VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 23 de agosto de 2015

E eram tempos difíceis... A montanha de Lenin e o rochedo de Sísifo


                                                                             Paulo Edyr Bueno de Camargo
                      Professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS)

O PT acabou. É um cadáver insepulto que anda zumbizando por aí, com um quê de vampiro, sugando o sangue das pessoas, tentando voltar à vida. Transformou-se, sem glamour e sem finesse, num tocador de violino. Pega o instrumento com a mão esquerda e toca com a direita. Doravante, cá entre nós, “de mim para comigo”, não irei mais carregar o instrumento para a música tocada deleitar os ouvidos da alta (e nada nobre) burguesia. Basta!

Infelizmente, e com pesar, não é um fenômeno político circunscrito à terra brasilis, porque a América Latina, a Europa, o sul da África e até os Estados Unidos conheceram algo do gênero. É o fracasso da social-democracia e do trabalhismo. Não conseguiram superar a máxima de Margareth Thatcher: “Não há alternativa”. O que significa capitulação e rendimento às políticas capitalistas neoliberais.


Chico de Oliveira
O sociólogo e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) Francisco de Oliveira, o velho e sábio Chico de Oliveira, denominou tal fenômeno político de Hegemonia às avessas, tomando como base uma inversão do conceito de hegemonia do marxista italiano Antonio Gramsci. De acordo com Chico de Oliveira, no atual momento do capitalismo, compreendido como um sistema mundial, apesar das particularidades nacionais, a classe dominante se deixa governar por indivíduos oriundos de outros segmentos sociais com uma única condição: seguir à risca a sua política econômica e ponto final. Observamos, nesse sentido, na América Latina, um metalúrgico ascender ao poder, sucedido por uma ex-guerrilheira urbana, um presidente de origem indígena na Bolívia, um bispo católico ligado aos movimentos campesinos no Paraguai; no mundo, o fim do apartheid com Nelson Mandela na África do Sul, a terceira via de Tony Blair na Inglaterra e, pasmem, um presidente negro nos Estados Unidos. Foi uma concessão da classe dominante no intuito de “tudo mudar” para tudo permanecer como está. A mudança é muito diferente da transformação. Afinal, melhor ceder os anéis do que perder os dedos.

No Brasil, país singular, onde tudo pode piorar, parte da classe dominante não aceita essa concessão. Ela odeia a democracia, detesta ver o filho do pobre cursando a universidade e os aeroportos frequentados pelo “populacho”, expressão utilizada pela nobreza às vésperas da Revolução Francesa (1789). É como diz a letra do rapper Criolo: “Uns preferem morrer a ver o preto vencer”. Não é uma atitude estranha à elite brasileira porque, desde Vargas, passando pelo golpe militar de 1964 e chegando aos dias atuais, ela sempre defendeu o golpismo e a quebra da democracia. O Brasil foi um dos últimos países do mundo a libertar os escravos e, aqui, ainda persiste a mentalidade Casa Grande e Senzala. É certo que esse tempo passou, e cada vez fica mais longe, mas deixou marcas.

Zizek
Que fazer? Eis a pergunta formulada por Lenin no início do século XX. E nós, hoje, após a falência dos tocadores de violino, de forma ainda mais dramática, perguntamos: E agora, o que fazer? Slavoj Zizek relembra um texto pouco conhecido de Lenin chamado “Sobre a subida de uma alta montanha”, para discutir a importância do recomeço e da volta às origens. Lenin diz que quando o alpinista não consegue atingir o topo da montanha, ele deve recomeçar a escalada da base da montanha; de nada adianta partir do lugar em que estava, é preciso, antes, voltar ao início, esperar o tempo melhorar, a situação propícia e começar novamente a escalada. Quem se habilita a subir a montanha? A metáfora de Lenin serve para os tempos sombrios que vivemos atualmente na sociedade e, por conseguinte, na política. Precisamos voltar lá nos anos finais da década de 1970 e fazer o velho e bom trabalho de base.

O que acontecia no Brasil nos anos 70 e, portanto, antes da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980? Tínhamos, então, três instituições em profunda “crise” e que, necessariamente, precisavam repensar os seus conceitos e atuações. O PT teve o mérito de aglutinar as três instituições e reatar as suas relações. A primeira, e mais importante, no sentido de força social, foram as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), vinculadas à Igreja Católica que perdia espaço junto ao povo nos anos 50.

Leonardo Boff
O Concílio Vaticano II, em 1962, e depois a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Medellin, em 1968, orientados pela Teologia da Libertação, associaram o tema da salvação com o da justiça social. A imagem de Cristo passou a ser referência para a luta de libertação. A Igreja Católica retomou a mística dos cristãos perseguidos que não temiam sacrificar-se pela boa causa. A “salvação” do indivíduo tinha como pressuposto a instauração de condições de vida mais dignas e humanas. Valores morais como a solidariedade, a dignidade e a paz superaram o egoísmo e as injustiças sociais típicas do sistema capitalista. Calcula-se em 80 mil o número de CEB’s em todo o território nacional no ano de 1981. Era, sem dúvida, uma força social
poderosa.

