VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Rap, rock, compromisso



Juro que um dia desses eu escrevo sobre, sei lá, Freud, Nietzsche ou Marx (ou os três juntos), mas por enquanto vou ficando no Holandês Voador. Não apenas porque nosso capitão George me intimou a escrever sobre a noite skate-rap do último sábado como porque isso é uma obrigação moral, cultural e social. O fato de o George acolher em sua nau tormentosa manifestações que extrapolam o universo do rock é algo que acrescenta ainda mais grandeza e importância ao templo (ou antro, que seja, porque todo templo é também um antro, a maioria apenas esconde isso) da cultura underground de Campão que está se tornando o Holandês.

Mesmo porque a cultura Hip-Hop tem muito a ensinar aos roqueiros: em união, atitude e compromisso. Quantas letras de rock têm a consistência existencial e social das letras de rap? Quantos rolês de rock incorporam sem vexame a atitude humanitária, pedindo (não exigindo) um quilo de alimento como parte da entrada? E quantos rolês de rock têm o afluxo de gente e são pautados pelo respeito mútuo, pela atitude de diálogo e acolhimento como o desse sábado? 

Uma atitude que extrapola a sociabilidade e ecoa na própria arte: enquanto o Clip reconhecia um sampler do Led no começo de uma música, um rapper lá fora se declarava roqueiro fazendo um elogio apaixonado dos Raimundos (que pra muita gente foi a porta de entrada do rock nos anos 90; o primeiro CD que comprei, mesmo – tenho-o até hoje –, foi o do primeiro disco dos Raimundos).

Num show de rap não se poga como num de rock. No máximo, balança-se o corpo enquanto se ouve as mensagens que vêm lá de cima, às vezes de uma fileira de rappers, numa diversidade e, ao mesmo tempo, unidade de pensamento que extrapolam completamente os conceitos de banda, líder, vocalista etc. Quando se abre uma roda, é prás impressionantes danças de break, que um roqueiro pode desprezar mas dificilmente também não inveja. Mas o vigor tem muitas formas, e o mental, o ideológico, é o mais difícil de manter, principalmente quando se assume o compromisso de fazer dele um caminho, ou seja, quando ele se torna atitude, e nisso a rapaziada do rap dá show de bola.

Não vou sugerir um placar, não é isso que importa. O rock é um gênero que não só  se segmentou como se enriqueceu muito, processos que são duas faces da mesma moeda; e quem tiver dúvidas sobre minha devoção por ele, veja aqui o conjunto dos meus textos sobre o Holandês Voador. O que não impede que a união e o compromisso da galera do rap tenha algo a dizer aos roqueiros.

E, principalmente, que o Holandês Voador se torne cada vez mais um celeiro de novas ideias e formas musicais, alimentadas pelo rock, pelo rap e muitas outras coisas. Reformulei o parágrafo anterior e acrescentei este pra deixar claro que concordo com o que disse o Anônimo em seu comentário a este post: as polarizações não servem pra nada.

Mas é fato que, enquanto isso...

Nem os loucos entendem

Pirou, brother?
Ou é só dinheiro?
Ou é ironia, quem sabe?...
Ou talvez só os loucos não entendam, ou o contrário, dependendo do sentido que se dê à palavra “louco”.  Que o RPM, que sempre foi uma papagaiada (tanto que, suponho, “Rádio Pirata” nunca tocou no Holandês), protagonize o vexame do qual se queixa Regis Tadeu (cuja posição no showbusiness, aliás, me poupo de discutir) nesse texto, não chega a surpreender, embora o tamanho do vexame realmente assuste... Mas que Herbert Vianna se preste a cantar aquele jinglezinho ridículo, do qual não quero me lembrar, daquele canal de televisão escroto, com os olhos fechados e os punhos cerrados ou olhando pro céu, como se estivesse entoando a música do Paraíso da qual falava Dante... Meu Deus, meus santos, meus demônios... Herbert Vianna?!

E Tom Zé se prestando a um papelão num comercial da Coca-Cola, e querendo que engulamos isso em sua página do face com a maior naturalidade do mundo, como se a necessidade de gravar seus discos justificasse trair a essência do que eles dizem...

