VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sábado, 30 de junho de 2012

O estranho da perversão: notas
psicanalíticas (e para além da psicanálise)
sobre o filme La Pianiste

Se é correto o teorema psicanalítico de que as mulheres experimentam sua constituição física como a consequência de uma castração, então em sua neurose elas pressentem a verdade. A mulher que se sente como uma  ferida, quando sangra, sabe mais a seu próprio respeito do que aquela que se imagina  como uma flor porque isso convém
a seu marido.
 

(T.W.Adorno In: Minima Moralia)

O texto “O Inquietante” de Freud, publicado em 1919, também dá sustentação a uma teoria psicanalítica da imagem ou teoria do olhar (Rivera, 2005), tal como podemos também testemunhar nas artes de vanguardas (embora o próprio Freud não faça alusão a esses movimentos artísticos, inclusive porque ele não apreciava a chamada "arte moderna", aliás, confessando um não entendimento da mesma). As discussões de Freud encontradas no texto, bem como os elementos que ele aponta para investigar o sentimento do “estranho” dão embasamento para se entender objetos encontrados na arte, na literatura, e também no cinema (alguns estilos de filmes) que provocam o sentimento de inquietação, de estranheza e de angústia no receptor de tais objetos artísticos, fora de uma teoria tradicional da estética. Assim, entramos no âmbito da discussão de imagens e objetos (artes plásticas/cinema/literatura) que provocam hesitação, abalo e vacilação no sujeito que os contempla ou que os usufrui, tendo em vista “aquilo” que os olhos vêem mas que contém algo que desconcerta o olhar, lançando o sujeito para o desconhecido, embora rementendo o último ao sentimento de alguma coisa de natureza  “particular” e íntima.
Freud, no texto, justifica descartar as “categorias estéticas tradicionais” para propor em seu lugar o “inquietante”, que é a substituição do “belo” pelo “estranho” (ou até mesmo o “bizarro”), assim apontando para um tema marginal nos tratados de estética, quais sejam, situações e objetos encontrados na arte que provocam inquietação e angústia nos apreciadores das artes. Aprofundando sobre o tema, Freud faz uma pesquisa semântica da palavra Unheimliche e descobre, na língua alemã, a ambiguidade presente na mesma, ou seja, o inquietante é ao mesmo tempo o estranho e o familiar: “O Inquietante é aquela espécie de coisa assustadora que remonta ao que é há muito conhecido, ao bastante familiar” (Freud, 1919).
Daí, a questão levantada pelo pai da psicanálise sobre o que faz com que o familiar se torne estranho: em que medida o familiar causa estranheza? O que se encontra velado, oculto no estranho, que causa tais sentimentos desconcertantes aos sujeitos? Ora, o inquietante remete ao inconsciente, ao retorno do recalcado e, por conseguinte, à questão do medo infantil da castração, mobilizada pelas fantasias incestuosas da criança com relação aos pais (o reconhecimento e a recusa sobre aquilo que na psicanálise clássica se denomina de “complexo de castração”, aventada na teoria da sexualidade infantil).
O conto fantástico de Hoffman, “O Homem de Areia”, é então analisado por Freud, que a partir dele acaba descobrindo os elementos relacionados à vida psíquica que geram o sentimento de inquietação: o tema do medo infantil de ter os olhos roubados, visto na figura de Nathaniel, personagem central do conto. O “Homem de Areia”  traz à tona a temática psicanalítica do medo infantil da castração (por exemplo, o medo primitivo de ferir os olhos, ou o de ficar cego, que são substitutivos do temor inconsciente da castração, tendo em vista que a ameaça de perder o pênis pode se estender, inconscientemente, à idéia de perder outro membros do corpo, sendo os olhos os substitutos privilegiados pela sua conotação edipiana). Mas Freud também discorre a respeito de fatores infantis relacionados à gênese do sentimento inquietante, estabelecendo relações de tais motivos com a vida psíquica infantil e primitiva superada: o tema do “duplo” (defesa contra a aniquilação e a morte), do retorno do mesmo e da onipotência do pensamento, todos esses derivados do narcisismo infantil primitivo, que apontam para os elementos arcaicos de nosso psiquismo que, não obstante, teimam em permanecer na vida psíquica e que acabam por serem "suscitados" e mobilizados por determinados eventos da experiência individual. E, mais ainda, Freud aponta o medo da genitália feminina, que acaba por gerar no sujeito a angústia, assim provocando uma defesa psíquica no neurótico expressa na recusa do mesmo sobre o reconhecimento da castração, mobilizada pela visão da genitália feminina, que assim também tem o poder de suscitar um forte desejo de retorno ao ventre materno.
