VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O olhar de Gelsomina


Para Carol de olhos serenos.
I
Graças a um convite dos colegas Marcus Villa Góis e Edneia Cerchiari, tive a chance, nesse fim de semana, não só de conhecer como de debater o filme “La strada” (1954), de Federico Fellini. Este post é uma tentativa de registro e ordenação de minha contribuição – de improviso, numa fala um tanto confusa – nesse debate, que ocorreu na última sessão do projeto Sábado Cênico, no último dia 21, e que também contou com a participação de Miguel Eugênio de Almeida, Juliana Simkzac Treuherz e Aline Dessandre Duenha, além do próprio Marcus e da plateia.
Sempre fui um pouco arredio a essa obra-prima de Fellini; em parte, eu acho, devido a esse mesmo elemento, fundamental na película, que dá título a este post: o olhar de Gelsomina, com sua mistura de peraltice infantil e carência temporã, entre outras coisas menos ou mais indefiníveis, sempre me incomodou nas vezes que o vi em trailers do filme...
Não foi por acaso, portanto, que escolhi esse tópico para dizer algo sobre essa obra que, confesso, me surpreendeu muito mais do que eu esperava. Mas também, naturalmente, porque se trata de um detalhe significantíssimo, que literalmente defronta – para não dizer afronta – o tempo todo o espectador.

Com Zampanò
Menos que apresentar uma leitura sistemática, o que me propus foi dizer algo de bonito – essa expressão prosaica traduz melhor a intenção – sobre esse filme que, antes e para além de tudo, emana uma grande e profunda beleza. O que naturalmente não deixa de constituir uma leitura, mas não uma leitura exploratória ou explicativa: talvez uma leitura essencialista – quiçá, epifânica –, no sentido de que busca trazer à tona algo da essência de seu “objeto”.
Mas isso não significa abstrair o filme de sua construção formal e seu contexto de produção. Pelo contrário, é no interior destes que nasce a singularidade estética e espiritual – que são uma coisa só – do objeto estético. Por isso, comecei tentando situar o cinema de Fellini no interior de uma dicotomia conceitual, como todas problemática mas que, bem manejada, pode ser bastante útil.
II
Essa dicotomia é a conhecida oposição entre cinema de poesia e cinema de prosa, da qual se valeu, décadas atrás, o cineasta sul-matogrossense Joel Pizzini – não sei se autor ou não dessa distinção – ao falar de seu filme (“de poesia”) Caramujo Flor. Trata-se, em suma, de supor ou sustentar que existem filmes ou cineastas onde o que impera é o tratamento estético da imagem e demais recursos fílmicos – com fins de significação e não apenas com objetivos técnicos e de verossimilhança –, e outros onde o que impera é a finalidade e o tratamento realísticos da imagem e a narratividade fílmica.
Por mais teoricamente problemática que seja – ainda mais aplicada a um cineasta que não raro extrai sua poesia do cotidiano mais chão (além do fato de toda imagem fílmica ser simultaneamente um trabalho estético com a imagem em si mesma e um registro temporal, “narrativo”) –, essa distinção não deixa de ser útil para discutir procedimentos e aferir gradações no que diz respeito, digamos, ao grau de poeticidade de um filme.

"Coroada" como Carlitos
E sem dúvida que os filmes de Fellini são, de diferentes formas e com diferentes intensidades, extremamente poéticos, sem que deixem, quase sempre, de versar sobre a prosa da vida; além de serem, não digamos essencialmente, mas estruturalmente narrativos, ou seja, de assentarem sobre estruturas narrativas, não raro (mas não sempre) básicas e convencionais. É o caso, aliás, de La strada, basicamente um enredo – e um jogo – cômico-dramático, com a estrutura dramática se impondo no final.
Mas, em que pesem certos momentos-chave, poesia e prosaísmo não são, em Fellini, elementos que se deixam, simplesmente, substituir ou encobrir (como na “poesia” dos filmes hollywoodianos, que recobre os conflitos) um pelo outro. Sem dúvida, muitas vezes o elemento “poético” se sobrepõe explicitamente, enquanto em outros ele chega a parecer ausente. Ele impera, por exemplo, em La nave va, onde Fellini flerta com o surrealismo, enquanto em Amarcord ele se alterna de forma delicada – e, portanto, em si mesma profundamente poética – com a narratividade. Em La dolce vita – o mais urbano e, talvez, mais desolado dos filmes de Fellini –, o prosaísmo supostamente domina, mas, além de ser sempre muito relativo, deixa-se dissolver num momento de poeticidade quase circense, chapliniana, como é a conhecida cena do banho no chafariz.
De um modo geral, no entanto, em La dolce vita poeticidade e narratividade convivem numa profunda e quase permanente tensão, manifesta, sobretudo, em diálogos espinhosos mas profundamente inspirados, algo semelhante a diálogos poético-filosóficos. E é um pouco assim, também – mas por outros caminhos –, em La strada.
Um ótimo exemplo da tensão entre prosa e poesia em La strada é a sequência de abertura. Sinteticamente, ela narra (“registra”) a venda de Gelsomina por sua mãe em condições que, no âmbito de um registro convencional, “realista” e despido de ironia, se apresentariam como trágicas. De fato, logo na primeira cena sabemos da morte de alguém, que logo adiante saberemos ser Rosa, suposta filha (provavelmente mais velha) da mesma mãe que, agora, pede para Gelsomina acompanhar o mesmo homem que havia levado a primeira (aliás, vende-a antes mesmo de “consultá-la”)... Tudo isso com a comicidade histriônica do choro descaradamente falso da mulher, que contrasta com o ar pesadamente utilitário e cobiçoso de Zampanò mas ao qual se soma a alegria ingênua e algo primitiva da própria Gelsomina.

Com o "louco"
Para além de qualquer representação crítica ou mesmo irônica – mesmo supondo, por exemplo, que a mulher sequer seja mãe das crianças, e que aquilo seja um comércio já corriqueiro para ela –, há no cunho tão acentuadamente grotesco dessa sequência uma espécie de princípio poético de composição.
Pois o grotesco, aí, nasce de um sentimento de paradoxo que se forja na mistura de tons incompatíveis: o tom cômico da superfície e o tom trágico latente e mesmo assim tremendamente pulsante, na medida mesma, inclusive, que já ali entrevemos o destino de Gelsomina; na medida em que o que vemos ali – a entrega de uma segunda filha (ou, que seja, pessoa) para o mesmo carrasco da primeira –, no âmbito, note-se bem, de uma cenografia que afinal de contas simula o real, deveria ser radicalmente avesso a qualquer comicidade.
A meu ver, nessa sequência se define o tom predominante da prosa e da poesia – ou da prosa poética – de La strada: a estranheza.
III
E sem dúvida que há um tanto de estranheza no olhar de Gelsomina. Em si mesma, a personagem é um compósito estranho.
A matriz de Gelsomina é claramente chapliniana. Há também, é claro, sua relação mais direta com o clown (que Aline Duenha explorou em sua bela fala no mesmo evento), mas diversos elementos explicitam a matriz-homenagem específica: o andar, o cabelo curto, vários trejeitos, o quase-chapéu coco que ela recebe de Zampanò... E é útil compará-la com essa matriz, até porque em Chaplin, e mais especificamente em Carlitos, existe esse dado igualmente fundamental em Gelsomina que é a aliança de elementos cômicos e dramáticos permeada, ou melhor, selada por um sentido marcadamente social, já que se tratam, ambos, de figuras radicalmente alijadas de quaisquer benesses sociais: um pela pobreza e outra não só por isso como pela escravidão.
Carlitos é, de certa forma, a personificação da inocência reencarnada no adulto. Sua carência e sua infantilidade são tão extremas, e suas demandas tão básicas – basicamente, subsistência e afeto –, que não podemos vê-lo senão como uma criança crescida. O que há de subliminarmente mais tocante na foto do Vagabundo com o menino e o cachorro é que os três por assim dizer se equivalem.
Gelsomina é diferente. A infantilidade de Gelsomina é muito mais impura, seu olhar não emana apenas carência de um afeto pueril, que pudesse ser suprido por uma criança ou um cachorro. Gilsemina tem sede da vida, e seu olhar exprime não só inocência ou carência como desejo. E seus atos o confirmam, seja na tortuosa fidelidade a Zampanò seja no amor mais pleno que emerge mas não se consuma com o acrobata (o “louco”, como que sua alma gêmea no filme). E seu desejo é também anseio de reconhecimento: vide seus trejeitos e seus olhares pedindo/simulando aplausos.

