entanto, é com algo muito próximo da magia, com uma alma que exala beleza e liberdade, que as canções dos Alquimistas exprimem tudo isso. Aliás, antes mesmo de exprimir, elas já nos lavavam disso, pois só pode ser esse o efeito de uma música tão livre numa realidade tão pequena. 

É verdade que essa alma era mais sensível no início, quando o repertório de covers era explorado com alegria quase infantil, os meninos se lançando de forma quase alucinada aos instrumentos, imersos no prazer corporal e espiritual de saber brincar tão bem de música. Mas a verdade é que Os Alquimistas ainda estão começando...

E depois de rasgar tanta seda pra eles, nem sei ainda se tenho forças pra falar do seu subproduto chamado Sexy Burger...

Subproduto no bom sentido, porque a banda capitaneada pelo alquimista Boloro, e que agora conta com o também alquimista Leota nas baquetas e ainda o ex-outras coisas Diego Reinhardt na guitarra e a estreante mas desde sempre musa Mariana no baixo, não deixa de ser uma evolução em relação aos Alquimistas, pelo menos no sentido de que traz um repertório mais raro e seleto, com destaque para a cena protopunk novaiorquina.



Pra falar da Sexy Burger é preciso falar do Boloro, e se eu fosse definir o Boloro diria que ele é uma mistura de Lou Reed com Iggy Pop, mas com uma alma de Peter Pan por trás dessa velharada toda. Pra não pegar tão pesado, vamos substituir o Peter Pan, sei lá, pelo Ringo Starr. O fato é que Boloro sempre foi ao mesmo tempo o mais soturno e o mais leve, quase etéreo, dos Alquimistas, e é ele quem está à frente na Sexy Burger, com sua voz grave e rasgada, peculiarmente bêbada e vigorosa.

O contraponto e complemento perfeito dessa voz é a guitarra solo rascante e alucinada de Diego, à qual a cozinha do baixo, da bateria e da guitarra base do próprio Boloro dão sustentação perfeita. Leota, o tecladista alucinado dos Alquimistas, vira um monstro na bateria, distribuindo com fartura pancadas secas de dar dó.

O que falta agora à Sexy Burger é a produção autoral. Além de namorar, o casal Boloro e Mariana podia topar esse desafio. Ou, de repente, todos eles juntos. Aí, quem sabe, nascerá no céu de Campo Grande uma estrela capaz de brilhar sabe-se lá em quantos continentes e sistemas solares... ou, não importa, uma estrela pouco conhecida (eu, pelo menos, não conhecia) como a Big Star adorada pelo Boloro, mas de grandeza única.

Algo, em todo caso, que a gente percebe que está brotando na cena cultural de Campo Grande – e, claro, de outros lugares –, pelas mãos dos artistas que integram as bandas de que falei nesses dois posts e ainda outras, como a Macumbapragringo, projeto instrumental de Rafael Omar com outro corumbaense radicado em Campo Grande, Jean Santos, ou o projeto solo do próprio Omar, ou ainda a precocemente finada The Linquentes e outras coisas que estão começando a acontecer. Porque os selvagens alquimistas não param de chegar.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Uma nau de dor e salvação

Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

A isso alude, naturalmente, o estranho título do romance. “Amoucos” não é, como cheguei a pensar – e a própria autora me corrigiu, me obrigando a recorrer ao Google –, um neologismo alusivo a essas duas palavras-chave, amor e loucura, mas a sugestão semântica certamente participou da escolha (até porque a referência direta parece ser a nau dos loucos de Foucault). “Cheio de fúria, votado à morte; desesperadamente obcecado”: de fato, um amouco não difere muito de um amante louco, de um louco que ama ou quer amar desesperadamente.

E é esse o caso de Inácio, o protagonista do romance, e mais ainda o de sua mãe, Custódia. Em linhas gerais, Nau dos Amoucos se compõe do entrelaçamento das histórias desses dois personagens, e embora ela, a feminina, ocupe muito menos espaço que ele, sua importância não é menos capital: não tanto, talvez, na trama quanto no “espírito” da narrativa, com o detalhe de que é à dimensão subjetiva dos acontecimentos que a autora dedica a maior parte de seu empenho.

