VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Batateogonia




Ao amigo Wellington Fernandes


I - GÊNESIS


“Em verdade, no princípio, tudo eram batatas, mas depois veio Elma Chips, de amplos seios, e Pepsi, o deus das trevas e dos gases. Da união de Elma e Pepsi, fez-se a Luz, que iluminou as batatas. Elma contemplou a Luz e disse: ‘comam-se as batatas’. E as batatas foram comidas.


Em seguida, Pepsi, que tudo vê, vendo que as batatas eram boas, disse: ‘crescei e multiplicai-vos’. Então as batatas ocuparam todo Universo. Elma chamou a isso de Batatais.

Sob as folhagens dos imensos pés de batata, surgiu Penumbra, filha do onisciente Pepsi e da onipotente Elma.


No segundo dia, Elma teve sede e conheceu o sofrimento. Dos seus olhos então brotaram lágrimas, que molharam os Batatais. Pepsi, bebendo das lágrimas, viu que elas eram boas e disse: ‘faça-se a água’. Foi quando, dos olhos de Elma, criou-se o Oceano, inundando grande parte dos Batatais.

"Sob as folhagens dos imensos pés de batata surgiu Penumbra..."
O Sol surgiu no terceiro dia, o Oceano ferveu e cozinharam-se as batatas. Pepsi provou das batatas e do caldo, dando a este último o nome de Água de Batata.

Tudo ainda era desabitado. E assim, da Água de Batata, surgiram Darwin e todos os seres vivos que povoam o Universo.

Darwin disse: ‘dessa água jamais beberei’. Foi o quarto dia.

No quinto dia, Darwin foi dar um rolê, pra descolar umas mina, mas só encontrou batatas. Depois de andar muito, o homem deitou-se à sombra dos batateiros e adormeceu. Primeiro, sonhou que era Newton e que uma maçã caía sobre sua cabeça; depois, sonhando que era um sábio chinês, que sonhava que era uma borboleta, que sonhava que era Raul Seixas, sonhou que uma serpente de sete cabeças enroscava-se sete vezes em torno de um pé de batata.

– Não quis assustar-te! – disse a serpente – Meu intuito era fazer-te a Grande Revelação.

E a revelação foi feita:

– Se queres descolar umas mina, rouba o fogo dos deuses! – aconselhou a serpente.


Quando Darwin acordou, viu que a serpente era o deus Brahma e os dois saíram para tomar uma Skol. Isso foi no sexto dia.


Embriagado, Darwin subiu aos céus e roubou a caixa de Fiat Lux de Elma Chips. Mas o homem, não sabendo dominar o fogo, acabou incendiando os Batatais. Daí, fez-se o Caos que perdura até hoje”.


II - OS ESTADOS DA MATÉRIA


Na natureza, a Água de Batata pode ser encontrada em três estados: São Paulo, Paraná e Bahia. Em Minas, decretou-se a moratória, e o governo federal cortou o fornecimento do fluido vital. Entretanto, como se diz por aí, nada se cria, nada se perde, tudo se transporta. Assim também é com a Água de Batata que, quando transportada pelos vários estados da natureza, adquire diferentes coloração, densidade, textura, brilho, viscosidade, maciez e volume.

"Na natureza, a Água de Batata pode ser encontrada em três estados..."
Deste modo, toda matéria – do chumbo ao ar, da verruga da sogra às curvas da vizinha – tudo é composto pela mesma substância: a Água de Batata, em suas incontáveis formas de manifestação. Por isso, os textos sagrados afirmam que somos Água de Batata e à Água de Batata retornaremos.

III - UNIPUNK

Naquele tempo, éramos apenas estudantes latino-americanos, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e habitantes da cidade universitária Severino Faz – editor da revista Gente que Vaz e criador de toda a Universidade.