Desprezada por Zampanò
Elementos como esses impedem que vejamos Gelsomina apenas como uma criança crescida. O elemento ao mesmo tempo latente e pulsantemente adulto de sua personalidade  – como latente e pulsante é, desde o início, a tragédia de seu destino – torna seu olhar um pouco menos afeiçoável, ou pelo menos não tão imediatamente afeiçoável quanto o de Carlitos.
Em minha explanação oral, inquiri a plateia a esse respeito, e, como já previa, fui contradito, por uma ou duas senhoras e talvez um senhor, que afirmaram (ou esboçaram o gesto de afirmar) ter sentido uma empatia imediata com Gelsomina. Essa recepção simultaneamente estética e empática, no entanto, a meu ver só se estabelece de um ponto de vista superior à da teia diegética e significacional em que Fellini quer enredar o leitor, no sentido de que é um ponto de vista que não toma para si a demanda desejante que é Gelsomina. Um ponto de vista, em suma, maternal ou paternal – ou, em todo caso, dotado de um sentimento que se sobreleva ao olhar e à carência da personagem. Mais que empatia ou mesmo reconhecimento aristotélico, esse ponto de vista talvez comporte uma piedade subsunsora.
E tudo em Gelsomina, de seu olhar a seu destino, clama contra qualquer subsunção. O que Gelsomina quer é nada menos que isso a que chamamos realização, e nada, nela, pode nos constranger mais do que isso: no fato dela querer de forma tão adulta mas agir de forma mais tola que uma criança. E no fato de seu olhar já exprimir esse estado, essa sina ou o que seja, de um adulto que não consegue deixar de ser criança. É na percepção dessa formação incompleta, que não é o estado de graça da infância eterna do Vagabundo, que emerge toda a estranheza da “inocência” de Gelsomina: essa inocência é, sim, um atributo seu, mas o que ela tem de sublime não a purga do que tem de toleima. Uma toleima, para falar com todas as letras, que às vezes irrita.

Vendo o louco pela primeira vez
E nisso mesmo, justamente nisso, se vislumbra a grandeza do humanismo e da poesia – do humanismo poético, ou a poesia humanista – de Fellini em La strada. Pois o olhar com que ele nos defronta não tem a inocência fácil das crianças, mas, com tudo o que ainda traz dessa inocência, a contraditoriedade pulsante da vida adulta, algo estranha e grotescamente sublimada em tudo o que vemos cristalizado e vivificado nos olhos de Giulietta Masina. O desafio com que Fellini nos defronta é, portanto, muito maior: o de olhar e aceitar alguém na constrangedora premência de suas demandas.
E como esse alguém e essa premência – Gelsomina e seu olhar – particamente se derramam sobre tudo no filme, sem dúvida que eles constituem peças-chaves, senão a peça-chave, na intenção humanista que tão claramente informa La strada: a intenção de trazer à tona o valor do humano em tempos degradados como os do pós-guerra italiano, e dos quais Zampanò se faz o representante maior. E é esse “derramamento” empático, que pressupõe do espectador o aprendizado de amar Gelsomina, que permite a esse mesmo espectador aceitar como algo premente de um anseio humano de alguma forma válido, e não como um brado hipócrita, essa outra cena fortemente paradoxal que é o discurso de Zampanò recusando-se a abrir mão de sua liberdade por ter matado (digamos, quase acidentalmente) o acrobata.
De certa forma o olhar de Gelsomina já comporta esse paradoxo. Sob ele, no entanto, pulsa a, ingênua ou não, mas certamente prosaíssima – ou poeticamente prosaica – profissão de fé do cinema felliniano, e que se erige na confluência de seus laivos cristãos e anarquistas: a confiança acerca de alguma pureza ainda na mais torpe e contraditória humanidade. Como numa depuração de si mesmo, Fellini faz Gelsomina carregar – e espalhar – em seu olhar essa confiança.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Dudu e o absurdo

Sou professor universitário há mais de dez anos. Sou formado em Letras pela UFMS, tenho mestrado em Teoria e História da Literatura pela Unicamp, doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP e concluí recentemente meu pós-doutorado na Unicamp. Não sou nenhum gênio, mas me considero razoavelmente - digamos, medianamente - inteligente, e me esforço, às vezes muito, para entender tudo o que ouço, vejo e leio.

É mais ou menos assim, com exceção da última oração, que me apresento em meu currículo Lattes, mas nunca havia cogitado em registrar nada disso neste blog, até porque meu objetivo é dialogar com quem quer que se disponha a isso. Acontece que, infelizmente, há situações em que é preciso demonstrar, como diz o chavão popular, que não se é ninguém, e esta é uma delas. Tudo para dizer o seguinte:

A ideia de que Eduardo Miranda Martins pudesse estar portando mais de vinte papelotes de cocaína na segunda noite de protesto em Campo Grande (aliás, uma noite de chuva intensa), sendo ele um dos manifestantes mais ativos e visados do movimento no município, é um acinte à minha inteligência. Um acinte, acredito, à inteligência de qualquer cidadão minimamente sensato.

Eduardo Miranda Martins, o Dudu, é um músico e ativista político e cultural de Campo Grande. Conversei algumas vezes com ele - a mais demorada delas foi durante um ato em defesa da luta dos índios Terena -, e tenho a convicção de que se trata de alguém em pleno uso de suas faculdades mentais. E também uma excelente pessoa; apenas idealista, aguerrido e sincero o bastante para que alguns o considerem um "porra louca".

Negro, pobre, autodidata, extremamente lúcido e corajoso: não tenho como deixar de admirar o Dudu.

Lembro de tê-lo visto na noite de 20 de junho, o primeiro dia de protestos em Campo Grande. Eu fotografava os cartazes e ele passou gritando alguma palavra de ordem, sem me ver. No dia seguinte, marcado por ações mais radicais que tive a sorte ou o azar de não acompanhar de perto, Dudu foi preso pela guarda municipal. A primeira notícia que circulou na Praça do Rádio, onde eu estava, foi a de que, depois de ter sido abordado pelos guardas, seu paradeiro era desconhecido. Só um tempo depois - uma hora ou mais - é que soubemos da prisão.