Paulo Freire
Outra instituição que precisou repensar seus conceitos e sua prática no final dos anos 70 foram os partidos de esquerda. Após a desarticulação e a derrota dos movimentos guerrilheiros no início da década, o equívoco da famigerada teoria do foco, a “crise” calou fundo na esquerda brasileira. A maneira encontrada, por parte dos militantes, para “ligar-se novamente ao povo” ocorreu através do método Paulo Freire, que, além de ater-se à alfabetização de adultos, procurava despertar a “consciência crítica”.


A terceira instituição participante da criação do PT e que também precisou se reformular foram os sindicatos. Havia, nos anos 70, um sindicalismo conciliador, pelego e governista, herdeiro do populismo da Era Vargas. O chamado “novo sindicalismo”, sobretudo no ABC paulista, deu novos ares ao movimento sindical. A esperança renascia.
Lula, o sindicalista

Foram, portanto, as três instituições, ou melhor, os três movimentos sociais brevemente discutidos, além de outros como clube de mães, associação de moradores, movimento de saúde na zona leste paulistana, etc., os responsáveis
pela fundação do PT. Não foi ao contrário, como muitas vezes ouvimos falar. Hoje, infelizmente, a criatura dominou e silenciou o(s) criador(es).

O necessário trabalho de base, nos dias atuais, não pode repetir o passado. O Brasil mudou muito.  As estruturas sociais não são mais as mesmas. A história somente se repete como farsa, ensinava Karl Marx no século XIX. Temos, hoje, outros movimentos sociais que podem engajar-se na construção de outra forma de organização social. São apenas possibilidades, potencialidades, sementes que podem germinar, mas que existem e são atuantes. Refiro-me, por exemplo, ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que possui cerca de 50 mil famílias cadastradas, integralizando mais de 150 mil pessoas. É, sem dúvida, uma força social emergente. A questão da moradia deve ser pensada em conjunto com a reflexão a respeito do direito à cidade e da explosão da violência policial nas periferias. A lógica do “condomínio fechado” e do shopping quer segregar uma diminuta população de privilegiados
em detrimento da parte majoritária da população escassamente atendida pelas políticas públicas. Vivemos um apartheid não oficializado.

Outro movimento social que merece atenção é o Movimento Passe Livre (MPL), de matriz anarquista, com sua organização horizontalizada, plebiscitária, defensora da ação direta. Tem uma feição mais democrática do que os tradicionais partidos de esquerda e seus “chefes infalíveis”. Temos muito o que aprender com essa moçada, convenhamos e confessemos. Também merece atenção o número recorde de greves nos últimos anos. Em 2013 foram registradas mais de 2000 greves em todo país, superando o recorde histórico de 1989. Apesar das mutações do mundo do trabalho e da avalanche de terceirizações, as greves estão aumentando. O caldeirão está fervendo. Temos, ainda, diversos movimentos culturais nas periferias das grandes cidades com seus saraus, grupos de teatro de rua, movimentos de ocupação de praças, os adeptos do rap, música urbana que denuncia a violência policial nos arrabaldes. É preciso algo que aglutine a atual dispersão dos movimentos. Será possível a construção de um novo partido político radicalmente de esquerda? Não é supérfluo lembrar que o pensamento político de esquerda surgiu há mais de 200 anos como crítica e alternativa ao modo capitalista de produção. A questão é complexa. Será que a forma partido ainda é válida?

Precisamos, e isso é ponto pacífico, a exemplo do que já foi feito no passado, nos aproximar novamente do povo, “colar pra somar” (mais uma vez Criolo), ouvir atentamente as suas reivindicações e necessidades, descobrir o elo de ligação, a linguagem apropriada (ninguém nega que o Lula fala a língua do povo), ao invés de discursar a respeito da luta de classes e das mudanças estruturais da sociedade, embora ambas sejam verdadeiras e necessárias.  Não adianta ter a cabeça na “revolução” e os pés longe do chão. A palavra-chave é construção. Começar dos alicerces em direção a sonhada, a inadiável, a necessária, e nunca realizada, revolução proletária no Brasil.

Ainda resta uma pergunta, talvez a mais difícil, quais serão as pessoas mais indicadas para a realização do trabalho de base? Nós, digo, nós mesmos, ou melhor, a nossa geração, o pessoal dos anos 80, porque temos mais experiência e formação cultural e política. Nós somos aqueles que estávamos esperando. Teremos, assim, que nos armar de muita paciência e perseverança, além de aguentar muita incompreensão e desconfiança. Não será tarefa fácil. Escalar a montanha de Lenin com medo do rochedo de Sísifo. Avante!

bônus:
"Lion Man" (ao vivo)