No sétimo dia, Darwin estava numa puta ressaca animal: dormiu o domingo inteiro e só foi acordar na manhã seguinte. Era uma segunda-feira e, como já se aproximava a hora do almoço, caminhamos a pé, da moradia à Unipunk. O mundo era então um interminável campus de batata, um verdadeiro Éden Batatal. Quando chovia, levávamos quarenta dias e quarenta noites para percorrer o caminho. Naquela segunda, porém, como fazia sol, chegamos ao bandejão por volta do meio-dia. A fila era uma serpente que dava volta ao mundo e mordia a própria cauda. E, por não termos outra opção, resolvemos enfrentá-la assim mesmo.


Logo à nossa frente, encontramos Don Juan, velho índio feiticeiro, que veio puxando conversa conosco. Ele era um sujeito muito estranho, mas já estávamos acostumados e deixamos o velho falar.

"Logo à nossa frente, encontramos Don Juan..."
Tomamos a refeição, conversando banalidades, como, por exemplo, sobre o que poderia ser aquela sobremesa do dia, uma espécie de doce que nunca se vira antes. Cada um deu uma resposta diferente, sem que chegássemos a uma conclusão. Era um manjar dos deuses, uma gelatina ou um tipo de pudim?

Foi então que Dom Juan interrompeu a discussão:

– Isso é feito de água de batata!

Rimos todos, com exceção do próprio Don Juan. Como é que aquele doce marrom meio gelado, com gosto de maizena, consistência de escargot e cheiro de remédio poderia ser de água de batata?!?


Don Juan permaneceu sério, olhou firmemente para cada um de nós e disse:


– Quando sairmos daqui, peguem um desses doces dentro de um só copo por pessoa e vamos até o Ciclo Básico!


Seguimos as instruções do velho índio.

"...enquanto o velho entoava uma canção monotônica, rouca..."
Quase às duas horas, estávamos sentados no chão, em círculo, cada um com um pequeno pedaço de doce na mão direita, em volta de Dom Juan.

– Agora – disse ele – esfreguem o doce nas têmporas e fechem os olhos.


Fizemos isso, enquanto o velho entoava uma canção monotônica, rouca, de efeito hipnótico...


IV- SEGUNDA-FEIRA

“Conheci a vigília, o sono, os sonhos,
a ignorância, a carne, os torpes labirintos da razão,
 
a amizade dos homens, 
a misteriosa devoção dos cães.”
(Jorge Luis Borges - João, I, 14)

...de repente, minha visão tornou-se esfumaçada. A voz de Don Juan deu cambalhotas no ar, metamorfoseando-se em Pablo Milanés, Mercedes Soza e o time titular quase completo do Cerro Porteño.

Maya surgiu em minha frente e disse: “Tudo é ilusão! Tudo são batatas!”

O tempo, correndo em todas as direções, era um animal em fuga, impedido pelas quatro paredes. Não sei como explicar o que houve, mas ainda estávamos no Bandejão e, de repente, tive uma clareza absoluta das coisas, como se só agora, enfim, despertasse: o doce, cuja natureza discutíamos, sem dúvida era feito mesmo de Água de Batata; o frango frito, o feijão, o arroz, a salada, tudo era Água de Batata; as colunas, o teto, as mesas e o chão eram Água de Batata; a bandeja era Água de Batata. A Água de Batata era uma espécie de fluido energético que se infiltrava em toda matéria. Mais do que isso, compunha toda matéria!

Olhei para Dom Juan e meus colegas. Eles também não passavam de Água de Batata, transformados em gente pelo poder de Maya. Eu próprio era Água de Batata.  Pelas veias do meu corpo inteiro, senti correr o líquido onipresente, pulsando com a mesma energia iniciada desde o Big-Bang. Havia algo, por trás da aparência de tudo, que igualava e unia os seres e as coisas. A mesma substância adquiria os mais diversos aspectos, mas, em essência, tudo era o mesmo.

Tudo era Água de Batata!!! Tudo, absolutamente tudo!!!


"...sonhando que era Darwin que sonhava que era Newton que sonhava..."
Até os pensamentos que eu tinha...

Saí do bandejão e caminhei pelos intermináveis campos de batata, durante quarenta dias.