Detalhe: Eduardo tem um histórico de enfrentamento político com a guarda municipal, ou melhor, contra a autorização, hoje concedida, para os guardas portarem armas de fogo. Já discursou na Câmara Municipal a esse respeito, e essa foi uma de suas bandeiras quando concorreu para vereador em 2012. Mais ainda: Dudu move um processo, anterior à sua prisão, contra guardas municipais que, segundo ele, o agrediram na Orla Morena.

Feito esse resumo, peço licença para dizer e sublinhar novamente:

A ideia de que Dudu pudesse estar portando mais de vinte papelotes de cocaína na segunda noite de protesto em Campo Grande (aliás, uma noite de chuva intensa), sendo ele um dos manifestantes mais ativos e visados do movimento no município, é um acinte à minha inteligência. Um acinte, acredito, à inteligência de qualquer cidadão minimamente sensato.

Usei a palavra "absurdo" no título dessa postagem, criando uma eufonia com "Dudu", e pensei muito se manteria ou não esse recurso literário. Mas não há outra palavra. A permanência de Dudu na prisão beira o absurdo kafkiano. A esperança é que, ao contrário do que acontece n'O Processo de Kafka, a Justiça deste País e deste Estado seja - ou comece a se tornar - mais cega no bom do que no mau sentido: o da isenção, e não o da falta de bom senso.

Uma nota que pode soar como um gesto covarde, mas não é: não tenho nada contra os guardas municipais, embora também seja contra o porte de armas de fogo por eles. Mas respeito-os como cidadãos e trabalhadores. Conheço pessoalmente ao menos um deles, a quem admiro como pessoa e como músico. Na mesma noite em que o Dudu foi preso, vi uma jovem dirigir-se, indignada, aos guardas que protegiam a Prefeitura Municipal, chamando-os de covardes e coisas do gênero. Quando ela se retirou, eu disse a eles que nem todos pensavam daquela forma, que havia manifestantes que entendiam a situação deles etc. Lembro de dois ou três terem agradecido com a cabeça. O respeito e o bom senso podem estar em qualquer lugar.

Não costumo assinar minhas postagens (o nome já aparece aí embaixo), mas esse caso é mesmo uma exceção.

Ravel Giordano Paz


sábado, 20 de julho de 2013

Sonhos de uma Noite de Verão


Numa bela noite de verão, num boteco muito distante, a cerveja Skol de garrafa, reinando absoluta em todas as mesas, sonhou ter uma filha que descesse redondo como a lua cheia e fosse dourada como o sol. Ela contou seu lindo sonho ao marido Marlboro e, logo no verão seguinte, nascia Skol latinha, brilhante como a luz do meio-dia e refrescante como a brisa da manhã.

Mas infelizmente a rainha não sobreviveu ao nascimento da filha, pois é muito difícil uma garrafa dar à luz uma latinha sem quebrar o gargalo.

Embora amasse ardentemente a falecida esposa, o rei Marlboro foi advertido pelo Ministério da Saúde para que procurasse com urgência uma nova rainha, pois Skol latinha e o povo do bar não podiam permanecer órfãos por mais tempo.

Marlboro então escolheu para segunda esposa a Bohemia de garrafa, estupidamente gelada.

Acontece que a Bohemia era mais cara e, apesar de muito gostosa, sua vaidade era tanta que lhe impedia de substituir a antiga rainha. Ela não era tão popular entre os fregueses e não tinha o menor amor pela enteada. Além disso, passava o dia inteiro mirando-se num cinzeiro prateado e repetindo a mesma pergunta:

– Cinzeiro, cinzeiro meu, quem é a mais gostosa dentre todas as cervejas deste bar?

E o cinzeiro respondia:

– É a Bohemia, minha senhora!

Com o passar do tempo, porém, a Skol latinha ia gelando no freezer e ficando cada vez melhor, até que o cinzeiro mágico foi obrigado a dizer:

– Minha senhora, a Bohemia continua tão gostosa quanto antes, mas agora a Skol latinha é a mais apreciada dentre todas as cervejas daqui, pois, mesmo sendo em lata, sai mais em conta por causa de uma promoção do Carrefour!

Conhecendo a sinceridade do cinzeiro – que, apesar de fosco por causa das cinzas, refletia a realidade como nenhum outro –, a rainha Bohemia chamou o garçom e lhe ordenou que sumisse imediatamente com a Skol latinha, que lhe arrancasse o coração e jogasse suas tripas aos cães selvagens.

Mas o garçom estava sóbrio...

E é por isso que, até hoje, os cães selvagens não bebem cerveja em lata!

Fábio  Dobashi Furuzato

terça-feira, 16 de julho de 2013

Duas lições inseteístas


.

Inocência

Entomologia,
minha grande paixão desesperada.
(Desesperada em sentido etimológico:
que desistiu de esperar por mim.)
Amo tanto os insetos que
tenho a secreta esperança
de que Deus seja um.
Não uma barata, pois já matei muitas,
e eu estaria literalmente ferrado.
Mas quem sabe um grilo,
ou talvez uma formiga.
Dessas, a única que torturei até a morte,
foi com a mesma suposta inocência
com que os eleitos O pregaram na cruz.

 


Ponderação

Essa fruta tem um dono
– e vou respeitá-lo.
Em primeiro lugar, porque ele nunca pensou,
provavelmente,
que a propriedade é uma grande e 
perigosa piada.
Mas também porque,
ao contrário do que se pensa,
e do que eu mesmo penso,
talvez ele pense.
E pense, por exemplo, que eu sou um deus.
E nada pior do que um deus
que fere e mata 
(e humilha, segrega, julga e subjuga)
os seus semelhantes.

sábado, 13 de julho de 2013

Em louvor a um Lobisomem

Jam Session dos Lobisomens no Holandês Voador
(CLIQUE AQUI)






Este post deveria ter sido publicado ontem, mas não consegui anexar o vídeo linkado acima a tempo. Minha vontade, agora, era falar da reabertura do Holândes: o show heróico do George à frente d'O Lixo e a Fúria, o show arrasa-quarteirão dos Strangers... Enfim, fica pra outra hora.


Outro dia meu amigo Volmir Cardoso Pereira honrou este blog com uma elegia para uma cafeteira, e hoje eu talvez o desonre com este louvor a um Lobisomem – que além do constrangimento dessa forma humilde talvez deixe o próprio Lobisomem em questão constrangido, se ele for um desses cristãos que insistem que só o que se louva é Cristo. Mas Douglas Almeida saberá me perdoar – os cristãos devem sabê-lo –, pois sabe (já lhe disse isso) que eu vejo a música dos Lobisomens como algo semelhante ao que seu livro preferido chamou de o Espírito de Deus pairando, ou melhor – e com o perdão da correção –, movendo-se sobre as águas.

E também porque saberá que esse louvor é uma homenagem não só a ele mas ao Holandês Voador, o templo sacromundano do rock em Campo Grande, bravia e insistentemente erguido e reerguido depois de cada temporal por seu sumo capitão George, outra fera indomável do rock bigfieldense à frente do grandioso O Lixo e a Fúria. Homenagem esta, esclareço, que publico no dia de outra valente reemersão de nosso barco-fantasma das águas de um semiostracismo imposto pelos senhores da Lei.

Também preciso esclarecer que essa “homenagem” é também a amortização de uma dívida contraída com os próprios Lobisomens, aos quais pedi que fizessem a session linkada neste post, com a esperança de fazer um bom registro do som deles, que pudesse ser distribuído com um zine que, pelo visto, não verá a luz do dia.

