Mas, enfim, hoje eu ganhei uma Placar. Eu chegava em casa com meus filhos e, do outro lado da rua, alguém me chamou: “Ô, amigo”. Era um homem forte e maduro, com bigodes fartos, sentado na calçada e com uma bolsa de viagem ao lado. “Opa”, eu cumprimentei, sem parar, prevendo um pedido de esmolas. Mas ao invés disso ele completou: “Você parece o Sócrates!”. Sempre me “confundem” com Jesus Cristo e Raul Seixas (durante algum tempo, que felizmente já passou, com Gabriel o, sic, “Pensador”), mas com Sócrates nunca havia ocorrido. “Sócrates, o jogador? Obrigado! E você, com esse bigodão, lembra o Toninho Cerezo.” Foi aí que ele se animou: “Eu posso te dar um presente?”. Eu já chegava no portão, onde encaminhei as crianças para dentro, e atravessei a rua.
Do outro lado, surpreso, eu o vi tirar a revista da bolsa: uma “Edição de Colecionador”, com essa chamada, ladeando o símbolo do Corinthians na camisa branca do Magrão: “Sócrates Eterno”. Embasbacado, eu perguntei se a revista não ia fazer falta, e ele respondeu, simplesmente: “Não, eu já li”. Contei e descrevi minha pequena homenagem a Sócrates neste blog, explicando minha condição de vascaíno, e aí ele se ergueu, dizendo que seu braço havia se arrepiado inteiro e que fazia questão de se levantar para me cumprimentar. E declinou o nome completo, do qual minha memória de queijo suíço (é uma imagem do Norman Mailer) só guardou o primeiro: Pedro. Estava ali, sentado, esperando um prato de comida que alguém naquela casa lhe havia prometido (e que de fato logo chegou). Era – aliás, é – natural de algum estado do Norte que, confesso, eu esqueci, e queria, digo, quer chegar – por motivos que não cheguei a perguntar – a São Simão, uma cidade próxima daqui de Caçu.
Eu, que já o havia praticamente obrigado a aceitar, a título de “uma força” (não de pagamento), os doze reais que trazia comigo, me ofereci para “conseguir” uma passagem até São Simão. Corri aqui em casa e liguei para o guichê da empresa de ônibus, mas ninguém atendeu. Consultei a Josy a propósito de oferecermos abrigo àquele desabrigado por esta noite – amanhã eu iria com ele à rodoviária – e ela concordou, mas não tive pressa, e quando voltei à rua ele já não estava lá. Dei uma volta na quadra e necas.
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Taí um Pensador de verdade |
Bem, pelo menos isso é verdade: pareço mesmo um pouco com o Doutor. Bom ou mau, nunca me soube tão brasileiro. Mas não fui eu quem mais honrou esse adjetivo – e esse nome – neste fim de tarde.
Bônus - Além dessas fotos, tomo a liberdade de compartilhar a melhor matéria, a meu ver, do belo presente do meu amigo Pedro: A Democracia se consolida (08/04/1983).
Devia ter feito isso antes, mas, enfim, antes tarde do que nunca: dedico meus dois posts sobre o grande Sócrates a todos os corintianos com quem eu tenho ou tive o prazer de conviver: que eu me lembre agora, a Josy, o Chico, o Faria, o William, a Lucilene, o Tião(?) e meu pai, que era corintiano, vascaíno e, sobretudo, gremista.
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