VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Duas lições inseteístas


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Inocência

Entomologia,
minha grande paixão desesperada.
(Desesperada em sentido etimológico:
que desistiu de esperar por mim.)
Amo tanto os insetos que
tenho a secreta esperança
de que Deus seja um.
Não uma barata, pois já matei muitas,
e eu estaria literalmente ferrado.
Mas quem sabe um grilo,
ou talvez uma formiga.
Dessas, a única que torturei até a morte,
foi com a mesma suposta inocência
com que os eleitos O pregaram na cruz.

 


Ponderação

Essa fruta tem um dono
– e vou respeitá-lo.
Em primeiro lugar, porque ele nunca pensou,
provavelmente,
que a propriedade é uma grande e 
perigosa piada.
Mas também porque,
ao contrário do que se pensa,
e do que eu mesmo penso,
talvez ele pense.
E pense, por exemplo, que eu sou um deus.
E nada pior do que um deus
que fere e mata 
(e humilha, segrega, julga e subjuga)
os seus semelhantes.

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