Quarenta dias mais permaneci sob a sombra de um Batateiro Sagrado, sonhando que era Darwin que sonhava que era Newton que sonhava que era um sábio chinês que sonhava que era uma borboleta que sonhava que era Raul Seixas que sonhava que era eu, dormindo à sombra de um batateiro. Os séculos descreveram uma espiral e continuei sonhando, a percorrer infinitamente o traçado em direção ao centro: fui um dos vinte mil arqueiros de um dos vinte mil exércitos derrotados por Buda; fui um cangaceiro, um cavaleiro andante, um metalúrgico do ABC; conheci os deuses do amor, do pecado e da morte; amei Guinevere, Beatriz e Macabéa.


Passei fome no deserto, também conheci o luxo e o desperdício. Desfrutei dos prazeres da carne, tive os membros mutilados e matei até o arrependimento. Atingido por uma bala perdida no morro onde morava, fui a própria bala, invadindo apressada meu próprio cérebro. Caí na calçada e meu corpo foi jogado de um barranco. Sangrei e conheci a dor. Nasci outras milhares de vezes, outras milhares de vezes morri.

Na última dessas mortes, toda história da Unipunk passou pela minha mente, num relâmpago – desde quando tudo eram batatas, até aquele momento em que esfregávamos o doce nas têmporas. Senti que não estava só, que era forte e que jamais esqueceria... depois, vi apenas a escuridão absoluta, o silêncio, a imobilidade, o vazio, o nada....




... quando dei por mim novamente, estava no Bandejão, no ano passado, conversando com o Wellington sobre o que seria a sobremesa misteriosa daquela segunda-feira. Pareceu até que não sabíamos. E talvez nem soubéssemos mesmo...


Talvez simplesmente não quiséssemos nos lembrar ou talvez também tudo não passasse de Água de Batata!

Fabio Dobashi

Desenhos feitos especialmente para esta postagem por Muriel Vieira a meu pedido, com o objetivo, também, de comemorar os três anos de vida dos arquivos críticos. Obrigado, Muriel! Obrigado, Fabio!

Pra fechar, vale a pena conferir o vídeo de Ricardo Botini para a primeira parte do conto do Fabio no link abaixo.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Blaze Bayley & Shadows Legacy:
The Soul of Metal in Bigfield (Part II)

Quem foi ao Hangar dia 04 de janeiro para ver Blaze Bayley e resolveu conferir a Shadows Legacy não se arrependeu. Não foi o meu caso, que fui pra ver os dois mesmo, e com a mesma expectativa: cada show da Legacy, pra mim, é um grande show. O fato de Blaze Bayley gravar uma música com os caras e participar do lançamento do CD diz muito sobre eles. O momento em que Blaze subiu ao palco para cantar “Hate whitin” com Wille Bruno foi um marco histórico. Não pela honra ou “glória” particular da banda, mas pelo reconhecimento prático da qualidade da Shadows e, por via dela, do metal de MS.

Acompanho, embora de longe e esporadicamente, a cena metal de Campo Grande há pelo menos quinze e anos, e, pelo que posso comparar com o que vi em outros estados, me sinto à vontade pra atestar sua riqueza e qualidade; sobretudo nos estilos mais radicais, como o thrash, o death e o grind. Entre bandas (e ex-bandas) já consagradas e cada vez mais reconhecidas ou mesmo apenas promissoras (e sem distinguir estilos nem bermudas ou calças compridas), é preciso citar Katastrofe, Sacrament,  Jäpüräh Noise Project, DxDxO, The God of Carnage, Aggression, Diabolical Hate, Death Soldier, Screaming Fire, Burning Universe, Butchercrow, Extração Craniana e Rejeitados pelo Diabo.

CD à venda pelo e-mail shadoslegacyband@gmail.com
E com certeza há muita coisa que não conheço (ou que vi há muito tempo mas não guardei o nome) fora dessa lista, inclusive bandas de outras cidades, como Corumbá e Dourados. Das que não vi ao vivo, acho fundamental, por testemunhos de amigos e pelo que vi no youtube, citar a Warriors, formada por índios Terena.

Muito mais que o apuro técnico, é a força e a autenticidade que une essas bandas e dá uma feição própria ao Metal de Campo Grande. É a presença disso que estou chamando de “Alma do Metal” (assim como existe uma grande Alma do Blues em Bigfield). E como em cada uma delas, essa alma se encarna de forma única na Shadows Legacy.