Essa não foi, provavelmente, a melhor apresentação dos Lobisomens. Em primeiro lugar, porque a platéia era pequena, e os urros cá embaixo que ajudam a tornar os três monstros lá em cima ainda mais monstruosos foram relativamente poucos. Em segundo lugar porque o baixo tocado por Fabrício, pego desprevenido, foi arranjado ali no palco mesmo e, ale de ter um timbre seco de doer as têmporas, era simplesmente inafinável.

Mesmo assim foi outra apresentação monstruosa, e é provavelmente o registro de melhor qualidade sonora dos Lobisomens. Por obra de um azar muito tipicamente meu, a bateria acabou faltando poucos segundos do gran finale, um arregaço completo que ficará a cargo do ouvinte imaginar, se não preferir deixar o som prosseguir infinitamente em sua cabeça.

Mas, como eu dizia, esst post é um louvor a um Lobisomem.

Douglas Almeida é, certamente, um dos melhores guitarristas (senão o melhor) em atividade hoje em Campo Grande. Eu me lembro uma vez que, ao fim de uma session assombrosa, eu disse a ele: “Você é o lobisomem”. Foi a segunda ou terceira vez que eu vi esse trio de jazz-demolição-transcendental (na definição deles mesmos) em ação, e mais uma vez em que, como sempre, eu me assombrava – é a única palavra, mesmo – com o que eles faziam no palco, numa noite em que Douglas tinha estraçalhado como nunca seu instrumento. Ele, por sua vez, balançou a cabeça, enfadado com minha tietagem, e riu: “Que é isso, o lobisomem...”.

Mas Douglas Almeida entendeu o que eu queria dizer: os Lobisomens são mesmo monstruosos, mas o que ele faz é mais monstruoso que tudo. O baixo de Fabrício é rítmica e melodicamente muito rico e muito louco – é a alma jazzística da banda –, a bateria de Leandro é de uma força e, igualmente, uma ritmicidade que, quando se unem, fazem coisas inacreditáveis, mas a guitarra de Douglas une tudo isso: a força, o ritmo e a riqueza – quando não a delicadeza – melódica.

Bom, se isso que chamei de “uma homenagem” quisesse fazer alguma justiça à trabalheira que os Lobisomens tiveram a meu pedido, este post deveria ser algo como uma descrição espiritual-fenomenológica de cada segundo do que acontece nesse link. Mas minhas palavras têm muito pouca música pra impedir que essa “justiça” desande em puro tédio. O melhor é deixar que meu leitor – se é que eu ainda tenho algum – ouça o máximo que puder do registro abaixo.

Não é uma apresentação perfeita. A segunda ou terceira música tem trechos bem desarmônicos, mas mesmo nessas horas os Lobisomens são monstruosos. Quando se entendem, e esse entendimento evolui, fazem algo próximo do divino. Além disso, ao contrário do que eu pensava (só ontem ouvi a gravação inteira), trata-se de um registro sonoro bem razoável do talento de Douglas com sua guitarra rascante e veloz, que não raro desafia a distinção entre base e solo, criando verdadeiros riffs solantes, e é às vezes tão incrível que parece haver não uma, mas duas guitarras no palco.

Falta dizer que este post é uma homenagem, também, a’O Lixo e a Fúria de George & Confraria e ainda à Srangers, outra banda magnífica, capitaneada pelo carismático Wille Bruno e que também toca hoje na reabertura do Holandês Voador. E também cujo baixista, Irwing dos Teclados, é um ateu militante que eu tive a honra de ver tocando junto com os também militantes – mas cristãos militantes – Douglas Almeida e Leandro Dourado, em instantes igualmente sacramentados no Estar-Sendo Infinito do Caos-Cosmos.

Mais uma prova de que a música transcende todas as fronteiras. Se este mundo tem algo parecido com uma salvação, ela passa por alguma coisa que está acima da religião e mesmo da política, e que é essa coisa semelhante ao Espírito de Deus (ou dos deuses, e das deusas, ou do Espaço-Tempo, ou do que quer que seja), não pairando, mas se movendo dentro e fora de nós: a Música.

Então viva a Música, viva o Rock, viva a Liberdade, vida longa ao Holandês Voador!

Foto de Kojiroh

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Elegia para uma cafeteira quebrada


 

ntem de manhã, o pino do suporte de plástico do coador com filtro de papel da minha cafeteira quebrou. Não deu pra tomar o cafezinho matutino e o meu quatro de julho de 2013 começou mal. O pino do suporte de plástico do coador com filtro de papel da minha cafeteira talvez custasse uns vinte centavos. Vinte Centavos. Mas onde comprar um pino do suporte de plástico do coador com filtro de papel que servisse certinho no modelo e marca da minha cafeteira? Dia ruim, amargo Brasil. Não, não é só por vinte centavos. Pensando bem, não é só pela cafeteira que quebrou e o café que não saiu.

Meu cérebro amanhecendo sem café remói o mundo-moinho e sinto os meus ossos quebradiços. Cansaço, sombra nascente, nublada manhã que segue. Desperdício de energia minha, da minha geração high-tech, incapaz de usar o coador bruto de Maria Bonita. Acorda, Maria Bonita... cangaço de retóricas, mãos ágeis e leves para as teclas, telas, sem punho firme para foice e martelo e bigorna. Quantos calos nas mãos inglórias serão necessários para que a foice comece a ceifar e o martelo o aço a martelar? Quantos calos na garganta para que o grito ganhe a carne? Ah, como essa dor me espanta, arde, como me inquieta uma atualização de facebook e minha satisfação perfilizada, quase pérfida, carapuça política de um egoísmo programado. As ruas logo ali, meu violão aqui ao lado sem a corda Mi. Dylan, Dylan, the times they are a-changin' merda nenhuma. Nem canção, nem aliteração, ritmo forçado, rima ginasial, disfarçarão as sentenças que escrevo de sua inevitável tibieza espiritual. Lembro o olhar de Dilma piscando uma Constituinte Exclusiva para a Reforma Política e a massa nas ruas cantando O gigante acordou e Bandeira e o Hino e Fora aos partidos. A piscadela da ex-guerrilheira passou despercebida, dobrou à esquerda na esquina, se foi. A juventude quebra-semáforo ainda não sabe o que fazer com a esquina. Entre micaretas, futebol e indignação, um “Vem pra rua porque a rua é a maior arquibancada do Brasil” saltando dos carros sonhos-de-consumo da Fiat para as catracas quebradas em São Paulo, da voz-antena de Falcão para as minhocas de metal onde a juventude se tromba, se compartilha, mesmo com os ouvidos fechados em fones e música e tecnologia. Os proletários descobriram que eram proletários tagarelando juntos dentro da fábrica. Ford se foi e ficaram os trens, metrôs e ônibus da cidade. Dentro das grandes latas móveis, da vida que se vai no caminho pisado, onde o homem de hoje quer “um lugar pra sentar e sonhar no lotação”, será aí o espaço de conversa possível para se descobrir de novo que raios é isso que a esquerda, às vezes quase quixotesca, chama de proletário? De que lugar lançou-se o grito pelos 20 centavos? Ou ainda – um agravo – resolve alguma coisa saber de onde o grito surgiu? Um eco, um oco cheio de novo, cheio de tudo, até de vazio.

As ruas ocupadas, um aroma.

