VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 19 de junho de 2011

A Demanda da Espiritualidade Perdida


"Se Deus não existe, tudo é permitido."
Dostoiévski

"O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso."
Walter Benjamin

O filme Nostalghia, do cineasta russo Andrei Tarkovski, revela uma outra realidade dentro da realidade dos homens comuns. É um universo utópico, um não-lugar, paralelo ao mundo ordinário. À semelhança dos romances de Dostoiévski, retrata um novo mundo que está por nascer, sobre as ruínas do antigo. Um mundo que está ainda em estado embrionário, surgindo lentamente por sobre as névoas deste tempo sombrio que quer abortar o novo que está surgindo.
A modernidade capitalista , que teve sua gênese na Itália, está sendo substituída, por um tipo de sociedade que ainda não possui uma configuração clara. A chama da fé cristã é passada do povo italiano para o povo russo, o novo portador da esperança utópica, de uma humanidade liberta da escravidão do materialismo suicida do capital.
Esperança que havia se apagado durante a ditadura stalinista, mas que volta a reacender-se pelo contato com a fé italiana. Uma fé que está se extinguindo na Itália moderna, simbolizada pela personagem Eugênia, mas que luta desesperadamente, como o personagem Domenico, para que esta chama seja levada adiante, para que não morra sob o escombros de uma civilização que está desabando.
Como profetizara Dostoiévski, A Rússia se tornaria o farol do novo mundo. Sua obra representa este sonho utópico de uma humanidade redimida de todas as suas atrocidades. Cabe aos loucos, aos poetas, aos místicos, a missão de carregar esta chama utópica de uma nova humanidade.
No mundo dos normais, a maioria está preocupada em aumentar sua felicidade individual, prolongar sua vida, preservar a juventude. Como o sistema do capital, as pessoas não querem envelhecer, não querem morrer, presas ao prazeres materiais que se multiplicam a cada dia, seduzidas pela propaganda, pela medicina, pela indústria famacêutica e de cosméticos. Enfeitiçadas pelas promessas de uma eterna e permanente felicidade, por um gozar da vida ininterrupto, elas se lançam no jogo fratricida da competição capitalista, para gozar das delícias oferecidas pelo mercado.
Numa cena antológica, Domenico, depois de ser retirado de seu cativeiro, que ele impôs a si e sua família para esperar o juízo final, corre atrás do seu filho, talvez para impedir que a criança entre em contato com este mundo dominado pelas trevas da sua própria decadência. Seu filho pergunta, nas escadarias de uma igreja, se ali era o fim do mundo.
Os fatos da nossa realidade contemporânea talvez respondessem que sim. Um mundo onde o Prêmio Nobel da Paz ordena ataques aéreos que matam crianças e mulheres indefesas, com a justificativa mentirosa de defender o mundo da ameaça terrorista, ameaça criada pelo governo do país que ele preside; um mundo onde as crianças são cercadas pela violência, pela fome, pelas psicoses, pela miséria, pela pornografia, pelo consumismo compulsivo, por parentes e religiosos pedófilos, por autoridades corruptas e depravadas; por drogas lícitas e ilícitas de todos os tipos. A resposta de Domenico e de todo pai preocupado com sua família não poderia ser outra: de que já estamos no fim deste mundo dominado pelo vampiro do capital.
É preciso atravessar o pântano moral, no qual nos encontramos, com a chama da nossa humanidade protegida da tempestade que sopra do abismo do esquecimento.
Na crise da humanidade humanidade européia, da qual fugimos, que fingimos não existir, ou quando percebemos, procuramos soluções individuais, Deus está sempre falando ao homem, mas ele se fecha em seu racionalismo, em seu orgulho. Só os santos e os loucos ouvem a voz de Deus. A criança encarna a luz do novo mundo.
Benjamin identifica o progresso capitalista com essa tempestade do abismo, que vem do passado, acumulando ruínas sobre ruínas. A história humana, ou pré-história para Marx, é uma sequência de catástrofes e segundo Benjamin, até a natureza, se lhe fosse dada a palavra, teria muito o que lamentar. Para Kafka o estado atual da civilização não se diferenciou quase nada do de um lamaçal. O homem ainda chafurda na lama à semelhança dos seus ancestrais barbáros. É uma barbárie racionalizada, com uma violência burocratizada, consumada pela máquina do Estado, perpetuando a bestialidade humana.