Ao mesmo tempo, é a história de Custódia, com sua pequena mas tumultuada sucessão de fatos dramáticos, que mais se investe de um conteúdo fabulístico no romance. Naturalmente, seria um desserviço revelar esse conteúdo ao leitor; basta saber que justamente aí, nessa cruel fábula moderna com ares naturalistas, amor e loucura se enredam de forma mais trágica. E é a efetiva loucura de Custódia que permite a Isloany abordar um assunto muito real e que, por sua formação psicanalítica, certamente lhe é caro: o do horror dos manicômios. A autora não se furta a descrever a mórbida existência da personagem na triste “montanha mágica”, uma irônica alusão ao romance de Thomas Mann, em que é internada: “Moscas insistentes, que se atraem, doentiamente, por cheiro de carne podre, eram os inquilinos que mais movimentavam cada canto. As pessoas eram restos humanos ainda vivos”.

No entanto, é em seu pertencimento ao conjunto da trama que a história de Custódia se revela em toda a sua importância. Pois é nesse desdobramento que Isloany trabalha a “loucura”, com aspas ou sem, dos ditos “normais”, certamente com aspas. “O louco é quem grita o meu sufoco”, diz a sabedoria empírica dos pichadores, enquanto um cantor vira e mexe tido como louco ou “alienado” complementa: “A certeza da certeza faz o louco gritar”.

Em linhas gerais, a trama de Nau dos Amoucos gira em torno das escolhas amorosas de Inácio, e de como as consequências dessas escolhas afetam seu estado emocional. Ao abrir mão da livre afirmação de seu desejo, mais que isso, da própria evidência da felicidade que se revelava a seus sentidos e sua consciência, Inácio se vê envolto por um crescente abismo de solidão e desamparo. A ânsia de resgatar um ideal amoroso da infância remete a uma ânsia e um desamparo mais fundamentais, onde a loucura da mãe certamente marca presença. E é justamente no ato de encarar essa chaga viva que se abre a possibilidade de superação para o personagem. Como isso se dá, e com quais consequências, também é melhor o leitor descobrir por si mesmo.

Por outro lado, é natural que, diante da tortuosa magnitude de Custódia, a figura de Inácio se descolora um pouco. O protagonista parece, às vezes, um trapalhão a quem a autora leva um pouco mais a sério do que ele merece. Ainda assim, para além mesmo das intenções ou afetos que enformam a narrativa, ou até porque esses afetos como que invocam os nossos no trato com o personagem, este tem o grande mérito de nos parecer vivo; e esta, certamente, é pelo menos metade da arte do ficcionista. Mesmo as passagens que parecem um pouco forçadas ou de verossimilhança duvidosa, como a de certa reação fisiológica ao fim de um ato sexual, têm uma força caracterizadora no mínimo provocadora.

Resta sublinhar a importância das outras duas personagens que, constituindo os objetos de desejo, cristalizam também as atitudes existenciais básicas de Inácio. Pois se Fabíola representa o retorno irrefletido, a aposta ilusória no mito de origem, Diana se alia à chance de escolha consciente, de reescritura do destino rasurado. Por via de uma, o passado de Inácio se fecha em si mesmo; pela outra, abre-se – sem dissolver-se, simplesmente – para o futuro.

Também a solução em que se configura essa abertura pode parecer frágil, no sentido de uma concessão excessiva ao personagem, mas ela comporta algo, também, de uma aposta, de um voto de confiança no humano – ou, mais especificamente, talvez, nos homens, enquanto, digamos (e complicações à parte), metade da espécie. Marcada por uma escrita eminentemente feminina, a ficção de Isloany se investe de uma potência desconstrutora face às contradições da masculinidade, ao mesmo tempo que as absorve a uma espécie de ritualística expiatória. Nesse impasse entre a radicalidade crítica e uma demanda redentora, mais ou menos correspondente à oscilação entre a crueza naturalista e o sentimentalismo romântico, talvez resida a principal aresta a ser trabalhada pela autoconsciência ético-estética da autora.

No mais, o estudo das técnicas narrativas e de construção do enredo e do espaço diegético, a atenção às mudanças de registro estilístico – por exemplo, no trânsito entre a voz sentenciosa do narrador (ou narradora?) e as falas mais prosaicas dos personagens – e ao ritmo da narração certamente ajudarão a lapidar o talento da jovem ficcionista, que já de início se arrisca a um salto tão ousado. Quem embarcar nessa nau certamente ficará ansioso por outras viagens de sua brava condutora.