VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sábado, 2 de novembro de 2013

Arte Pública, arte de rua e arte privada



Ontem vivi uma dos dias mais bonitos de minha vida. Um desses dias – dia e noite, pra ser exato – a cujo fim eu ergui os braços e agradeci, não sei a quê nem a quem, pelo dom da vida. Isso não a despeito mas em perfeita consonância com o que esse dia comportou de ruído. Até porque amo os ruídos... Life is only rock’n’roll, baby, ou então não é vida. Ou, o que vem a dar na mesma: SAROBÁ!


Mas vamos por partes, como dizia o velho Jack e não cansa de ensinar uma amiga. 

1. “Areôtorare”, arte e vida
 


Foi no fim da tarde que esse dia & noite começou a despontar em seu esplendor para mim. Mais exatamente quando, contrariando as ameaças de chuva, o Grupo Imaginário Maracangalha se instalou na Orla Ferroviária (aqui em Campo Grande-MS) para realizar o espetáculo “Areôtorare”, e antes mesmo de começar saiu em cortejo pelo estacionamento do supermercado ao lado da “orla”, e voltou com a mesma alegria radiante com que havia saído.

Desde o início assisti deslumbrado – e pela primeira vez – a esse espetáculo que, no entanto, é todo ambiguidade e paradoxo: por um lado a alegria irrefreável da música, da dança, do cortejo, do sorriso radiante dos atores, e por outro os dramas humanos e sociais pungentes dos fragmentos de Lobivar Matos, que constituem a base da cenografia trabalhada por Fernando Cruz e o grupo.

Só ontem tive uma dimensão da grandeza da obra de Lobivar, poeta corumbaense que, nos distantes anos 30, reivindicava e produzia uma arte participativa, voltada para a realidade dos pobres e desvalidos – os trabalhadores oprimidos pela estrutura social, as mulheres trabalhadoras, oprimidas por essa mesma estrutura e pela estrutura doméstica, os habitantes dos confins, desprezados pelo Estado e à mercê das enchentes –, uma arte em tudo contrária à poesia boçal e declamatória, romântico-parnasiana, que se fazia então naquelas paragens.

Mas uma arte – a de Lobivar Matos – que, como me lembraram e sublinharam o Fernando e uma das atrizes do grupo, também reivindica a festa popular como espaço de alternativa e ruptura com as estruturas sociais e as ideologias dominantes. Uma ação-reivindicação que se sintetiza nessa palavra-chave – não no sentido acadêmico, mas no sentido de que tem a força de abrir portas, mesmo – que fecha o longo poema de Lobivar (e que também é o nome da festa periódica promovida pelo Maracangalha): SAROBÁ!

É essa duplicidade que “Areôtorare”, mais do que captar, potencializa com sua dramaturgia fortíssima, alimentando a dimensão festeira da poesia lobivariana com outros cantos e danças e imprimindo a seus textos sociais a dimensão física e corpórea de atuações tensas, corajosas, acintosas, que interagem com o público chamando-o para a dança mas também para a dura realidade encenada. É comovente quando as bandeiras de São João se erguem sobre nossas cabeças; mas quando a enorme lona preta fazendo as vezes de uma enchente cobre os atores e até alguns espectadores o efeito é trágico, e talvez num sentido um pouco mais forte que o Aristotélico, já que estamos tão perto daquilo.

“Areôtorare” e o Imaginário Maracangalha são forças, eventos, significações que tocam fundo o coração de quem quer se decida a parar diante, ou melhor, junto deles, e pelo menos um pouco, quem sabe, o de quem apenas passa ali ao lado, de ônibus ou mesmo a pé, sem se decidir a parar, ou o daqueles por quem o próprio Imaginário passa ao lado, num cortejo que, mesmo convocando para ouvirmos palavras de um morto, não é um cortejo de morte, mas de vida, porque viva é toda voz que não se cala, viva é toda voz que – como a de Lobivar Matos, Fernando Cruz e seus atores – reivindica o direito à liberdade e a dizer o que pensam em quaisquer espaços públicos.

Mas aqui já estou entrando nos domínios do meu próximo talho, que vai ser um pouco mais longo e, certamente, um pouco mais doloroso; e até por isso reservei para ele – como fiz quando tentei formular pela primeira vez as questões que coloco a seguir – a imagem do coração da qual me vali agora há pouco.