9 comentários:

  1. Tião, meu irmão:
    Dentre os seus posts, os poemas e textos sobre filmes são os meus preferidos. Acho que você tem uma sensibilidade artística (e artístico-reflexiva) que merece ser mais explorada, para benefício de todos nós. Este texto sobre Nostalghia, filme que vi há muito tempo e do qual me lembro muito pouco, é muito bonito, e concordo com quase tudo o que você diz. Assumo como minha essa sua demanda de espiritualidade, embora não concorde exatamente que ela, a espiritualidade, tenha exatamente se perdido. Aliás, quero pontuar algumas coisas de minha leitura de Takovski que talvez reflitam algumas pequenas divergências. Esses tempos, revi Stalker (e, um pouco antes, Solaris, são os meus preferidos, talvez pelo gosto por filmes de ficção científica, atípicos que sejam), pois resolvi substituir meu textos sobre Elefante, de Gus Van Sant, por um sobre essa outra obra-prima de Tarkovski. Não sei se essa minha leitura se aplica a Nostalghia, que não posso rever agora (e que já é do período do exílio, então pode mesmo haver diferenças essenciais), mas ela me permite fazer dois contrapontos (não necessariamente discordantes) à sua: primeiro, que a espiritualidade passa também pela questão do desejo, como afirma o final, onde a filha do Stalker, uma menina fisicamente deficiente, e de quem menos se esperaria isso, recita o Cântico dos Cânticos; segundo, que também a busca de redenção ou salvação espiritual pode ter algo de um vício, uma “droga”, como se depreende da relação do próprio Stalker com a Zona. Especial que seja, a Zona exige um retorno ao mundo, que de certa forma ela apenas amplifica ou, literalmente, ilumina. A lição que extraio desse filme é a de que é o zelo com a criação, este mundo degradado em que vivemos e suas criaturas, que constitui o maior tributo que se pode prestar a qualquer criador, existente ou não, ou seja, à bênção da vida.
    Um abraço fraterno,
    Ravel.

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  2. Essa frase "Se Deus não existe,tudo é permitido", foi que tirou o Ariano Suassuna do ateísmo. Numa entrevista, ele diz que, refletindo sobre essa frase, e chegando à conclusão de que nem tudo é permitido (pela nossa consciência?)e que portanto Deus existe. E realmente se não existe Deus ou continuidade do Espírito, tudo é permitido, afinal qual seria o limite para algo ou alguém que sabe que logo deixará de existir e que não haverá nenhum juízo sobre o que fez ou deixou de fazer?

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  3. Eber, eu me lembro quando você decidiu deixar de ser ateu, em função, digamos, de umas experiências místicas. Eu também mudei um pouco daquele tempo pra cá, inclusive por influência sua (e do Tião, e a lista na verdade seria longa), mas me pergunto se não é na condição de não termos nenhuma outra responsabilidade a não ser com o outro (ou seja, com o mundo) que nossa "missão aqui na terra" se torna realmente importante. Quero dizer, ser bom na expectativa de agradar a Alguém que nos julgará no Fim dos Tempos me parece um pouco oportunista, e um Deus capaz de exigir isso um pouco mesquinho. A questão é que o outro somos nós, a melhora do outro é também a nossa melhora (ou salvação, ou evolução). Penso que enquanto o que nos deter a mão na iminência de agredir o outro não for a mera consciência de que ele sofre não seremos inteiramente dignos da Criação.