Tudo bem que há uma dialética nisso tudo. O próprio Chorão fazia coro ao plim-plim da Rede Olho, mas duvido que um Marcelo Camelo, que tomou uma cabeçada do mesmo Chorão (vou evitar trocadilhos a respeito) por ter ousado criticar a postura comercial do Brown Jr., duvido que Marcelo, eu dizia, já fez algo como o que, segundo contava o Johnny santista ali perto do Holandês, fizeram Chorão e outro Brown, o Mano, distribuindo trezentos ingressos para um show caro entre a rapaziada da periferia. Deve ser verdade, o Johnny não é do tipo que inventa histórias.

Mas nesses tempos em que as águas se aclaram, não dá pra ficar nadando de costas na raia. Em algum momento saí do Holandês e, atraído por um som envolvente, entrei em outro rolê, só pra testemunhar o acinte de uma banda da fronteira fazendo uma “crítica” ao tráfico e seus dividendos; uma “crítica” – e bota aspas nisso – que, pelo vulto desses dividendos, cantados e enumerados no palco, soava muito mais como um elogio. E cheguei à conclusão de que é preciso escolher: ou se é do contra (não vou dizer underground) ou não se é. Os maus diabos se pintam mas não podem se esconder: eles se chamam poder, exploração, capitalismo. Os bons se chamam rock, rap, música, arte, vida. Eles se misturam, isso é inevitável, mas também nos puxam pra lados diferentes.

Vida longa ao Holandês Voador. Vida longa ao rap, ao rock e à atitude que pode ser até pose, mas é também compromisso.

Cedo demais, mano

Ouça Tom Zé, não tome Coca-Cola:
Parque Industrial
Cafuas, guetos e santuários

E ouça Paralamas, não se espoje na lama da Globo:
Dos restos
Bang Bang

"Pra essa nova moral oportunista
Eu me viro e digo não"
(Herbert Vianna)

P.S. - Já ia esquecendo de dizer: "Hip Hop (ou rap) é compromisso" foi uma das frases que eu consegui guardar da cantação de sábado.

domingo, 10 de março de 2013

A beautiful lady night for a metal black night

Juro que eu queria me dedicar a escrever sobre “coisas mais sérias”, mas pra isso teria que parar de ir ao Holandês Voador. Pra quem morou oito anos quase literalmente no mato (com o maior respeito pelo meu amado interior de Goiás), acompanhar a cena underground que, mesmo aos trancos e barrancos (como sempre, senão não seria underground), viceja hoje em Campo Grande é motivo de júbilo. Perdoem-me os que acham meu entusiasmo ingênuo; coisa que pra mim, aliás, é mais um motivo de alegria. Só quem não foi dominado pelos demônios (maus demônios) do utilitarismo, da hostilidade, da desconfiança e do sexismo que nos instila o capitalismo nesses princípios de sua fase terminal-convulsiva (ontem mesmo um tal de Kleber me falava em um “apocalipse zumbi”) ainda consegue amar as coisas desinteressadamente.

Incluí “sexismo” aí em cima, como poderia incluir “racismo”, porque o desinteresse a que me refiro é do tipo que afronta, ou melhor, dispensa os preconceitos. Tudo isso porque eu quero começar pra valer esse texto com a imagem de um abraço entre dois homens. Não existe, a meu ver, nada mais bonito, tanto estética quanto espiritualmente, do que um abraço entre duas mulheres ou entre duas crianças (ou entre uma mulher e uma criança), mas esse abraço foi uma das cenas mais bonitas que eu já vi na vida.

Estava lá o Maurício Teixeira, fundador da histórica Sacrament, já um tanto “chumbado”, quando chegou o vocalista da banda matogrossense Burning in Hate, que fechou a noite de ontem, e fez questão de declarar sua admiração. O Maurício, que é um dos heróis anônimos, senão desprezados, da história do rock deste campo grande de hipocrisias, ficou visivelmente comovido e, mais que isso, agradecido, estreitando o cara da Burning com a alegria e a pureza de uma criança.