2. Arte Pública e arte de rua

O segundo evento ao qual atribuo uma significação muito especial no dia – agora já noite – de ontem foi o Seminário na sequência da apresentação do Maracangalha, conduzido pelo dramaturgo, ator, diretor e professor Amir Haddad, pessoa de influência decisiva na consolidação e fomentação do teatro de rua – ou, como ele prefere, Arte Pública – no Brasil.

A explanação de Haddad consistiu justamente – em grande parte, pelo menos – numa defesa da ideia ou conceito de Arte Pública (que tenho visto grafado assim, em maiúsculas) como uma espécie de nova etapa do teatro de rua: uma etapa em que a visão do artista de rua como uma espécie de pária social (esse “artista” que nem a família apoia, e a quem a mãe pergunta: “quando é que você vai começar a fazer esse tal de teatro, meu filho?”) cederia lugar a uma situação mais valorativa da condição do artista (artista público?), tanto no sentido de sua autoestima quanto na obtenção de condições mais propícias à realização de suas atividades.

“Quanta coisa conseguimos desde que assumimos a bandeira da Arte Pública!”, disse aproximadamente Haddad, com isso referindo-se, a meu ver, à possibilidade de financiamentos públicos – já que a arte sustentada por particulares ou instituições privadas seria algo a ser evitado ou superado.

A fala de Haddad também comportou outra dimensão importante, e que me atrevo a denominar uma espécie de dialética ou, melhor ainda, oscilação entre uma visão pessimista e uma visão otimista em relação ao papel do teatro de rua no mundo de hoje e às próprias possibilidades de transformação deste mundo.

Em dado momento, por exemplo, Haddad declarou expressamente que “o teatro de rua [ou a Arte Pública] não vai mudar o mundo”; em outro momento, chegou a declarar que não há nada a se salvar neste mundo, que o mundo em que vivemos está podre (ou algo assim) e não há nada a se fazer para salvá-lo. Outras vezes, no entanto – e quero crer que sejam a maioria –, ele sublinhou o potencial profunda e radicalmente transformador da Arte Pública, que seria a semente de um mundo novo e, quiçá, melhor. Ora, a Arte Pública ou o teatro de rua estão neste mundo, são parte dele.

São esses elementos que tentei abordar em minha fala, motivada não por qualquer vontade de glamour, mas por uma necessidade entranhada de expor minhas diferenças quando julgo que isso é importante. Julgo ainda necessário acrescentar duas coisas: 1) Que antes de me decidir a falar já me havia decidido a escrever sobre a encenação do Maracangalha e o debate; mas também decidi falar, talvez sob o influxo de certo espírito de intervenção que a própria Temporada do Chapéu aguçou em mim, mas sobretudo porque não acho correto falar pelas costas quando tenho a chance de, mesmo sendo mal compreendido, falar pela frente e dar a meu interlocutor o direito de resposta. 2) Que antes de pedir o microfone para falar esperei um tempo considerável para ver se alguém o pediria primeiro, pois previa que minha fala seria razoavelmente longa.

Comecei declarando minha admiração pela fluidez ou desenvoltura da fala de Haddad e de quase todas as pessoas envolvidas com Teatro que já vi falar publicamente, e me desculpando de antemão por minha fala não ter a mesma desenvoltura. Mas alertei, também, que gostaria de expor minhas questões da forma mais justa possível, até porque talvez pesasse sobre ela a suspeita de impertinência. Impertinência nos dois sentidos: do atrevimento e da não inteira justiça das colocações. Por isso mesmo – por se tratar de uma questão polêmica – eu tentaria ser o mais justo possível.

Em seguida, expus minha concordância quanto ao valor do conceito de Arte Pública exaltado pelo palestrante. Declarei a empolgação que cheguei a sentir no início de sua fala, antes que outros elementos relativizassem essa empolgação. E foi nessas relativizações que me concentrei. Trata-se de algo muito simples, mas que ainda assim precisa ser visto na relativa riqueza de sua dialética. Essas últimas palavras bonitas são todas de agora, e na sequência tentarei expor meu ponto de vista com mais clareza do que fiz no momento.

A meu ver, o conceito de Arte Pública, tal como exposto por Haddad, possui duas dimensões e possibilidades, em certa medida complementares mas em certa medida conflitantes. Por um lado, a ideia de uma transformação radical dos espaços públicos, de reivindicação dos espaços públicos como lugares efetivamente públicos (e não, para remeter à bela fala de Natália Siufi dois dias antes, de mera circulação de mão-de-obra e de mercadorias), nos quais a beleza, a arte e a vida tenham lugar.

