VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vandré, elegia e utopia

À memória de meu pai.

Desde que voltou do exílio, há mais de 40 anos, Geraldo Vandré vem insistindo que seus verdadeiros algozes não foram os generais, e sim os meios de comunicação. A afirmação de que sequer foi torturado pelo regime militar, além de suas amizades na Força Aérea Brasileira, para a qual chegou a escrever uma canção, despertaram em muitos a suspeita de que teria enlouquecido; o que várias evidências, inclusive a sobriedade demonstrada nas poucas entrevistas concedidas nesse período, parecem desmentir.

O fato é que o verdadeiro boicote a que, mais do que a figura, a obra de Vandré é submetida desde o AI-5 é um grande desserviço prestado pela mídia à cultura e à sociedade brasileira. Um entre muitos, aliás: quantos brasileiros conhecem o trabalho de Sivuca ou Egberto Gismonti, e, hoje em dia, mesmo Tom Jobim ou Chico Buarque?

O caso de Vandré, no entanto, é um pouco mais dramático. Não só pelo isolamento auto-imposto como porque ele foi um dos artistas que mais buscou, muito mais que dialogar com a cultura popular, efetivamente se comunicar com o povo. Tanto que “Pra não dizer que não falei das flores” é até hoje uma das canções mais conhecidas do nosso cancioneiro midiático-popular.

Mas Geraldo Vandré não é um músico de uma música só – ou duas, se contarmos com “Disparada”. Sua obra comporta pelo menos cinco discos (além de canções esparsas e trabalhos gravados por outrem, como a “Paixão segundo Cristino” gravada por um coral da Ordem dos Dominicanos), que incluem várias pérolas de beleza indiscutível, como “Rosa Flor”, “Porta Estandarte”, “Se a tristeza chegar”“Canção nordestina”, todas estas do excelente 5 anos de canção, de 1966.

Essa semicoletânea, como lembra o texto de Franco Paulino na contracapa, deve muito ao trabalho de Vandré na trilha sonora do filme A hora e a vez de Augusto Matraga, que coroa sua busca de ir além da influência do jazz e da bossa nova, sobretudo pela incorporação de elementos da música nordestina em “Requiém para Matraga”e “Fica mal com Deus”, a primeira uma balada agalopada e a segunda uma espécie de forró (ao passo que “Canção nordestina”, oriunda do primeiro álbum, de 1964, é uma espécie de bossa nova sem suingue, com marcação seca, “agreste”), ambas trabalhados no disco com simplicidade magistral pelo conjunto Trio Novo.

Mas também a qualidade dos sambinhas é notável. “Porta Estandarte”, por exemplo, contém um jogo de vozes belíssimo, que materializa musicalmente a ideia da letra, que é a aliança das aspirações do cantor com as da porta-estandarte em sua condição comum de aspirações coletivas.

Hora de lutar (1965) e Canto Geral (1968), os discos mais engajados de Vandré, talvez sejam menos atraentes musicalmente. No primeiro, por exemplo, alguns arranjos jazzísticos destoam um pouco das letras políticas. Mesmo assim, vale a pena conferir “Samba de mudar”, parceria meio experimental de Vandré com Baden Powell (como outras citadas aqui), que começa com um sambão corrido e depois vira um jazzão enjoado (mas volta pro sambão etc.), e as belas “Vou caminhando” e “Canta Maria”. E também em Canto Geral há bons frutos, como “Maria Rita”, “De serra, de terra e de mar” e a feroz “Aroeira”.


O trabalho mais marcante de Vandré, no entanto, é o último (quem sabe, apenas por enquanto), o disco de exílio Das terras de Benvirá. Embora gravado na França
em 1970, com um grupo de músicos brasileiros reunidos de improviso, e que teria vida longa como o Quinteto Violado, este talvez seja o disco brasileiro mais pungente de todos os tempos. Várias vezes a comoção toma a conta da voz de Vandré, que nem por isso, até pelo contrário, perde em força e beleza. A voz de Vandré, aliás, é uma das mais bonitas da chamada MPB. Os arranjos, ainda mais básicos que os do Trio Novo, se adequam com perfeição à expressão sentida das letras e inflexões melódicas. Voz e violões choram juntos as dores do exílio.

Das terras de Benvirá condensa com intensidade única – como só as condições adversas de sua produção poderiam permitir – os dois elementos fulcrais da poética literomusical de Vandré: a veia sentimental, marcada pelo tom elegíaco e pelos sentimentos da dor e da perda, e a pulsão utópica, onde não raro uma nota elegíaca também emerge, seja pela empatia com o sofrimento dos desvalidos, seja pela dura consciência (justa ou não), como canta “Vem vem”, de que “a morte às vezes é solução”. Mas é a belíssima “Canção primeira” que dá forma mais plena a essa dolorosa duplicidade. Depois de pedir perdão à companheira por não poder “cortar caminho / Nessa caminhada / Que é pra te encontrar”, Vandré canta e grita “a esperança / Que vem vindo o dia de poder voltar / Sem ter na chegada que morrer, amada, / Ou de, amor, matar”.

Coletânea lançada nos anos 80, e que inclui
"Pra não dizer que não falei das flores",
censurada em 1968
Talvez, no fim das contas, esses elementos também ajudem a explicar o desconhecimento generalizado do trabalho de Vandré. A seriedade de suas letras e a densidade comovida de sua voz são o avesso do espírito de banalização extrema e alegria a todo custo que anima os tempos. Mas há algo mais simples que isso: mensagens como a de “Ninguém pode mais sofrer” – sintetizada nesse título mesmo – são ao mesmo tempo muito simples e muito fortes para serem cantadas e decantadas por aí.

Só isso explica, por exemplo, que a já diluída onda indie nacional não tenha redescoberto Vandré. Várias canções de 5 anos, como “Porta Estandarte” ou “Rosa Flor”, ficariam ótimas com os Los Hermanos, em arranjos climáticos ou sambas-rock. Que eu saiba, dentre os músicos e bandas de destaque das últimas décadas, só a Charlie Brown Jr. regravou Vandré: uma ótima versão, aliás, de “Pra não dizer que não falei das flores”.

Mas há outras flores, espalhadas em outras canções, certamente menos adequadas a passeatas mas quase sempre igualmente marcadas pela premência do tempo que há em “Caminhando”. Canções como a “Canção do breve amor”, que lamenta “a perdida flor / Que longe floresceu / E o homem não colheu pra o seu amor”. Mais ou menos como tantas flores de Vandré, com a diferença de que estas estão vivas e muito perto de nós.


P.S.: Acabei de encontrar essa versão anterior (1966) de “Porta Estandarte”, gravada por Vandré e Tuca, cuja voz é muito parecida com a de Nara Leão. Vale a pena ler o textinho no youtube.

2 comentários:

  1. Na edição de abril de 2014 da revista Rolling Stone impressa publiquei uma matéria sobre o show da Joan Baez em Sâo Paulo e comento o comportamento algo estranho de Vandré que eu vi pois ele estava sentado ao meu lado antes e depois de subir ao palco. Ele se recusou a cantar Caminhando no palco mas cantou quando voltou a se sentar e isso só eu ouvi e até gravei.

    ResponderExcluir