Aliás, por falar em beleza, a noite de ontem só entrou no meu programa porque anteontem eu perdi uma outra, que, tanto pelo som quanto pelo público, foi certamente uma das mais bonitas do Holandês: uma noite com drink na faixa para mulheres, e que, pelo que me disseram, foi uma das mais movimentadas do bar desde que ele reabriu perto da UFMS. Pois bem, perdi a festa for ladies – que contou, entre outras coisas, com os fantásticos Strangers e Lobisomens – mas, graças a isso, tive saúde pra ir na Hates from Hell de ontem.

Cheguei tarde, pra variar, a tempo de ver o finalzinho da demolição operada pelos Rejeitados pelo Diabo, quinteto de rapazes, quase meninos, que esbanjam ferocidade e competência, em um repertório do qual eu só ouvi pra valer uma música (“The Antichrist”, do Slayer), mas que é visivelmente selecionado do melhor do thrash metal. Depois veio a The God of Carnage, do rei Artur (batera, também, do Japurah Noise Project), também arregaçante mas cujo repertório eu conheço menos ainda. Aliás, conheço muito pouco metal, que é um estilo que me entra na veio com muito menos facilidade que o punk. Geralmente começo a gostar de uma banda importante quando vejo covers ao vivo, como foi o caso da Black Sabbath da fase Dio com os Strangers e o Slayer com os Rejeitados pelo Diabo. Conheço pouco, quase nada, mas nos shows me sinto integrado ao som e à filosofia como se fizessem parte de mim de nascença.

Mas nunca senti uma identidade tão grande quanto ontem, principalmente a partir do momento que a Diabolical Hate (Campo Grande) e, depois, a Burning in Hate (Cuiabá) subiram ao palco. Naturalmente, isso tem a ver com o fato de que o Death Metal e o Thrash Metal, que essas bandas praticam respectivamente, serem os estilos mais próximos do punk no metal. E a atitude de afirmação da revolta, da recusa anti-sistema (vinculada mas não reduzida à militância antirreligião), não é menor nelas do que no punk. Só não vou dizer “muito pelo contrário” em respeito à minha veia punk, e também pelo fato de que a cena musical é hoje, no Brasil e no mundo, muito complexa. Ontem (aliás, hoje) mesmo, de volta do Holandês de carona com um amigo, o Marcus Vinicius, ele me mostrou um DVD do Confronto (RJ), com letras discursivas e ultrapolitizadas, sustentadas por uma sonoridade hard metal ultrapotente e que constitui, no todo, outra síntese do punk e do metal.

Mas a força negativa e visceral das Hates de ontem foi, pra mim, uma coisa de cair o queixo. Como sempre, não tenho condições de fazer uma descrição técnica. Consigo, no máximo, aludir à densidade e coesão sonora com que esse ódio salutar se exprime na Diabolical, embora capitaneado por uma bateria não só feroz e veloz como riquíssima nos arranjos de prato e tan-tan, com aquela “folga” infinitesimal entre uma pancada e outra que, pra mim, remete ao punk. Algo que não se opõe à coesão técnica do conjunto, muito pelo contrário, mas que ao mesmo tempo não se conforma com a obsessão estritamente técnica de certas bandas ultravelozes.

Conversei com o batera da Diabolical e falei que seu estilo me lembrava o do Jean Albernaz, da (finada?) Dimitri Pellz, e, para minha alegria, ele me disse que realmente o Jean é uma grande influência sua. Mas fazer algo semelhante ao que o filho do Bosco faz em seu punk-prog’n’roll no death metal é uma coisa próxima do alucinante. No mais, guturais fodaços, guitarras e baixo idem, a intensidade de tudo formando uma coisa só e avassaladora. Falta conhecer as letras, que eles me prometeram.

De pegada um pouco mais suja, como convém ao trash, a Burning in Hate não fica atrás em termos de monstruosidade sonora e de apuro técnico. Como sempre, parei na bateria, com arranjos não menos alucinantes (não tenho como não repetir esses adjetivos), num trabalho mais centrado no bumbo e na caixa. Uma batera um pouco mais discreta, talvez, mas não menos rica e feroz, espancada por um cara quase tão magro quanto eu e, aliás, o drummer da Diabolical. Ao fim da festa os dois se sentaram lado a lado por um momento, e, como acontece inúmeras vezes no Holandês, eu me arrependi de não ter levado uma câmera.