Eu que não sou niilista, que só preciso tomar um café quente pra crer de novo no progresso da humanidade, em Che, em Gandhi, vi com bons olhos o menino de doze anos surfando com rodinhas no asfalto duro da avenida Afonso Pena, no coração duro de Campo Grande. Vi com ternura seu cartaz apagado contra a PEC 37. Invejei sua desenvoltura, seu skate, sua camisa amarrada na cara (e um skate é algo ainda inconcebível para mim). Meus atrasos. Vi o Bradesco apedrejado, vi o Bradesco mordendo com seus estilhaços-dentes de vidro a perna de um vida loka embriagado de raiva justa, urgente. Terror contínuo na periferia, saldo sempre insuficiente. Vi assentados rurais, abandonados pelo Estado, perdidos na massa com cartazes tímidos escritos com caneta Bic pedindo luz elétrica. Pareciam de outro tempo, estáticos, quase pedras, em um canto escuro. Nem sei como os vi na turba patriotizada com o branco da paz e o verde e amarelo gritantes. Lembrei de Meu Coronel em pleno desenvolvimento azul e branco, também cores da bandeira. E a Reforma Agrária, sejamos francos, será sempre vermelha. E o vermelho desbotado, meu querido andrajo, quer vermelha a rosa do povo. Mas “a hora pressentida esmigalha-se em pó na rua” (como diz o poema de Drummond, “nosso tempo”, sobre o tempo dele, que é o tempo nosso também). Restará algo só nosso, um vintém, um V de Vingança, conquista desta juventude, caso não olhemos para a História, caso não abdiquemos de querer fazer sempre um samba? Rosa Luxemburgo, ensinai-nos sobre os conselhos operários, ensinai-nos sobre um socialismo debaixo pra cima, sem cartilhas goela-abaixo. Terá mesmo a chave a América Latina? Talvez mais louco do que a média, “eu que ainda espero a revanche pintar”, mesmo que muito devagar, vou percorrendo o litoral central de Geraldo Roca, o escurão-sul desse mato grosso. Sem muito o que dizer, sem rota, ancorado em citação, só me resta entregar estas linhas pobres ao canto superior de Drummond:

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.


Eu não sou as coisas. E eu não sei sequer dar nome específico a esse tal pino do suporte de plástico do coador com filtro de papel da minha cafeteira. Só sei que é a cafeteira quebrada, como um todo, o que me incomoda. Só a substituição ou o conserto ou a abolição da cafeteira podem explicar o que seja os vinte centavos de uma coisa que não tem nome, que não tem catálogo, mas que não deixa o café ficar pronto, que afasta a alvorada pra longe, desritmando meus neurônios agitados.


Volmir Cardoso Pereira

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Esquerda e direita, direitos e deveres, partidos e poderes...

Um dia de festa, outro de conflitos e outro de ressaca: pode-se resumir assim, em linhas muito gerais, é claro,  os três dias de Ato em apoio à "Revolta do Vinagre" (ou dos 20 centavos) iniciada em São Paulo. Assim como em outros lugares, as manifestações não terminaram, com desdobramentos que vão desde a realização de várias outras manifestações à importantíssima presença de manifestantes nas sessões da Câmara Municipal. Mas tanto local quanto nacionalmente o quadro é confuso. Demandas de toda ordem se unem e se conflitam, e só agora, com as tomadas de posição um pouco mais consistentes do Governo Federal, as águas começam a se aclarar, e é possível distinguir as correntes que querem as reformas profundas e estruturais com as quais o Governo começa a acenar - ainda timidamente - das que querem apenas bagunçar o coreto (em si mesmo já desafinado, é verdade).

Digo timidamente porque ainda há muita coisa fora das pautas que se apresentam. Ninguém ou mal se fala, por exemplo, em reforma agrária ou redução da jornada de trabalho, até porque o "povo" que toma as ruas não é propriamente o que se pode chamar de "povão": as massas trabalhadores e camponesas. E ninguém se lembrou do que acontece agora no Xingu, por exemplo. Quando se reivindica o poder para o povo, geralmente se esquece que esse "povo" está longe de ser uma entidade coesa e sem interesses díspares. O mesmo vale para a falácia de que todos os partidos são iguais e de que é possível ir para frente (ou para trás) sem guinar um pouco ou um tanto mais à esquerda ou à direita...

Mesmo assim, o que os atos produziram até agora, mesmo levando em conta o perfil revanchista e reacionário de alguns grupos, foi basicamente positivo. A disposição de Dilma Rousseff para peitar a REFORMA POLÍTICA que precisa ser feita com toda a urgência e é um divisor de águas entre as disposições efetivamente transformadoras e as reacionárias. E se os trabalhadores saírem às ruas certamente será em sua defesa. O impasse, agora, está nas classes médias e estudantis: rebeldia ou carnaval?

O argumento de que Dilma está se sobrepondo ao Congresso ao propor um plebiscito para viabilizar a Reforma ou para sedimentar um "gople" é o mais hipócrita possível. Queremos mudanças efetivas ou não? Que medo é esse de um fórum democrática e legitimamente constituído?

Fotografei quase todos os cartazes abaixo no primeiro de dia de Ato em Campo Grande. Há causas amplas e pontuais, e concordo com boa parte delas, embora nem todas estejam claras para mim e, suponho, para muita gente. Um grupo de advogados que alertava contra a submissão do Judiciário aos outros poderes, por exemplo, questionava o poder, segundo eles, excessivo que se confere a procuradores por vezes muito jovens, e contra a qual se ergueria a PEC-37.

Deixei de fotografar alguns cartazes, como um que defendia a redução da maioridade penal e outro pedindo "Fora Dilma". Mas me arrependi, pois, por mais que discorde dessas ideias, o álbum abaixo se pretende uma crônica, não completa - nem imparcial, porque isso não existe -, mas minimamente representativa do dia 20/06.


domingo, 9 de junho de 2013

Terra Vermelha e a voz que resiste

Osvaldo (Abrisio da Silva Pedro)
Assisti ontem pela terceira vez a uma exibição do filme Terra Vermelha, do cineasta chileno (de nacionalidade italiana) Marco Bechis. A primeira, no hoje extinto Cine Cultura de Campo Grande, me deixou a convicção de que se tratava de um filme fundamental, cuja abordagem sóbria e corajosa de um tema dramático e fulcral ia na contramão da “cosmética da fome” da chamada Retomada do cinema brasileiro.

A segunda, que ocorreu por minha próprio sugestão no IV Encontro de Estudos Literários da UEMS ocorrido no mês passado, relativizou um pouco essa impressão, graças principalmente ao debate conduzido pelo professor Volmir Cardoso Pereira e no qual tomaram parte alguns alunos indígenas da UEMS, inclusive o líder Terena Sérgio da Silva Reginaldo. Enquanto o primeiro sublinhou a presença de alguns clichês cinematográficos e de feição romântica, os segundos indicaram o que haveria de verossímil e inverossímil no retrato dos índios. Entretanto, diga-se logo, nenhuma dessas pessoas negou o valor e a importância do filme de Bechis, cujos acertos todos reconhecem muito mais presentes e marcantes que os clichês e as inverossimilhanças, como o pequeno romance entre Osvaldo, o jovem aprendiz de xamã, e a filha do fazendeiro, uma história com ares de telenovela mas desde o início fadada a um fim melancólico. 