Na psicanálise, os objetos de fetiche do pervertido que lhe causam gozo e prazer - posto que o perverso se realiza sexualmente com tais objetos, em vez de uma relação genital "completa" - serviriam para enconbrir e, ao mesmo tempo, substituir o falos que falta à mãe, simbolizando a recusa da castração e da falta, na medida em que o objeto fetiche seria uma outra coisa no lugar do pênis faltante. Assim, a tansgressão do pervertido pode significar os seguintes fatores: a recusa da mutilação, e a possibilidade de "atualização" de desejos sádicos e masoquistas inconscientes, passíveis de existirem nas fantasias sexuais de qualquer indivíduo dito "saudável". Já não dizia o próprio Freud que "neurose, é, por assim dizer, o negativo da perversão"? Ou seja, que os gérmens da perversão fazem parte da vida sexual do neurótico ("normal"), tendo em vista a natureza errática e plástica das pulsões e suas possibilidades de satisfação sexual em objetos variados?
Pois bem, a respeito do "horror" provocado pela visão do sexo materno (que, por ser um buraco, ou uma "fenda", causar a impressão de ser uma "ferida" para as fantasias infantis), cuja imagem prenuncia o medo da castração e, assim, a verdade sobre a fragilidade e impotência humanas -  determinando a infelicidade universal encontrada no impedimento de um retorno ao ventre da mãe -, fazemos alusão a algumas passagens do filme "La Pianiste", naquilo que o filme suscita de estranheza, no tocante ao mundo sombrio da sexualidade perversa da personagem. O texto de Freud, que apresenta uma teoria psicanalítica da imagem e do olhar, nos fornece alguns elementos importantes para ensaiarmos tentativas de esclarecimento sobre a "estranheza" que a personagem central do filme nos evoca, além de atentarmos para o filme em si mesmo, como uma obra, para além de uma leitura reducionista psicologizante da personagem. As cenas fortes que mostram as "anomalias eróticas" de Érika, a pianista, bem como seus fetiches sexuais (sua automutilação, seu gosto por artigos pornográficos de caráter sado-masoquista, etc) e a sua tumultuosa relação com a mãe, causam no público aquele mesmo sentimento de inquietação e de desconforto, ainda mais quando confrontados com a rigidez da personagem no seu falso "ascetismo" maquiado pela profissão de professora de piano.
Mais instigante ainda é a relação que Érika tem com a música erudita, sendo ela mesma uma exímia pianista, além de uma rígida professora com relação aos seus alunos. À primeira vista, parece ser um paradoxo o contraste estabelecido entre o mundo ignóbil da sexualidade de Érika e a sua erudição e afeição pela música séria. No entanto, as barreiras entre tais mundos, aparentemente dissonantes (o erotismo "desviante" e a abstração encontrada na música como arte autêntica), revelam-se tênues, inclusive, um podendo jogar luz acerca do outro. Pensamos que essa questão da música ilumina a complexidade da personalidade de Érika, assim apontando para uma "verdade universal" embutida na particularidade da mesma, o que permite ao público se reconhecer  na personagem e ter alguma "simpatia" e compaixão (por que não?) com relação a ela, a despeito de toda aversão e estranhamento que ela possa provocar. Desta forma, a perversão de Érika, longe de ser uma "patologia" particular de uma mulher, cujas relações com a mãe são por demais doentias (aqui lembramos especialmente da cena na qual Érika, dormindo com a mãe, agarra essa e tenta uma relação forçada, suplicando seu amor, e depois lhe dizendo "Eu vi os pelos de seu sexo"), na realidade, pode dizer mais a respeito das deformações que todos nós trazemos, sobre nossas dores e feridas como seres carentes de "amor", e condenados à impotência social. A verdade subterrânea da condenação histórica das pulsões, pelo processo civilizatório, pode ser evidenciada na personagem.