Campo Grande, aliás, é um celeiro de grandes bateras. João Bosco, Jean Albernaz, Diogo Zarate (Jennifer Magnética), Rodrigo Neves (Bravo), o Felipe do Agression, o lobisomem Leandro Dourado, Maycon Vieira dos Explícitos, o Alysson Matheus dos Rejeitados e da Extração Craniana, a Wanessa do Toca-Fitas, os bateras do Death Soldier e dos Strangers, toda essa gente e muitos outros são músicos que, em minha humilde e leiga opinião, já chegaram ou chegarão em breve a um nível de excelência no mínimo nacional.

Mas e o “black” do título, onde entra nisso tudo? Nada a ver com o Black Metal (embora eu suponha que a Diabolical tenha influência desse estilo, onde, salvo engano, o satanismo é o núcleo ideológico), mas com o fato de que, tanto na Diabolical quanto na Burning, os integrantes são quase todos (ou em algum grau) “black persons”. Negões (ou “neguinhos”), como se diz, às vezes ainda com malícia, neste país onde a escravidão e o racismo são chagas que ainda demorarão – tomara que pouco – a serem realmente sanadas.

É, portanto, ao black power que corre em nossas veias – de todo brasileiro, senão de todo cidadão do mundo, mas do qual nem sempre nos orgulhamos como devíamos – que eu me refiro. Um sangue e um poder que, como a música, não tem fronteiras, mas que pertence a quem os descobre e alimenta dentro de si.

Sim, porque música é antes de tudo liberdade. Estilos musicais podem ter até registro, mas não têm dono: são de quem pega e faz com eles o que quer. Sem falar que, se o assunto são origens ou “propriedades”, o metal pode ter sido criado por jovens “WASP” (há, aliás, uma banda com esse nome), mas a ferocidade a que ele chegou remete às entranhas da Terra, e destas foi na África que a humanidade começou a beber, comer e regurgitar. Me digam se o fato de que tudo isso revive num antro iluminado como o Holandês Voador não é motivo para júbilo? Vida longa ao metal brasileiro, vida longa ao Holandês Voador!

No mais, tenham uma ideia do que foi a noite de ontem:

“Game With no Rules” e “Phobia” (Kreator), com Rejeitados pelo Diabo, no Matadeus II

“Possessão da alma”, com Diabolical Hate, no bar República, em março de 2012

“Marchando para a Morte”, com Burning in Hate, no Holandês Voador, em dezembro de 2012

E pra falar de alguma “coisa séria”, mas ainda a propósito disso tudo, ou seja, dos bons e maus demônios, tomo a liberdade de indicar esse conto de Machado de Assis, onde certo “diabo do tambor” é, talvez, o verdadeiro protagonista:

“Conto de escola”, de Machado de Assis

E também este meu trabalho, que aborda esse texto (entre outros) de Machado, pode eventualmente interessar a alguém:

“De pontos, linhas e fugas: três ‘contos de formação’ machadianos”


E por falar em black power...

sexta-feira, 8 de março de 2013

7 haikães

  
Para Letícia Feitosa 
e as (1)3 furronas: 
Amber, Romy e Renata

1.
Quanto mais conheço os cães
mais lamento
os que não são

2.
“Eu não sou cachorro não
para viver tão humilhado...”
Mas o cão nem pá pro babado

3.
Com medo da luz,
inocente como um cão,
a barata se esconde sob meus pés

4.
“Senta! Deita! Rola!
Finge de morto!”
O cão é um militar sem rancor

5.
O cão
tomando sol
é um animal transcendental

6.
Ser cão é ser livre, ter fome
e amar
sendo ou não amado

7.
O cão a lambe
e ela sorri,
humano sem dono

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A punk lady night (e outra de Lobisomens...)