Cacique Nadio (Ambrosio Vilhalva)

Aliás, já é hora de explicar que Terra Vermelha é um filme de ficção baseado nas dramáticas condições de vida (e morte) dos índios Garani-Kaiowa confinados em pequenas e miseráveis reservas na região de Dourados e em sua luta pela reconquista de seus Tekohas: seus lugares de origem e cultura material e espiritual, como explicou o Patrik Adam Alves Pinto, militante da causa indígena e funcionário da Funai, que debateu o filme na exibição de ontem.

Pois bem, e justamente a exibição de ontem – promovida pelo Projeto Cinema (d)e Horror da UFMS – consolidou aquela minha convicção, e com ela a de que Terra Vermelha constitui um verdadeiro aliado (o Coletivo Terra Vermelha é uma prova disso) na luta pelas causas indígenas; mais especificamente, na necessária conscientização da opinião pública quanto à gravidade, amplitude e importância dessas causas, que ultrapassam em muito a realidade indígena. A “questão rural”, a premência de uma reforma agrária efetiva e responsável, são coisas que dizem respeito à possibilidade de um desenvolvimento social e econômico que tenha outra lógica que não a do consumismo predador e crescentemente catastrófico que predomina, aliás, literalmente avança hoje – aliás, há longos cinco séculos – no Brasil.
 

Ademilson Concianza Berga (Ireneu)

Não que o filme tematize sociologicamente isso, mas os dramas que ele mostra propiciam, talvez, o início de uma sensibilização para isso. O gesto do cacique que come um punhado de terra em resposta às declarações de propriedade e pertencimento do fazendeiro são uma resposta, também, ao mundo dos homens, mulheres e crianças que já não podem andar descalços, seja porque o asfalto é muito duro, porque os poucos espaços de terra na cidade estão ou nos parecem imundos ou porque é potencialmente humilhante não ostentar um tênis (ou um celular) da moda. Um drama psicossocial, esse último, que entre os próprios indígenas se soma ao confinamento, o trabalho semiescravo, os assassinatos, o alcoolismo... Nada, decerto, a ver com “nosso mundo”.

Mas justamente ali, no mundo “deles”, onde tudo isso é tão pior, a vitória do jovem herói sobre si mesmo e os maus espíritos tem a força de um efetivo ato de resistência: a mesma que se manifesta, hoje, na decisão dos índios Terena de continuarem exigindo, mesmo sob risco de mais derramamento de sangue, a demarcação de suas terras.


Alicelia Batista Cabreira (Lia)

É verdade que, como sublinhou Patrik Adam, Terra Vermelha exige um trabalho de contextualização histórica e social para a compreensão de muitos elementos da realidade que ele apresenta, como o alcoolismo e a suposta esquiva ao trabalho dos indígenas. Por isso mesmo, seria extremamente oportuno que se editasse e disponibilizasse na internet e por outros meios uma versão do filme com uma contextualização prévia desse tipo – e esse post é também um convite a que se faça isso.

Para além disso, no entanto, Terra Vermelha é um filme que, na súmula de suas qualidades e defeitos, possui um mérito extraordinário: o de nos apresentar e nos fazer aliados de um novo herói: um herói que não é, nem de longe, o índio puro e idealizado d’O guarani (e muito menos a índia passivamente sofredora de Iracema), e que talvez nem seja propriamente – ou apenas – um índio, mas, antes, uma voz: a voz que diz “Eu ganhei, você perdeu”, e que diz que resistir, exigir dignidade e justiça, são atos necessários e possíveis. Para “eles” e para nós, que no fundo estamos no mesmo barco, porque é a mesma questão fulcral que se coloca para todos: em que mundo, em que lugar, em que cultura material e espiritual – em que realidade humana – vamos criar ou estamos criando nossos filhos?

Bem, já se pensa em colonizar Marte, e outros vêem seus “Tekohas” em praias ou lugares piores da Flórida, mas não são esses, certamente, que amam a Terra, menos ainda nossa sofrida terra em brasas.

 

Link para o filme completo no youtube:
Acionar legendas (o filme é em boa parte falado em guarani) no segundo ícone à direita da barra de ferramentas do vídeo.

sábado, 8 de junho de 2013

Luta Terena: pela Terra, pela Humanidade



Participei ontem das manifestações em prol da luta dos índios Terena, outros povos indígenas e movimentos sociais diversos (com destaque para o MST e o Coletivo Terra Vermelha, aos quais se somaram a CUT, os trabalhadores da construção civil em greve e outros) pela demarcação das terras indígenas e pela justiça no campo. Mas ao invés de escrever uma crônica sentimental e talvez banal desse evento histórico (ainda que o Jornal Nacional não o tenha noticiado, apesar de ter mostrado a marcha dos fazendeiros no mesmo dia), acho mais interessante publicar aqui o Manifesto redigido pelo Movimento Acadêmico da UEMS-CG sobre a questão. Tomo a liberdade de ilustrar o texto com fotos da referida manifestação, tiradas pelo colega e amigo Volmir Cardoso Pereira.
 
Campo Grande, 06 de Junho de 2013.

O Movimento Acadêmico da UEMS - Unidade Universitária de Campo Grande -por meio deste documento expressa seu apoio à luta dos indígenas pela demarcação de terras e pelo respeito aos seus direitos fundamentais. Nosso apoio se estende, também, às lutas dos povos da terra, e não se restringe ao estado do Mato Grosso do Sul; mas abarcam todas as lutas das minorias oprimidas pelo poder.

A expropriação e aculturação de nossos companheiros indígenas é fato tão remoto quanto suas consequências. Submetidos à lógica do sistema capitalista e às suas contradições e injustiças, hoje, compõem nossa sociedade seviciados e obrigados a desempenhar nessa mesma sociedade, o papel de cidadão, imposto pelos modos de produção de vida das divisões de classes.

Privados de seus valores e de sua cultura, e esforçando-se para manter minimamente sua estrutura coletiva e material, são mais uma vez, vítimas de uma dominação colonial, tão passadista na história, entretanto pulsante na práxis cotidiana. Não bastando a pseudo ideia de inclusão que as instituições imprimem na sociedade, com uma plasticidade repleta de compreensão e compaixão, o indígena está muito distante dessa pseudo inclusão. Não obstante, essa mesma "inclusão" é um expediente paliativo para anular a reflexão do que deveria ser reconhecimento, e não simplesmente uma atitude de inclusão.

Se é verdade que contemporaneamente a preocupação com nossos companheiros é legítima, e que para tanto, as instituições sociais desenvolvem políticas voltadas ao seu bem estar e que são tratadas por órgãos competentes; então, qual seria a causa de tanto descaso das nossas instituições jurídicas e governamentais no que tange a causa indígena? Se, nossos companheiros indígenas estão continuamente sendo "incluídos" ao sistema político e social vigente, por que, nessa altura do desenvolvimento ainda continuam sendo expropriados de seu bem fundamental que é a terra?

A luta é de classes, e os estratos sociais mais abastados se dão o direito de lutarem pela perpetuação da desigualdade, sem a menor reflexão. Lutam pela acumulação de seu capital sob o signo do progresso e do esforço. Lutam pelas suas terras. Mas, que terras? As terras que garantiram pela usurpação?