De novo, o que importa aqui não são comparações. Meu apreço particular pela Shadows Legacy se relaciona, principalmente, ao tipo de som que eles fazem, com melodias, letras e arranjos trabalhados e uma junção perfeita de peso e harmonia. Por essa junção, a Shadows lembra mais o Black Sabbath, com sua sonoridade soturna mas bem definida, que o Iron Maiden, com seus arranjos espalhafatosos (embora as linhas melódicas me lembrem mais as do Iron). Foi com a Shadows, aliás, que eu “aprendi” a ouvir Black Sabbath, inclusive o da fase Dio, o preferido de Wille Bruno.

Três coisas impressionam na Shadows: a coesão e excelência do conjunto, a qualidade de várias canções e, para usar a palavra que dediquei ao Balze Bayley no post anterior, a presença de Bruno. Como Blaze, Bruno torna presente a Alma do Metal de forma única, ou melhor, sua aura sóbria, negativa, e sua alma épica, positiva. E como Blaze é um grande vocalista, com elementos virtuosísticos contrabalançados por semiguturais que, aliados à pegada feroz da banda, dão a algumas canções uma feição quase thrash. Aliás, o baterista da Shadows, Augusto Morais, é o mesmo da thrasher Death Soldier.

Os duos solantes – vigorosos e impecáveis – de Leandro Motta e Max Batista na guitarra e mais o baixão denso e onipresente – e igualmente melódico – de Luciano Rivero fazem o resto: uma sonoridade melódica e encorpada, densa e harmônica, e sempre pulsante. Vale o registro, também, de que, assim como em Blaze Bayley, essa densidade também se manifesta na letra.

Por tudo isso, o encontro da Shadows com Blaze Bayley no palco do Hangar sábado passado foi um verdadeiro acontecimento. Não apenas porque honra o Metal de Campo Grande, mas porque faz justiça a ele. Não por acaso, Blaze estava tão feliz no palco quanto os rapazes da Shadows.

Mesmo sempre dizendo que comparações são perigosas, tomo liberdade de propor uma; não pra comparar qualidades, mas pra aferir a densidade da Shadows de que falei. Abaixo, um clip da banda campograndense e na sequência um da banda Jat Lag Project, de Ouro Preto, que fechou a noite do mesmíssimo Blaze Bayley em Conselheiro Lafaiete-MG:


Sou amigo do Bruno mas não estou rasgando seda: no momento que me senti à vontade para isso, disse a ele que me orgulhava de conhecê-lo. Ou seja, fui fã antes de ser amigo. É preciso que Campo Grande saiba o valor de seus artistas. Há metaleiros, aqui, que não sabem da qualidade dos músicos e das músicas da Shadows, e nem desconfiam que Campo Grande tem um frontman de Heavy Metal com o carisma de Wille Bruno. Em algum momento, aliás, preciso falar da outra banda de Bruno, a Strangers, que também lançou um CD recentemente. Mas a Strangers é uma banda de hard rock, e mesmo às vezes sendo difícil, pra mim, diferenciar os dois estilos, quero terminar este texto brindando:

Vida longa ao Metal, em Campo Grande, no Brasil, no mundo!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Blaze Bayley & Shadows Legacy:
The Soul of Metal in Bigfield (Part I)

No último sábado, por pouco o céu não desaba sobre Campo Grande. Se a banda que acompanhou Blaze Bayley no Hangar estivesse um pouco mais à altura do mestre, talvez a catástrofe tivesse acontecido. Seria uma dessas desgraças (pra falar com o autor do poema Campo Grande do Inferno) que purgam toda a falsa Graça que pesa sobre nós; e seria a consumação, também, do sentido e do espírito do Heavy Metal, o estilo musical que, no rastro de Baudelaire, fez da queda de Satã uma metáfora – ora positiva, ora negativa – da condição do homem, contemporâneo ou de todos os tempos.