Já faz tanto tempo que eu prometi escrever sobre a Lady Fest do Holandês Voador, no já distante 13/01/2013, que as “ladies” em questão provavelmente já nem acreditam em mim. Pelo menos Lady “explícita” Novaes, a quem, de fato, praticamente jurei que escreveria este post, e a quem, aliás, ele é dedicado – e também, é claro, à “furrona” Amber Paul, e ainda à hermana Lety Concha, vocalista da SPM... Pra uma noite tão bonita, três musas é até pouco!
(Fiquei com vontade de incluir a Wanessa, batera do Toca-Fitas, até por questão de paridade, mas como não troquei  quase nenhuma ideia com ela, acho melhor não bancar o engraçadinho...)
Furrão 13
Acho que só consigo falar dessa outra noite fantástica no Holandês (já estou parecendo sócio, mas juro que não sou) de forma cronológica. Até porque ainda de longe, a uns trinta metros do bar, eu vivi a, digamos, miniexperiência épica de ser atraído por um verdadeiro canto de sereias – não sei se mais bonito, mas com certeza muito mais potente que o da Odisséia – e, ao chegar lá, constatar que ele já estava no fim, com as tais sereias, digo, furronas da Furrão 13, lindas, já desmontando os aparelhos... Uma epopéia cômica, portanto... mas, enfim, um acordezinho já vale a pena se a alma não é pequena...
Pois bem, perdi Furrão 13 mas não perdi las hermanas paraguayas da S.P.M., banda ferocíssima, ainda meio que se ajustando com os instrumentos mas transbordando garra e autenticidade, tanto na punkadaria seca quanto na expressão e na voz brabas de Lety Concha.
S.P.M.
E depois (ou foi antes? agora me dou conta de que não lembro da ordem das bandas) assisti à aula de punk-ska do Toca-Fitas, capitaneado por Fabio Bomba, vocal-guitarrista de fato meio “bombado” mas nem por isso de voz menos harmoniosa, nem menos habilidoso na levada ágil e nos solinhos melodiosos das belas canções próprias ou de covers do Rancid, entre outros... Tudo sustentado por um baixão perfeito e pela batida ao mesmo tempo firme, leve e veloz da Wanessa. Coisa fina, aliás, finíssima.
...em formação completa, que não cheguei a conhecer
Mas foi mesmo a Explícitos, pra mim, o auge da noite. Talvez porque me agrade o teor realmente explícito das letras, e porque Lady Novaes empunhe sua guitarra com energia e atitude empolgantes pra acusar:
Explícitos


Você é uma porra!
Violência contra a mulher
Violência contra uma criança
Contra os animais
E contra você MESMO...

Mas também, é claro, porque a “cozinha” desse power trio é igualmente fantástica, com a guitarra potente da Tracy, o baixão pulsante da Kamilla e destaque para a batera do privilegiado Maycon Vieira, único entre elas mas que de alguma forma respeita a essência feminina predominante, com sua baquetadas rápidas e fortes mas também altamente suingadas...

Mais Explícitos ainda
Parcial ou totalmente formadas por garotas, as bandas da I Lady Fest do Holandês Voador' demonstram cabalmente uma coisa: que a essência do punk rock – aliás, do punk e do rock – é, não vou dizer “masculina” ou “feminina” (nem sempre esses rótulos fazem muito sentido), mas positiva. Crítica, negadora, mas essencialmente positiva. E bonita. Nas poucas noites seguintes em que voltei ao Holandês, o que vi foram sempre expressões de energia e beleza, de talento e, na base de tudo isso, autenticidade.
Queria ter tempo e conhecimento técnico suficientes para falar do desempenho e da qualidade musical de bandas punk & derivados como Moinho do Macaco, LERW, Small Fish, Dependents, Bizonhentos, Punks do Destino (nunca vi um baterista cantar com tanta força e clareza),  ou da aliança de vigor e primor melódico e instrumental de bandas de metal como Strangers, Burning Universe, Screaming Fire e Death Soldier.
Mas não tenho, e o melhor que posso fazer, então, é convidar meu eventual leitor a não perder a primeira chance que tiver de vê-las em ação... Eu mesmo, não me canso de me perguntar: quando finalmente verei um show da Furrão 13?!...