Não causa espanto que esse segmento social que detém o poder maior, o capital, aja ignominiosamente. Afinal, é o capital que institui direitos... Para não esquecermos o que Marx já anunciava: "O Estado é o balcão de negócios da burguesia". É esse segmento social, por meio de seu poder monetário, que convenciona as regras para a sociedade. As classes menos favorecidas, põem em andamento essas convenções tendenciosas, e crêem na ideologia do "patrão". Todavia, não se pode perder de vista a manipulação ideológica que encarcera as reflexões. É muito conveniente não refletir, e adotar a perspectiva do "vencedor", daquele que chegou à prosperidade por seus méritos. Porém, esse vencedor é o integrante social "bem-relacionado"; suas necessidades sociais são forjadas para seus propósitos, e passam a ser modelos para os outros estratos sociais, o que garante a conveniência e a barbárie universais.

Nós, estudantes da UEMS de Campo Grande e integrantes do Movimento Acadêmico, hoje mais
capacitados a compreender esse mecanismo de dominação e de alijamento das classes menos favorecidas, consideramos lamentável a opressão e o descuido social de nossos representantes governamentais. Lamentamos, também, a ignorância e o conformismo social dessa sociedade alienada pelo capital, que adere às ideologias do poder; o mesmo poder que escraviza e oprime cada um de nós.

Aos nossos companheiros indígenas, povos da terra, declaramos nosso apoio, não apenas sob o signo da inclusão; mas visceralmente, sob o signo do reconhecimento da luta de cada um de nossos colegas indígenas, que compartilham em nossa comunidade acadêmica a busca pelo conhecimento e desenvolvimento crítico dos mecanismos que regem nossa história como sujeitos políticos, sociais e materiais, e acima de tudo humanos.

Não há dúvidas de que a falta da terra é a causa que recorre nos problemas que influem nas comunidades indígenas. As dificuldades decorrentes dessa falta são conhecidas de nossos companheiros de maneira substancial; elas são inerentes do processo de inclusão que urge de forma peremptória, característica do sistema do capital.

É por reconhecer a importância da terra para nossos companheiros, e sobretudo por reconhecer neles, e também, em suas ações, a autoria de um trajeto histórico de lutas, opressões e preconceitos; que apoiamos, as demarcações das terras indígenas, assim como apoiamos as reformas agrárias ligadas aos povos da terra.

Não é possível conformar-se aos desmandos de um sistema que flutua ao sabor de resoluções do agronegócio, o qual reivindica a posse de terras alheias, alegando a insígnia do progresso e do desenvolvimento. Não é possível conformar-se com a violência da investidura governamental contra a reivindicação dos povos da terra. Não é possível aceitar justificativas pelo olhar do sujeito dominador que fere um direito fundamental: a vida.

Aos companheiros indígenas da UEMS de Campo Grande, parceiros de lutas estudantis, tão engajados e solidários com a causa coletiva, deixamos aqui nosso apoio e respeito. Compartilhamos de sua indignação. Lamentamos suas perdas; e nos envergonhamos do descaso e da alienação de nossa sociedade sectária.

Movimento Acadêmico da UEMS – UUCG.

Faixa com grafite do artista plástico Luciano Alonso

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Do quantum da nossa imperfeição


Quanto mais te conheço, mais me reconheço. Não porque sejamos iguais, mas porque há em você quase tudo que sempre quis pra mim.

Quanto mais conheço seus acidentes, mais quero te habitar e mais quero que você me habite: que você descanse, se fortaleça e revigore em mim.

Quanto mais te vejo e reconheço imperfeições, mais me certifico de que você é meu lugar, e de que não pode haver lugar mais belo nem perfeito para mim.

Quanto mais te conheço, mais te desejo e gosto de você. Simples assim.

Quanto mais empecilhos se apresentam e se avolumam mais acredito no destino, mais desprezo a sorte e o azar – e digo a mim mesmo: o que há de ser será, e tudo valerá a pena.

Quanto mais os dias passam, quentes ou frios, surpreendentes ou iguais, mais acredito que houve um dia abençoado para mim. E este dia é hoje. E o que quer que aconteça, hoje será sempre.

Quanto mais te vejo ou, como agora, te aspiro e te vislumbro no odor (o mais doce odor!) de um pano rosa, mais tenho vontade de dizer que te amo. E, no entanto, mais me fortaleço para silenciar se for preciso. Sem, no entanto, que a sugestão de rimar amor (ou odor) com dor me tente mais do que o bastante para me livrar dela com ironia. Aliás, quanto mais conheço seu passado, mais vejo o meu com ironia: era a imperfeição, afinal, o que eu buscava, enquanto ideais cretinos me rondavam.

Quanto mais te quero para mim mais acredito na liberdade: a tua, a minha, a que há e a que ainda não, e talvez nunca haja. Mas quanto mais me lembro de quão fácil é virar teu corpo sobre o meu, mais me pergunto: será muito mais difícil virar o mundo de cabeça pra baixo?

Quanto mais, deitado em teu colo agora imaginário, me arrependo do que fui, de todo mal que fiz, mais me entendo e me perdoo. Quanto mais reconheço tua pureza mais me descubro ainda puro.

Quanto mais reconheço que erramos mais desejo não errar, mas menos me arrependo, porque esse erro tem um sentido, ao menos para mim, que nenhum outro teve.

Quanto mais te quero, mais desejo te querer, quanto mais temo por meu destino menos temo qualquer coisa. Quanto mais vivo em ti mais estou pronto para a vida e para morte. Quanto mais silencio que começo a te amar mais me certifico disso. Quanto mais descubro como é grande o que cresce em mim, mais cresço em ti e mesmo na possibilidade, sempre real, de tua ausência. Quanto mais te quero, mais sou grato por te conhecer, e pelo destino ou cada acidente que me trouxe até você.

(Num domingo de cachorros loucos)

Sobre minha condição canina

Quase sempre que a vida me desperta com uma intensidade maior que a dos dias comuns, tento me pôr num estado de expectativa canina: postar-me diante do ponto de luz e calor humano que me atrai e permanecer à espera de um afago com os pés ou de uma migalha qualquer. Nem sempre esse estado é possível – geralmente as paixões humanas falam mais alto –, mas quando é, vivo um estado de Graça. Os dias se tornam mágicos e as horas cheias de sentido: algo próximo do que se chama Felicidade.

Mas de certa forma essa é uma situação falsa, pois não pode durar muito tempo. Provavelmente só Diógenes e seus discípulos práticos – não os teóricos – viveram a condição canina como algo perene. A verdade é que o homem não nasceu para a felicidade, e mesmo no olhar que se finge canino – e por isso a condição canina
(kynica) é também uma condição cínica no pior sentido – viceja, escondida, a maldita Esperança. Se Diógenes ou, sei lá, Sócrates, Cristo, Buda etc., foram exceções eu não sei. Sei que eu não sou.

E a esperança, é claro, é sempre a de que o contato mínimo produza um grande reconhecimento. Quando essa esperança viceja à flor desta pele quase sem pelos, eu geralmente pulo a etapa canina, e a felicidade, agora puramente projetada, torna-se um monstro bifronte, que me sorri e fascina de um lado e do outro lambe os beiços pronta pra me destroçar e cuspir fora.

Mas nunca é tarde pra redescobrir o cão dentro de mim. O estado autenticamente canino (claro que há deformações, inclusive entre os cães) não é o do fascínio cego nem da sujeição humilhada, mas do amor quase desinteressado: migalhas dormidas, raspas e restos, pequenas porções etc. Enfim, a felicidade à soleira da porta.