“Falling Down”, como se sabe, é o refrão de “Man on the edge”, uma das canções de Bayley que emplacaram com o Iron (e a única dele que eu conhecia), e “The sky is falling down” é uma das canções da Shadows Legacy, a outra grande presença da noite (infelizmente, perdi a apresentação da Hollywood Cowboys, então não posso falar sobre ela). Aliás, para quem assistiu aos dois shows, ficou patente a superioridade da banda campograndense. É verdade que a “Official Blaze Bayley”, com exceção do guitarrista e violonista Thomas Zwijsen, é uma banda de jovens brasileiros. Mas acompanhar uma entidade como Blaze não é tarefa pra qualquer um, e mesmo Zwijsen, por mais que seja um grande músico (a meu ver, melhor violonista que guitarrista), não encarna a energia e mesmo o virtuosismo metal como encarnam os músicos da Legacy.

Mas não quero me ater a comparações, que sempre correm o risco de ser ou parecer maldosas. Apenas acho importante que se saiba o valor de pessoas que temos entre nós: a Shadows Legacy é uma das melhores bandas, não só de metal mas de rock, do Brasil hoje. Quem duvida, experimente ouvir o CD You're going straight to Hell que eles lançaram nessa mesma noite. Aqui uma nota a respeito. Mas vou deixar pra falar sobre a Shadows numa postagem à parte. Tanto ela quanto Blaze merecem essa consideração.

Enfim, o que é, ou melhor, o que me parece ser Blaze Bayley? Até onde pude ver, pelo show e pelas canções que ouvi no youtube, nada menos que a alma mais underground que passou pelo Iron Maiden, ou pelo menos disputa esse lugar com Paul Di'Anno. Felizmente cheguei a essa conclusão antes do show, senão não poderia compartilhá-la, já que nunca vi um show do Iron. A meu ver, tanto nas composições quanto na voz, o estilo de não apenas se afina mas como que radicaliza o das guitarras e composições de Steve Harris, na minha opinião o melhor dos dois “donos” da banda.

Sem ser a voz de potência incomparável que é a de Bruce Dickinson (como disse Wille Bruno, tentar compará-los por aí não faz nenhum sentido), a voz de Blaze é ao mesmo tempo virtuosística e densa, soturna; o que parece ter influenciado, inclusive, a fase posterior de Bruce (ouça-se, inclusive, “Man on the edge” com este). Essa densidade também se manifesta nas letras, boa parte delas – como as de Harris – de cunho existencial. Não sei avaliar a originalidade das canções de Blaze; algumas lembram muito Iron, é claro, mas o fato é que gostei de todas que ouvi. A baladona “Stranger to the light” me parece traduzir, no riffão encorpado, no jogo de vocais, no andamento dramático e na letra enigmática, com a ideia de uma busca de salvação pelas trevas, a densidade musical e existencial a que me referi.


Mas ouvir um monstro sagrado (acho que posso dispensar as aspas) como Blaze é uma coisa, vê-lo ao vivo, e em ação, é outra. Não há outro termo para designar esse tipo de fenômeno que toca o sobre-humano senão a palavra presença. Não “presença de palco”, mas presença de espírito, presença de alma. Isso que emana da voz presente (me desculpe meu mestre Derrida) e da intensidade dos gestos e olhares; inclusive esse gesto que ele mesmo às vezes ostenta de forma irônica e risonha de “trocar lâmpada” (como um jovem de alma lírica andou sarreando no face), mas que é, evidentemente, um “gesto dramático”, de quem parece querer reter e ofertar o dramático sentido do mundo, senão o próprio mundo.