Agora é que são eles
   
Mas, enfim, não tive que esperar algumas semanas para finalmente ver os Lobisomens? E sobre eles, que talvez sejam o fenômeno musical mais importante de Campo Grande hoje, eu não posso deixar de falar.
Os Lobisas são Douglas Almeida, Leandro Doutorado e Fabricio Martins, os três primeiros integrantes, também, da Small Fish e da Dependents; o que só torna a coisa mais assustadora, fazendo perguntar se esses caras não são mesmo meio sobrenaturais... Porque uma noite de Lobisomens, lá em cima, no palco, já seria suficiente pra deixar qualquer outro cristão arriado.
Esclarecendo, os Lobisomens são uma banda de blues-jazz instrumental, com pegada grunge, que toca horas seguidas basicamente de improviso; só não se pode dizer puro improviso porque obviamente os integrantes vão pegando os “esquemas” um do outro. O trio começa (começou, pelo menos, na última sexta-feira, 22/02, em plena lua crescente) com uns fraseados mais puxados pro blues que vão ganhando em riqueza e intensidade até chegar a algo como um jazz-punk, ao mesmo tempo primitivo, maniacamente visceral, e sofisticado.
Leandro Dourado


O entrosamento da banda é de cair o queixo: como disse Fabricio Martins, cada um faz uma coisa, mas totalmente engrenado com o que os outros fazem, e com quebras de ritmo tão perfeitas que, conforme dizia Herson Nonaka, vocalista do Small Fish, eles parecem pensar com a mesma cabeça. E tudo com uma força extraordinária, impressa pela batidona monstruosa do Leandro – que, como eu já disse em outro post, tem a pegada do Dave Ghrol, só que mais rica, pois o que eles fazem ali é música em estado puro –, sobre a qual a guitarra seca e melódica de Douglas Almeida constrói solinhos rascantes e viagens rítmicas surpreendentes, às vezes com uma intensidade que, com o perdão do lugar-comum, parece disposta a quebrar a velocidade do som. No fim de tudo ficam os dois ali, massageando os pulsos e os ombros, mas ambos, bons cristãos que são (não é piada), com a expressão satisfeita por ter chamado o espírito de Deus para plainar sobre as turbulências da Terra...
Douglas Almeida
Mas o baixão de Fabricio Martins também tem um papel fundamental nessa economia sonora. Longe de se contentar em marcar melodicamente as batidas de Leandro, ele constrói linhas melódicas sofisticadíssimas, realmente puxadas pra o jazz, obrigando o trio a trilhar o caminho da riqueza e da complexidade.
A certa altura, Fabricio cedeu seu instrumento ao baixista da Strangers, que assina Irwing dos Teclados. Com uma pulsão rítmica impressionante e um suingue que, definitivamente, eu não esperava de um integrante de uma banda de metal, Irwing imprimiu uma intensidade ainda mais monstruosa à jam session. Como disse o próprio Fabricio, impressionado, o baixão de Irwing “preenche todos os espaços”. Mas quando reassumiu o comando, Fabricio mostrou a que veio. Numa seção particularmente marcada pelo burilamento melódico, criou solos belíssimos, com aquele jogo de compassos e descompassos fantástico do jazz, e me convenceu que sua presença, ali, é absolutamente fundamental.
Fabricio Martins
Na verdade, fiquei pensando em como é ingênua a ideia de que existem músicas, bandas ou formações “perfeitas”, pois as “perfeições” podem ser sempre diferentes... E como são tolas, muitas vezes, as comparações de valor. O que os Lobisomens fazem é um atestado da riqueza inesgotável da música, e decidir o que é melhor nesse devir de som e vida é estorvar a correnteza. Cada um daqueles momentos é ao mesmo tempo único e inesgotável, pois se inscreve na genética do Cosmos, nele ecoa e produz outras formas vivas e sonoras...
Digo tudo isso, um pouco, pra me consolar pela falta (aliás, no fundo, pela impossibilidade) de um registro completo dessa e outras noites sobrenaturais... O importante é que outras venham, que a música e a arte não parem, e ecoem cada vez mais pela vida. Agora, que os Lobisomens mereciam assombrar essa terra brasilis inteira, disso não há dúvida!
Ah, mas essa comparaçãozinha de valor eu não posso deixar de fazer, ou melhor, de sustentar: os Lobisomens são objetivamente melhores que a Macaco Bong, banda de jazz-rock já consagrada que eu vi há alguns anos. E olha que os Bongs são três Hendrix reencarnados...



P.S.1 - Vale registrar, até pra unir este post com o outro, que a noite dos Lobisas terminou com outra canja: da Patrícia Goulart, namorada do Douglas, e que manda muito bem, sim senhora...

P.S.2 - Só pra sentir o cheiro de sangue:
Lobisomens em clima de fim de festa no Holandês...