Nesse sentido, e até por investir a atividade do artista de rua de uma dimensão marcadamente política (ou seja, por concebê-lo como alguém que atua na polis), tenho para mim que um conceito como o de Arte Pública possui um conteúdo verdadeiramente revolucionário, no sentido de propiciar ou fomentar a única revolução que realmente vale a pena, e que é a revolução pela arte. Pois eu acredito sim que o teatro de rua pode mudar o mundo, e é por acreditar nisso – e não por vontade de glamour – que eu quis intervir nesse debate.

Pois o conceito de Arte Pública também comporta, a meu ver – e isso é tão evidente! – um risco. Esse risco faz parte de seu momento histórico: não é, portanto, um erro. É uma situação. Aliás, não há situação viva que não seja situação de risco.

E esse risco, obviamente, é o do deslizamento dessa potência efetivamente transformadora para uma situação ou um trato institucionais ou institucionalizantes da arte de rua, já que a questão dos financiamentos públicos e do trato com os poderes públicos – ou seja, os poderes que regem os espaços públicos – se coloca aí de forma decisiva.

Como exemplo dessa situação paradoxal – mas, repito, é de contradições e paradoxos que a vida se nutre – citei como exemplo a própria Temporada do Chapéu, financiada com dinheiro público. Declarei a importância, a meu ver, dessa conquista, mas tentei, também, apontar seu limite. E para isso dei um salto discursivo, tentando imaginar uma situação ideal para a arte de rua em Campo Grande e no Brasil: argumentei que o ideal é que iniciativas como essa não fossem necessárias; que a arte pública (que me permito  agora grafar em minúsculas, pois uso o conceito de uma forma que me agrada mais) invadisse cotidianiamente o cotidiano (essa expressão também é de agora), a despeito de editais e financiamentos públicos, ou seja, oriundo dos podres públicos (ou seja, de um Estado que é a base política da realidade social que queremos mudar).

Algo que queria ter dito mas não pude dizer – porque parte do público começou a censurar minha permanência ao microfone – é que eu acredito que o que se faz hoje, ou seja, eventos como a Temporada do Chapéu, pode ser, sim, um passo para isso. Mas para que isso ocorra é necessário a vigilância crítica, sob pena (também acrescento isso agora) de vivermos algo semelhante ao que se deu com o Fora do Eixo.

Em algum momento de minha fala recuperei uma imagem da qual Haddad se valeu, na forma de uma pergunta retórica. Como é que a Arte Pública se comunica de forma tão viva ao organismo social, ele se perguntou. Eu argumentei que achava que era porque, antes de ser social, essa comunicação era individual. Com isso quis dizer que, antes de ser Pública, privada ou qualquer outra coisa, e a despeito, inclusive, dos financiamentos que a favorecem e/ou orientam, Arte é arte, arte é Vida. Antes mesmo – e para além – de ser ideologia, arte é Vida. Senão não é arte, é ideologia. Não sei o que um Brecht diria disso, mas é o que penso.

E quis recuperar essa ideia abstrata mas fundamental, da Arte como Vida acima de tudo, narrando um momento belíssimo da apresentação do Maracangalha naquela noite: o momento em que um dos atores, que fazia as vezes de um operário angustiado, dava simbolicamente seu coração a um menino que assistia o espetáculo junto com a mãe. O menino guardou consigo o “coração” nas mãos por alguns segundos, minutos talvez, antes de se decidir, com olhos um pouco aflitos, a pedir socorro à mãe, a quem “entregou” o coração, que ela “recolheu” e, sorrindo para ele, “guardou” em seu próprio coração.

Essas duas pessoas – sobretudo o menino – foram tocadas pelo Teatro, foram tocadas pela Arte. E é dessa Arte, que toca os corações, que pode advir a verdadeira revolução.

Tivesse eu terminado por aí, e investido um pouco mais no tom grandiloquente, talvez saísse com aplausos. Mas em situações desse tipo – e nisso estou com nisso Brecht – prefiro deixar sempre uma inquietação do que uma satisfação. E expus, já sob a impaciência declarada, possivelmente, da maior parte dos ouvintes, minha derradeira inquietação: a de que as possíveis contradições no discurso de Haddad tivessem relação com a referida oscilação entre pessimismo e otimismo (que tentei expor sumariamente) em sua fala.

