VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Elysium, a Saúde Pública e o Estado das Coisas


Já faz alguns dias que assisti Elysium e ainda não sei dizer se gostei ou não. Mas estou convicto de que se trata de um filme importante, e mesmo sem muito ânimo – confesso que esperava mais – decidi escrever sobre ele; até porque o novo filme de Neill Blomkamp só deve ficar em cartaz aqui em Campo Grande até a próxima quarta-feira, 30/10, e eu realmente acho que ele merece ser assistido.

Tanto na ideia motriz quanto na condução, Elysium é bem mais previsível que o anterior Distrito 9, valendo-se abertamente de clichês hollywoodianos e calcando-se em ideias que já serviram de base até para desenhos Disney: o futuro como pesadelo de escravidão e exploração, sob o jugo de poderes e maquinários monstruosos – ideia que, na história do cinema, remete a Metrópolis e que também é a base do ultradireitista A família do futuro –, e a fuga da Terra para um satélite artificial, um imenso resort permanente no Espaço, habitado, no caso de Elysium, por uma elite impiedosa, e no caso da animação Wall-e pelos remanescentes da espécie humana.


Mas justamente esses elementos têm a ver com o que me parece importante no filme: o link que ele realiza ou possibilita entre uma visão explicitamente esquerdista das relações sociais e o chamado público comum, ou seja, não o público cult 
Dr. Fantástico 
ou sequer o público médio exigente de Gravidademas o público cultor de franquias como Predador ou Velozes e Furiosos.


Esse link não se dá apenas por elementos formais, mas também por um elemento fulcral da trama: a assimilação dos conflitos à questão da saúde pública. O alvo direto desse procedimento, naturalmente, são as classes médias e baixas estadunidenses, que nos últimos anos descobriram que se encontram à mercê de um sistema público ineficaz e dos planos de saúde privados. 

Não é um problema exclusivamente norte-americano, mas é óbvio que outros lugares do mundo comportam problemas mais básicos. Nesse sentido, Blomkamp opera uma redução sociológica e, claro, comercial de um estado de coisas muito mais amplo. Para o público norte-americano, porém, essa redução constitui uma ponte para a tematização implacável da sanha e da exploração capitalistas que o filme não deixa de realizar.


De certa forma Elysium me lembra O segredo de Brokeback Montain, que trata de outro tema polêmico valendo-se de estruturas fílmicas e narrativas relativamente convencionais. Assim como o filme de Ang Lee expôs o fato simples e cabal de que os homossexuais amam e sofrem como todo mundo, Blomkamp fez Hollywood declarar a verdade simples e cabal de que o capitalismo é um sistema cruel e exploratório.

Nesse sentido, seria útil comparar Elysium com as duas animações a que me referi, até porque nelas as relações de trabalho são camufladas ou francamente falsificadas. Em A família do futuro, as próprias máquinas são os poderes implacáveis que dominam os seres humanos. Mas as máquinas, aí, figuram os operários, ou melhor, as coisas que os proletários significam, consciente ou inconscientemente, nas mentes mais reacionárias.

Poucas vezes o desprezo dos donos do poder pelos pobres e explorados veio à tona de forma tão viva e direta num "produto da cultura" como nesse desenho repulsivo. De um lado, o mundo happy and clean  de tecnologia milagrosamente não poluente dos seres brancos e empreendedores – os que nunca olham para trás. Do outro, o mundo, justamente, dos que ficaram para trás, representados pelo ser desprezível de feições latinas e/ou eslavas e comportamento vingativo, que implanta com seus atos torpes um futuro de pesadelo maquínico, arremedo do pior "socialismo" praticável em qualquer canto da Terra.



A inversão desse maniqueísmo num maniqueísmo de esquerda (como notou minha amiga Inayá Borba Martini) pode não ser o procedimento mais justo do ponto estético e ideológico, mas cumpre uma função política que, no estado de consciência geral de um público como o norte-americano (ou das camadas médias brasileiras), é mais do que necessária: a de mostrar que não é dos pobres e miseráveis, e sim dos ricos que advêm os males do mundo atual. E, mais ainda, dar uma boa ideia do tamanho desses males.

No mais, Elysium é, no mínimo, um bom trabalho enquanto filme de ação e ficção distópica. As atuações de Matt Damon e Jodie Foster são impecáveis, Wagner Moura está muito bom e Alice Braga deslumbrante. Merece ser visto e recomendado, principalmente para os amigos e parentes reacionários.


 "Deixe sua cabeça funcionar..."

Um comentário:

  1. ..., para quem está entre a Terra e o Céu, até tem uma opinião ampla!

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