Eu poderia falar mais um pouco do show, a interação com o público, listar algumas músicas (alguns amigos deve saber a playlist de cor; eu só reconheci “Man on the edge” mesmo) etc. Mas só acho honesto falar do que realmente me impactou, sobre a forma como a presença Blaze me comunicou a alma do Metal; e infelizmente só posso fazer isso em termos abstratos. Mas talvez essa imagem conceitual consiga captar um pouco do fenômeno vivo: os escritores do Romantismo Alemão falavam usavam a expressão bela alma para designar os espíritos iluminados de seu tempo; eu diria que em Blaze o metal se mostra na melhor forma de sua alma forte.
Que é também uma alma bela, sem dúvida, mas antes de tudo forte, densa. O que não é tão simples, já que toda uma dimensão imagética do Metal o faz propender a um certo infantilismo; como a própria rebeldia, aliás, tem uma espécie de infantilismo congênito (afinal, como Cristo, Lúcifer também era uma espécie de filho dileto, e alguém poderia acusar Deus de tê-lo mimado). Mas nas letras e na presença de Blaze essa propensão é apenas um impulso para a densidade reflexiva, para um sentimento da gravidade de si mesmo e do mundo (há então aí, sem dúvida, algo da “criança irônica” de Novalis).

Blaze em Campo Grande (foto de Bruno Higa)

Ou melhor: é assim num primeiro plano, pois numa outra dimensão esse infantilismo - ou melhor, essa alma infantil, ou, melhor ainda, essa alma de criança – se liga à dimensão épica e positiva do Metal, que Blaze transpira e comunica com igual intensidade. Sábado foi o momento em que senti de forma mais viva como o metal é uma espécie de religião (que eu próprio emulo e evito, como se vê, alternando maiúsculas e minúsculas), um rito catártico e uma celebração com momentos extáticos, como os “hey! how!” a que o público se entrega siderado pelo Guia.

Não vou bancar o adorniano ortodoxo e sublinhar os elementos ou riscos fascistas ou mistificadores nisso tudo. O niilismo e a má negatividade habitam em todo lugar (inclusive em meu discurso), mas algo também os transcende o tempo todo, e sobretudo na música esse “algo” é o mais importante: é sobretudo ele que devemos buscar e com ele que devemos aprender nela.

Mas o que seria, então, essa “alma forte”? Qual sua força e “essência”? Na sua melhor forma, eu diria – me valendo de novo da “pose” de Blaze – que ela tem a ver com a coragem de encarar o mundo em sua dramática negatividade. Claro que é possível ver outras coisas nessa “pose”: afinal, é o mundo “denso e complexo” ou o potencial consumidor que Blaze olha, oferecendo, num gesto vazio, o seu produto? Mas essa duplicidade também serve para sublinhar a importância de um gesto comunicativo que é ao mesmo tempo um gesto aberto. O dia em que os niilistas (e mais ainda os cabeças-ocas) perceberem que o que eles chamam vazio pode ser visto como abertura talvez estejamos salvos de sua sanha de posse e ocupação de tudo com seus instrumentos e sentidos... (Vejam que suponho uma abertura neles para isso...)

Olhar o mundo, aliás, é também olhar nos olhos: se os outros são o mundo e seus infernos... Mas infernos – como os interiores de cada um – que de fato é preciso encarar, com os quais se deve dialogar de alguma forma. E isso é o contrário de qualquer protofascismo. O próprio gesto celebratório é também gesto comunicativo, e se ele é também identitário, e portanto potencialmente segregacionista, o próprio apelo ao outro da “pose” de Blaze (se nos recusarmos a vê-lo como mero apelo comercial) é o oposto disso.

Bem, alguém pode se lembrar do preço dos ingressos, que inclusive “obrigou” um jovem trabalhador a invadir a casa para ver e abraçar o ídolo... Mas isso tem a ver com o estado da cultura, e com a cultura do rock como uma cultura ao mesmo tempo segregada e segregacionista etc. etc. Como eu disse: a má negatividade habita em todos os lugares. Mas que habitem e circulem entre nós mais Blazers – e Willes Brunos, e Shadows Legacys, sobre os quais falarei no próximo post – que as coisas hão de melhorar.

No mais, só posso cumprimentar a todos os que tornaram esse evento possível, e que é mesmo um passo importante para Campo Grande ingressar no circuito do metal internacional.

 
Este post é dedicado à memória de Ernani de Almeida.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Calaboca! e grita ou o silêncio do sentido


Assisti ontem a peça CALABOCA! e grita, de Jair Damasceno. A meu ver, um dos méritos da encenação foi ter arrancado aplausos tão tímidos - a bem da verdade, intimidados, pra não dizer amedrontados - da plateia, além de deixar um sujeito como eu sem saber o que dizer.