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  4. Se o outro sofre, quero dizer, também sofremos, pois estamos tão empaticamente ligados ao outro quanto estávamos umbilicalmente com nossas mães. (Isso não é um postulado gay, rs.) Mais do que uma deformação do espírito, o prazer na desventura alheia é uma ilusão. Por isso,inclusive, a experiência do sublime na definição de Burke (o "prazer com dor") é no fundo uma experiência infantil, regressiva. Os poetas não gostam muito quando sugiro isso...

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  5. Excelente texto! Dostoievski é meu escritor favorito e "Os irmãos Karamázov" é uma obra genial, a maior de todas para Freud! De fato a leitura de Dosto abre a fé para muitos. Segundo o escritor estadunidense Phillip Yancey foram as obras de Tolstoi e Dostoievski em grande parte as responsáveis por manter a fé dos russos. É interessante que na obra dos dois, de forma diferente, claro, o cristianismo não tem nada de alienado, de vinculado ao materialismo capitalista ou socialista. Um grande problema é que boa parte dos cristãos se esquece da essência do cristianismo para se adequar ao mundo como é, e aí se apega a uma esperança futura, como se o reino do céu não tivesse nada a ver com a nossa existência agora. Exceto pela moral individual burguesa. Aí o cristianismo, ao invés de se opor ao mundo, de transformá-lo de acordo com os valores divinos, se torna apenas mais uma parte da grande civilização e reproduz o mundo como é, esquecendo de como poderia ser. Isso vai longe... De qq forma vou ver esse filme porque fiquei definitivamente instigado por este texto!

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  6. Goiano Paraguaio4 de julho de 2011 10:36

    Concordo com as tuas colocações. Tem ateus que merecem muito mais o "reino dos céus" do que alguns "crentes". Afinal, "a prática é o critério da verdade". Estamos aqui na Terra e é aqui mesmo que temos que trabalhar, na inter-relação com os outros e com a própria natureza, para nossa evolução. Tem uma música que fez sucesso no rádio já faz um bom tempo que diz "não adianta ir na igreja, rezar e fazer tudo errado"... De qua adinta nos perdermos em especulações metafísicas e esquecer que ali na esquina tem gente passando fome ou que nosso belo "Congresso Nacional" aprova um Código que legaliza a detonação da natureza?

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  7. Salve meu irmão!

    Concordo com os dois contrapontos.Assisti a um vídeo do Leonardo Boff no sábado que fala das falsas formas de transcendência, entre elas o vício, e da necessidade de fazer o retorno para a realidade prosaica com o fim de iluminá-la, ampliando nossa compreensão do mundo. A realização desalienada do desejo talvez seja a grande forma de transcendência legada pelo nosso Criador, que foi usurpada e pervertida por várias religiões,falsas morais a serviço do poder opressor e pela indústria cultural. Kafka dizia que era preciso olhar para as coisas como forma de oração.É esse cuidado que devemos ter com tudo, inclusive para nossa degeneração e do mundo. Leonardo Boff chama isso de compaixão cósmica.

    Um abraço fraterno

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  8. Bem, Sebastião, apesar do atraso deste meu comentário, gostaria de dizer que seus textos muito me inspiram para possíveis discussões em sala de aula (quando isto é possível). Boa combinação: Dostoiévski com Tarkoviski. Ótimo texto, além de poético. Gostaria de ter esta plasticidade ao escrever... bom, um abraço!

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  9. Uma correção que devia ter feito há tempos: disse, em meu primeiro comentário, que Stalker termina com uns trechos dos Cânbticos; não é isso, é um poema russo (não lembro o autor; não é o Arseni, pai do Tarkovski). A confusão se deu pela presença, nele, da expressão "obscuro objeto do desejo", que sempre achei oriunda da Bíblia. Agora não sei qual a procedência (e precedência): esse poema, o filme do Buñuel ou outro lugar.

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