VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Aquarius: a miséria de alguns e
a grandeza do humano

Que toda obra de arte reflete seu tempo, por vezes de formas muito diretas, é um fato inegável, mas não é todo dia que arte e política se imiscuem de formas tão intensas quanto no episódio do filme Aquarius. O aparente desfecho do caso foi a decisão do Ministério da Cultura de indicar outro filme – que, pelo trailer, é, tanto estética quanto ideológica e até social-etnicamente, quase que o exato oposto do filme de Kleber Mendonça Filho – para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. O que, de uma certa forma, é até bom – pelo menos garante a Mendonça o cultivo de sua veia underground por mais um tempo –, mas não deixa de ser uma grande mesquinhez, não apenas pelo evidente conteúdo político do gesto, e não tanto no sentido de que talvez esteja impedindo o cinema brasileiro de, finalmente, receber a cobiçada estatueta (uma “lacuna” que redobra seu valor de fetiche) quanto no de que sabota a divulgação deste que é, certamente, um dos melhores filmes do ano (assim como O som ao redor, o primeiro longa de Mendonça, foi em 2012).

É óbvio que a manifestação dos atores em Cannes contra o governo Temer pesou, e muito, nessa decisão; mas eu tenho minhas dúvidas se, de qualquer forma, pessoas a serviço de um governo conservador elegeriam para um “cargo” como esse, de “representante nacional” num evento de magnitude global como o Oscar, um filme com uma visão tão livre e libertária da vida, comportando, inclusive, várias cenas quase pornográficas; mais que isso, porém, que mete o dedo em feridas tão profundas, e com tamanha qualidade artística, tamanha grandeza de visão humana, que, mesmo com seu pertencimento tão agudo a seu tempo, o tornam muito mais do que uma peça de polêmica.

De fato, a primeira coisa que tem que ser dita sobre Aquarius é que se trata de um grande filme, e graças não tanto a suas virtudes técnicas, como a fotografia e mesmo a direção, ou mesmo ao drama de seu enredo (que nem é tão dramático assim), mas sobretudo à grandeza com que retrata a vida humana, na busca de uma espécie de realismo extremo, não no sentido de uma estética naturalista (apesar da importância do sexo e do desejo), mas quase, talvez, de uma antiestética, e isso não no sentido vanguardista do Cinema Novo, mas de busca de fidelidade ao real da vida para além dos esquemas dramáticos. Claro que tanto a direção quanto as atuações pesam muito nisso; aliás, apenas a atuação de Sônia Braga (essa é mesmo a Sonia Braga que foi Gabriela, Dona Flor, etc.?) já seria suficiente para torná-lo um filme inesquecível; o primeiro e talvez maior mérito de Aquarius, porém, é ter um roteiro excelente, principalmente na construção dos diálogos e, menos que da trama geral, dos fatos humanos.

Num texto que tenta cumprir a ingrata e constrangedora tarefa de diminuir o valor de uma obra de arte tão forte, Carol Prado, do G1 (e olha que a Globofilmes é uma das produtoras do filme), diz que Aquarius faz uma “reflexão poderosa” mas tem uma “visão simplista” devido ao maniqueísmo, uma afirmação que não soa como a coisa menos contraditória do mundo.

O fato é que se há algo que Aquarius não é, é um filme maniqueísta. Clara é uma mulher íntegra e forte, mas de forma alguma a encarnação da bondade ou mesmo da estrita coerência. Isso se manifesta não só em suas relações familiares mas também nas relações sociais, principalmente com a empregada doméstica, que, mesmo tida como velha amiga, amarga pequenos ranços autoritários da patroa. Se fosse preciso e possível localizar a família de Clara no espectro ideológico do ideário de esquerda, seria o da esquerda populista-patriarcalista (ou, no caso, “matriarcalista”) de Brizola e Arraes, e há claras indicações de que o filme não "fecha" estritamente com ela. A aguda fala de outra personagem sobre o roubo das jóias cometido por outra empregada, e que depois suscitará um sonho na heroína (mas chega de spoilers), é mais do que sintomática nesse sentido.

Enfim, Aquarius é um filme de rara complexidade humana. Como em O som ao redor, os diálogos laterais ao fio do enredo e a atenção, mais que ao cotidiano, ao corriqueiro têm a função de mostrar que a vida é sempre muito mais que o que cabe na tela. Na telona e, mais ainda, na telinha, já que é sobretudo com os estereótipos sociais das telenovelas que o filme de Mendonça contrasta.

E é essa, no fim das contas, a grande oposição que configura o drama do filme: entre aqueles que amam a vida, que a sabem muito maior que as aparências e as ambições, e aqueles que desprezam o humano pelo dinheiro e pelo poder. Há, sim, essa divisão, muito clara, no filme, mas ela não é maniqueísta nem caricatural. Uma divisão que, infelizmente – e mesmo com mil matizes –, também existe na vida. Se nenhuma virtude dos Bonfim é mostrada, Mendonça também não explora seus defeitos; simplesmente sua ambição desmedida é um dos motores da trama. O filme poderia mostrar, por exemplo, que se a intelectual e meio artista Clara fuma sua maconha, o jovem engenheiro provavelmente cheira sua cocaína. Um Sergio Bianchi provavelmente faria isso.

Mas este não é um filme sobre o ódio ou mesmo as atrocidades da vida contemporânea. O atroz está presente, sim, mas Aquarius é um filme, principalmente, sobre a grandeza e a contraditoriedade do humano; um filme, como escreveu Matheus Pichonelli na Carta Capital, sobre a necessidade de resistir – pois, num mundo onde a miséria de alguns fecha as portas do humano, resistir é necessário para viver.