As elocubrações colocadas acima sobre o filme do diretor Michael Haneke não se dão à toa. Aliás, ao considerarmos o filme "La Pianiste" uma obra-prima, tais motivos tornam-se mais do que suficientes para ousarmos levantar essas idéias. As referências sobre T. W. Adorno e aos compositores Schubert, Schumann e Schoenberg numa passagem do filme, encontradas na cena do primeiro diálogo estabelecido entre a pianista e o jovem Walter - rapaz por quem Érika engata uma relação "amorosa" e, assim, violenta, posto que ali surge a possibilidade de realização de suas fantasias que, não obstante, Walter não compreende e repudia tornando-se muito mais "cruel" que a própria Érika - são por demais elucidadoras. Nessa cena, Érika diz a Walter, depois de um recital privado, que tem uma paixão pelas músicas de Schubert e Schumann, mencionando uma obra composta por Schumann pouco antes dele enloquecer (fazendo referência ao seu "crepúsculo da espírito"), assim citando um texto de Adorno, "Fantasia em Dó Maior", no qual ela diz que o filósofo fala de Schumann, sobre a sua loucura derradeira. E Walter, ao tocar no recital, apresenta-se dizendo querer tocar  uma peça de Schoenberg, mas, em "homenagem" à Érika, escolhe Schubert: "Decidi esquecer Schoenberg e tocar Schubert".
Ora, nos textos de Adorno dirigidos à arte e à música, encontramos elogios à música nova de Schoenberg. Diz o filósofo que  as inovações formais da música dissonante (como a música escrita por Schoenberg nas suas "obras atonais") remetem aos "movimentos corporais do inconsciente", aos traumas da existência mutilada pelas forças sociais do processo histórico e, por isso, essa nova música teria um efeito insuportável e desconcertante aos ouvidos "domesticados" do público - esse, talvez já acostumado com um tipo de uma música mais conformista e adaptada ao mundo administrado, como no caso da música produzida pela indústria cultural. Acerca das inovações de obras atonais, diz Adorno que: "As obras atonais são documentos no sentido dos documentos oníricos dos psicanalistas" (...). A menção à filosofia da música de Adorno no filme dá indícios sobre as dissonâncias encontradas na subjetividade da personagem, trazendo à tona a sua vida erótica tumultuada, e a impossibilidade de satisfação da pulsão. Walter não entendeu e jamais entenderia as fantasias perversas de Érika, mas a promessa de realização de uma forma de amor - mesmo que "desviante" _ entre os dois não poderia jamais ser realizada. O que há de tão perturbador na relação entre a pianista e o jovem? Assim, a qualidade estética do filme também se encontra na possibilidade de desconcertar o espectador e poder apresentar, na linguagem do cinema, as tensões existentes entre a arte autêntica e a sociedade, as pulsões e a música, o "recalcado que retorna" e as convenções sociais da vida burguesa.

Referências bibliográficas utilizadas:
Adorno, T.W. Schoenberg e o Progresso In: Adorno, T.W Filosofia da Nova Música
Freud, S. O Inquietante In: Freud, S. Obras Completas
Freud, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade
Rivera, T. Arte e Psicanálise

2 comentários:

  1. Oi, Ana!
    Como sempre, seu post é uma verdadeira aula! Eu vi A Pianista no cinema, e fiquei muito impressionado. Não me lembrava da cena com a mãe (acho que a cena na cabine pronô me marcou mais, rs), mas o final me ficou como emblemático de uma possibilidade, na arte contemporânea, de resgate do sentimento trágico. Agora vejo com essa possibilidade tem a ver com o trânsito entre o erudito e o mundano, entre a sublimação (musical) e a "perversão" (sexual). O que talvez sugira o quanto nosso mundo tão "desrecalcado" é demandante de algo muito maior que os horizontes, "elevados" ou "rebaixados", que ele institui. Ou seja, para além do drama (ou tragédia) de Érika, é um filme sobre os limites e as insuficiências da vida contemporânea; na fórumla freudiana, o mal estarn a civilização, correto? (pergunta de aluno, rs...)
    Bem, mais uma vez obrigado, e um abração!

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    1. ana paula gomide4 de julho de 2012 16:11

      Querido Ravel,
      Gostei das suas colocações sobre as demandas do mundo contemporânea dessublimado... a perversão é a norma, embora também nada no sentido "transgressor", mas no sentido totalitário (o "goza!", lacaniano). Mas Érika ainda - a meu ver - traz em seu "desejo" algo de "crítico", (marginal), embora o sofrimento esteja incrivelmente presente nela; e daí, sua relação com a música erudita... e Walter talvez represente aquele que "destruiu" tais possibilidades críticas vistas em ÉRIKA... sei lá... são divagações que poderiam ser melhores trabalhadas. Mas um abraço bem forte e obrigada pela oportunidade! Ana Paula

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