A força do espetáculo é indiscutível. A movimentação cênica, o trabalho com as vozes e a intensidade dramática me lembraram a única montagem que tive a honra de assistir de Antunes Filho, de As troianas. No entanto, mesmo sendo um texto perenemente trágico, exposição de uma tragédia humana e social permanente ou em curso,
CALABOCA! nega ao espectador duas das satisfações fundamentais que Aristóteles apontou na tragédia: a catarse e, mais ainda, o reconhecimento. Foi só chegando em casa, já meio de ressaca da noite, que eu me toquei que a grande sacada do texto está justamente na tensão entre reconhecimento e não reconhecimento que ele exerce o tempo todo.

"Nada faz sentido, nada precisa fazer sentido" (ou coisa assim), gritam a protagonista e o coro várias vezes, com violência impactante. E, não obstante, algo muito forte ali faz sentido, uma situação de sexo e violência cuja "história", no entanto, não é apresentada.

Essa recusa ou desconstrução do enredo não é mera experimentação: ela é uma resposta simbólica - e, a seu modo, violenta - à primeira violência de todas, que é a apropriação, a posse do sentido do outro. Vemos uma alteridade feminina sofrer diante de nós mas não temos o sentido, a "história", desse drama íntimo, e essa recusa é um acinte à nossa expectativa de sentido: violenta simbolicamente nossa violência simbólica (e psíquica) primordial, nossa ânsia de sentido e posse do outro.

Quanto à insistência em despertar o diálogo e a reflexão em torno desse sentido/não sentido, a meu ver é um gesto legítimo, talvez essencial, no âmbito de um teatro crítico, que une influências beckettianas e brechtianas. Enfim, é bom saber que, ao contrário do que cheguei a pensar - e como demonstram não só os trabalhos de Damasceno como os de Breno Moroni -, Campo Grande tem sim um teatro de vanguarda.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Asteróides Trio: Punkabilly

Esta é uma postagem oportunista em dois sentidos. Primeiro, no sentido de ela substitui outra, da qual desisti, sobre o show que o mesmo Asteróides Trio fez aqui em Campo Grande, com abertura da Aristocats. Queria muito ter escrito sobre essa dobradinha fantástica, mas já se passou tanto tempo que coisas as interessantes que eu poderia dizer se esvaíram completamente... Cérebro de queijo suíço, como dizia Norman Mailer...

Mas o segundo sentido é mais positivo. É que essa, digamos, operação substutiva é também uma ótima chance para iniciar a série de postagens sobre álbuns de canções (CDs, LPs, EPs etc.) que planejo há tempos. E fico feliz de começar com os Asteóides, que tive o prazer de conhecer e ver tocando.

Sobre o show no Hangar, só acrescento o seguinte: foi uma das coisas mais legais que presenciei este ano... Quem tiver a chance conferir esses três caras simprões de tudo mas cheios de talento fazendo música, não perca a chance. Formiga na guitarra e Weasel no baixão acústico à frente, e ao fundo Leandro Franco, tocando batera de pé e nos vocais principais, podem não ser os caras mais bonitos do mundo, mas ainda assim é uma bela cena.

Weasel
Asteróides Trio é uma banda de rockabilly formada em 2006 em Arujá-SP, e Punkabilly (2013) é o primeiro CD da banda, que, apesar de ter um bom repertório próprio (como pude constatar no Hangar), teve a humildade de se lançar com um trabalho de tributos ao punk rock nacional oitentista. A última música e mais três bonus tracks ao fim do CD dão uma mostra da qualidade do som autoral dos caras.

Punkabilly surpeende pela qualidade das versões, pelo cuidado com que cada canção original é adaptada à estética do rockabilly e sua sonoridade melódica e pulsante, que obriga o sujeito a dançar ou amargar uma coceira braba no pé; e sem perder o vigor das versões originais, mas sim transformá-lo em outra coisa.