Não consegui expor o principal dessa ideia: que essa oscilação se dá em perfeita simetria com a dupla dimensão da ideia de Arte Pública como defendida por ele: de um lado a arte pública (que prefiro com minúsculas) como potência efetivamente transformadora e de outro a Arte Pública (com maiúsculas) como articulação institucional, cujos horizontes ameaçam se estreitar nesse risco.

Terminada minha fala, sentei-me ali perto e passei a ouvir a réplica de Haddad, que começou falando sobre a condição da arte enquanto arte privada como uma especificidade do mundo capitalista. É uma questão que eu também gostaria de debater, mas não agora. O fato é que a fala do palestrante não abordava diretamente as questões colocadas por mim; por isso senti-me à vontade para dar atenção à minha amiga e aluna Inayá quando ela se agachou junto à minha cadeira para externar seu apoio à minha fala, e de agradecer-lhe com uma manifestação de afeto.

Foi quando Haddad declarou, em tom bastante alterado, que aquilo já era demais, que eu era um chato (o que é verdade :)) e que ele estava me expulsando daquele lugar. Não saí, é claro, disse que ele estava se comportando como dono de um espaço público e sendo igualmente chato, que aquilo era uma cena desnecessária diante de pessoas que o admiravam e que aquilo não era o melhor dele. Ele afirmou que era sim, e me mostrou o dedo médio. Um belo dedo, por sinal, mas eu continuo achando que não é.

De lá fui para um espaço privado onde aconteceu outra manifestação artística fenomenal – um duplo show de rockabilly, primeiro da Aristocats, ouro da casa pilotado pela Aline Calixto, e depois da Asteirodes Trio, banda excelente de São Paulo –, mas sobre isso acho que ninguém vai querer ler agora, e a ocasião também merece um post à parte. 

Sou tão fã de Aline e Cia., e também do Fernando Cruz e do Teatro Maracangalha (do qual já havia visto o fortíssimo “Tekoha”, sobre a vida e a morte de Marçal de Souza), como fiquei fã dos Asteróides e do Lobivar ontem, que até reluto em citar (de memória) a frase ou verso (de Lobivar, suponho) que ouvi ontem no espetáculo do Maracangalha, e que quase usei como epígrafe deste post: “Os homens acreditam em deuses, um dia acreditarão em si mesmos”. Deuses, heróis, ídolos...


Fotos de Mara Rojas

Um comentário:

  1. Parabéns pelo post Ravel! só assim para saber de fato o que houve, para além de fofocas! Para além do bem e do mal! Não posso julgar a forma disso tudo, nem quero! Mas quanto ao conteúdo me parece bastante coerente. Não pude estar lá nesse dia, estava ensaiando. 1º ponto: arte pública X arte privada, é um erro, prefiro arte pública + arte privada. 2º ponto: arte pública exclusiva direcionaria a arte para os editais disponíveis pelo governo (quais interesses por trás dos editais?) ou dependeria exclusivamente do chapéu. Mas qual a diferença de cobrar antes ou depois do espetáculo? Poderia-se dizer: cobrar depois permite que todos assistam e depois paga quem puder. Mas não é bem assim. O pagar depois normalmente cria um constrangimento de dar um valor à obra de arte numa difícil equação do gostar e do poder dar naquele momento. Quando se cobra antes não existe o constrangimento. Ah... mas nem todos podem pagar, pode-se afirmar... Então sim, a arte pública tem uma função revolucionária. Levar arte a quem não pode pagar. Mas então porque passar o chapéu? Sou contra! Não dará sobrevivência a nenhum artista. Lembro na quinta de Toni dizer que Chacovacci arrecadou em uma noite R$600,00 e distribuiu para a comunidade carente local. Isso é revolucionário! O artista tem de ser financiado pelo governo ou pela iniciativa privada, sem preconceitos. Ou ser transparente e informar o valor do espetáculo antes. Revolução pela arte você falou. É isso! A arte precisa fazer parte do cotidiano das pessoas nas praças, nos teatro, nos cinemas mas também na escola. É preciso que a arte esteja presente todos os dias nas escolas, não somente uma aula por semana. Abraços, e parabéns pela coragem.

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