Até a inevitável recaída na condição humana, e a redescoberta – solitária ou não – de que a dignidade do homem reside não na felicidade, mas no amor consciente com que se conduz a luta e a lida diárias. Se mesmo assim os dias continuam a ser mágicos e as horas cheias de sentido, é porque a maldita Esperança acertou dessa vez, ou, quem sabe, porque o homem e o cão interiores se tornaram mais íntimos e colaborativos.

Esses tempos andei pensando em alguém cujo nome não conseguia – nem me interessava muito – guardar. Acho que isso, de pensar quase sem palavras, simplesmente como quem olha um rosto bonito, me criou a ilusão de que se tratava de alguém igual a mim. Mas se nem entre os cães existem iguais absolutos, quem dirá entre as pessoas. É verdade, somos no máximo parecidos. Aliás, somos todos parecidos.

Então é melhor voltar a ser canino – ou cínico no melhor sentido – e esperar (sempre ela, a maldita Esperança) que o olhar que eventualmente cruze o meu possa supor, quem sabe perceber, que o que essa máscara esconde (pois é uma máscara: sejamos cínicos, não hipócritas) não é assim tão mau, tolo ou insípido. Cães não sabem jogar: no máximo correm atrás de uma bola ou brigam por um osso... principalmente se envolto por uma bela porção de carne.



domingo, 19 de maio de 2013

Um Renato muito macho – e o que mais?


Assisti ontem Somos tão jovens, reconstituição cinematográfica da vida de Renato Russo. Não sabendo até que ponto se trata de uma reconstrução menos ou mais "fiel" (seja como for, as aspas são obviamente necessárias) da vida desse ícone eterno do rock brasileiro, não sei também até que ponto o filme merece as críticas – no sentido mais vulgar de expressão de uma insatisfação – que lhe dirigirei. Mas, mesmo com o desconto que se deve conceder às pequenezas da "vida real", acho que não serei totalmente injusto.

Mesmo porque os grandes problemas do filme são de forma, a começar pelo constrangedor artificialismo de grande parte das interpretações. (A pior de todas é, de longe, a de Edu Moraes como Herbert Vianna, cujo ar notoriamente blasé serve de pretexto para a completa caricatura.) Felizmente – e esse, afinal, é um mérito importante – não é este o caso de Thiago Mendonça, que interpreta Renato, mas mesmo esse mérito cede à bancarrota por outro problema: Mendonça só é convincente até certo ponto do filme, pois nem ele nem o roteiro conseguem acompanhar a evolução que inferimos ou intuímos – sobretudo pelas letras das canções – na trajetória de Manfredini. Usei essa palavra suspeita, "evolução", porque é evidente que Renato, na faixa etária recortada no filme, passa de uma pós-adolescência mal resolvida para uma maturidade igualmente problemática mas ainda assim extremamente densa, profunda.

Mas já que eu estou sopesando as "culpas", talvez cumpra perguntar: de quem é a maior delas? De Mendonça ou do roteiro? De minha parte, não tenho dúvidas: o infantilismo que Mendonça ostenta o filme inteiro – e que parece que foi mesmo constitutivo da personalidade egocêntrica de Renato, mas temperada por uma densidade humana que não vemos ali – é uma redução programada. Um sintoma disso é que a maquiagem praticamente não se esforça em registrar mudanças fisionômicas perceptíveis, num período de tempo que não é tão curto assim (de, salvo engano, 1976 a 1985, ano de lançamento do primeiro disco da Legião.) E essa redução tem muito a ver com a assexuação de Renato; pois nada mais estranho do que isso: não o vemos, no filme, dar um único beijo em outro homem.

Há uma coisa particularmente bonita na relação, digamos, afetivoexistencial que todos nós estabelecemos com a Legião Urbana: é o fato de sabermos ou intuirmos, ainda que a contragosto, que a grandeza das letras de Renato Russo tem a ver com seu homossexualismo (ou bi, ou pansexualismo, como ele disse certa vez, salvo engano nessa mesma Bigfield em que pastamos), com a situação de embate com o mundo e consigo mesmo que essa opção, condição ou como quer que pretendam definir a situação da sexualidade de alguém, lhe trouxe.
 
Certamente é bonito saber que a juventude de Renato foi marcada por uma relação heteroafetiva (mais isso, pelo que o filme mostra, que propriamente heterossexual), confusa mas importante, ou seja, a que se desenrola com a bela Ana. Quem quer que ame a beleza feminina e seja fã de Renato Russo há de se sentir feliz em saber que ele teve a chance de vivenciá-la, ainda que sem muito entusiasmo. Ainda assim – aliás, por isso mesmo – parece estranho fazer dessa relação o núcleo do roteiro do filme, que se inicia com os cuidados de Ana com o acidentado Renato e termina com o gesto de reconhecimento dele, já à beira da fama, a ela nos versos de "Ainda é cedo".

Enquanto isso, a homossexualidade de Renato é reduzida – se me permitem continuar brincando com esses termos – à higiênica homoafetividade com Flávio Lemos e um certo Carlos (que, suponho, não tem nada a ver com o Trilha).
Laila "Ana" Zaid

Não se trata, acredito, de um detalhe, mas de um procedimento que se liga à extirpação de algo fundamental numa vitalidade que é tão literária e musical quanto existencial, de modo que nos deparamos com uma vida-inquietação que, fornecendo o mais das vezes fatos menos inquietantes (a relação do jovem Renato com as drogas, incluindo o álcool, parece igualmente mais simples do que provavelmente foi), se torna bem merecedora das risadas da platéia.

Fico pensando nos motivos disso – se relativos a ânsias globalizantes ou outras pressões – mas não me sinto em condições de julgar. Só acho que, malgrado seu título, Somos tão jovens é um filme que parece nascer velho, já pedindo revisão. Seu maior mérito talvez seja revelar, num grande e luminoso flash, que felizmente se estende por dois ou três minutos, o que foi a grandeza humana chamada Renato Russo, ao substituir, no fim do filme, a caricata representação pelo magnífico registro de um show verdadeiro da Legião. No mero contraste entre a profundidade do olhar de Renato e o arremedo de rebelde que permitiram Mendonça encenar escancara-se tudo o que filme não conseguiu – nem tentou – ser. Malgrado seu título, eu dizia, Somos tão jovens provavelmente faz mais jus à memória dos pais de Renato a respeito dele que propriamente à sua.

Salvam-se algumas boas interpretações – além da de Mendonça, a de Laila Zaid como Ana –, o registro, suponho, relativamente fidedigno de alguns detalhes curiosos, como as brigas de Renato com Fê e a excelente direção musical de Carlos Trilha. Mas, enfim, se alguém quer saber se recomendo ou não esse filme, minha resposta é não: quem quiser conhecer a história de Renato Russo e/ou da Legião Urbana, procure as biografias escritas: parciais que sejam, a maioria delas é provavelmente melhor que essa encenação meia boca.


P.s. - Incorporei essa expressão, "homoafetividade", ao meu vocabulário por obra de um grande e velho amigo, mas acho que ele prefere não ser citado a respeito, hehe.

Outro p. s. - E esse mesmo amigo me diz que a Ana, na verdade nunca existiu. E um outro que ela, na verdade, condensa várias namoradas de Renato. Ok, mas a pergunta permanece: e o "resto"? Se era para transforma o Russo num personagem sem angústias reais, era melhor não ter feito nada.