"Pátria amada", o clássico absoluto dos Inocentes que abre o CD, por exemplo, deveria ficar estranha, com sua letra tão ácida adaptada ao ritmo ultradançante e às guitarrinhas ultramelódicas dos Asteróides, mas a verdade é que o efeito é ótimo. O tom épico e invocado do original dá lugar a um tom irônico que pode amortizar a raiva, mas não dilui em nada a acidez.

Na sequência, "Medo", obra-prima que abre o segundo disco do Cólera, está melhor ainda; chega a dar a impressão de que já nasceu um punkabilly. No caso de "Nicotina", dos gaúchos Replicantes, a adequação é ainda mais perfeita, pelo tema da juventude transviada com direito a blusão cheirando a cigarro. O mesmo vale para "Se o tempo voltasse" ("Se o seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você?"), um dos grandes baratos da brasiliense Detrito Federal.

Claudio Formiga
Mas foi a música seguinte a "Nicotina" a que me mais me seduziu no disco. Os Asteróides transformaram a pegada toscona de "Delinquentes" do Fogo Cruzado numa levada deliciosa. "Delinquentes" é uma das peças que integram a histórica coletânea Sub, do começo dos anos 80, e seu refrão continua valendo: "Movimento punk nunca há de morrer!". Já não se trata da juventude transviada de "Nicotina", mas dos jovens marginais, os "garotos do subúrbio" que tornaram o punk paulistano, não vou dizer o mais autêntico, mas o mais forte do Brasil.

O mesmo vale pra "Rock do subúrbio" dos Garotos Podres, onde ao tema da revolta se soma o da consciência e do papel do movimento punk contra "a ordem burguesa que existe na música e na arte". São os momentos do disco em que o espírito do rock'a'billy se funde de forma mais íntegra ao do punk rock. As vozes rascantes de Mau (Garotos Podres) e de Ernandes (Fogo Cruzado) dão lugar a jogos de voz primorosos e até delicados, mas de alguma forma a rebeldia permanece íntegra.

Leandro Franco
Num único momento tive a impressão de que essa fusão não deu certo: em "Isto é olho seco", hino da também paulistana Olho Seco, que tem uma letra muito cabulosa pro formato "billy". E acho que no caso da homenagem ao 365 havia alternativas melhores a "Grândola, Vila Morena". Primeiro, porque eles mereciam o registro de uma canção própria (apesar da "Poesia" declamada antes de "Grândola"), e segundo porque a versão deles (365) do hino secreto da Revolução dos Cravos é tão boa que seria melhor não mexer com ela...

Mas nem por isso Punkabilly deixa de ser um CD e tanto. Sua proposta sonoro-conceitual revitaliza os clássicos regravados; explicita a ingenuidade das letras punk mas nisso mesmo resgata seu vigor, sua revolta e sua alegria primordiais.

As quatro músicas que fecham o trabalho confirmam a essência do punk no rockabilly do Asteróides Trio. O tema da rebeldia jovem em "Teddy, o primeiro da gangue a morrer" e na pesadona "Nancy, vamos para casa" é trabalhado com laivos de poesia marginal; e "Cérebro atrofiado" tematiza a alienação com influência explícita do Cólera.

Um disco, sem exagero, obrigatório pra qualquer punk ou fã de punk rock brasileiro.

Asteróides & Aristocats in Bigfield
Links

Asteróides Trio no myspace (só músicas próprias):
https://myspace.com/asteroidestrio/music/songs

Site oficial:
www.asteroidestrio.com.br

"Rock de subúrbio" ao vivo:
https://www.youtube.com/watch?v=bILbfr6Iook

Fotos de Nadia Ramone

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Viva Mandela, viva a África!





















A CRIANÇA QUE FOI MORTA A TIROS POR SOLDADOS EM NYANGA


A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe, que grita África!
Brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos corações entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações, que grita África!
Brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta.
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jaz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembleias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo
Sem dar um só passo.

(Ingrid Jonker)

Este poema, lido por Mandela em seu primeiro discurso como Presidente da África do Sul, me foi enviado pela amiga e poeta Jhenifer Silva. Obrigado, Jhenifer! Viva Mandela, viva a Liberdade do povo negro e de toda a Humanidade!