VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Consciência, alienação e comunicação


Vejam se a terceira palavra do título acima não soa fora do contexto...

É que a esquerda e a intelectualidade brasileiras – e falo como alguém que, mal e porcamente que seja, tenta se inserir nesses dois campos – sofrem de um mal antigo: a dificuldade crônica, quando não o desinteresse, de estabelecer formas de comunicação efetivas com a população. Com a expressão “comunicação efetiva” quero designar algo bem diferente do pragmatismo que rege as relações discursivas instituídas atualmente entre esses campos todos; algo, para resumir, cujo horizonte não sejam nem os fins nem os meios, mas os conteúdos dos atos comunicativos.

Lembro-me, quando militava no então moribundo PCB (que logo depois viraria PPS, sendo mais tarde “ressuscitado” por militantes da “ala histórica” do Rio), de ter ouvido mais de uma vez uma alegoria que era mais ou menos assim: o comunismo é como o sol; mas a luz do sol é muito forte, tão forte pode que pode cegar; então não se pode mostrar o sol diretamente para o povo, mas apenas reflexos seus (as reformas), para que, pouco a pouco, o povo se acostume com sua luz...

Não gostava dessa alegoria, e hoje, quando o rótulo “comunista” já não me satisfaz nem um pouco, gosto menos ainda. Não pretendo negar a qualquer agrupamento político o direito de acreditar e afirmar que suas concepções sociais são tão grandiosas quanto o sol – acredito sinceramente numa humanidade emancipada –, mas a alegoria é tão perniciosa quanto equívocada: a questão nunca foi e nunca será apontar e olhar para “o sol”, e sim para aquilo que ele ilumina no presente, no passado e num hipotético futuro, e se nos negamos a agir assim é porque agimos de má fé. É porque vemos “o povo” como massa de manobra.

A mesma esquerda que, fidelidades e infidelidades à parte, chegou ao poder político (ou pelo menos a um nicho importante dele, que é a Presidência da República) já há um bom par de anos, paga hoje o preço de não ter construído uma comunicação efetiva com o povo, e agora vemos o mesmo eleitorado que há ainda pouco tempo aprovava largamente os governos Lula e Dilma dar sérias mostras de pendores reacionários.

Pode ser que essa comunicação efetiva não interessasse efetivamente, mas mesmo quando o interesse é palpável a dificuldade de melhorar o nível do debate é gritante. Vide, por exemplo, Lula tratando as manifestações anti-Copa com praticamente os mesmo termos (“ficam dizendo que não tem hospital...”) utilizados por Pelé. Enquanto isso, o movimento “Não vai ter Copa” demonstra muito pouca sensibilidade em relação às demandas populares.

Esses dias conversei com um militante de esquerda que se recusa a tentar dialogar com “o povo”, o qual ele identifica automaticamente com “os evangélicos” (argumentando que estes constituem 37% dos religiosos no Brasil atualmente). E cita como exemplos de uma alienação extrema que inviabilizaria qualquer diálogo as mais de 15 mil mulheres reunidas recentemente no centro de Campo Grande pela Igreja Universal e a popularidade do bordão “Picarelli do céu!”. “Campo Grande é a terra do Picarelli do céu!”.

De minha parte, eu, que pego ônibus quase todo dia, estou convicto de que existe uma demanda não só de transformação como de compreensão da realidade entre as pessoas “do povo”; mas enquanto a esquerda e, pior ainda, os intelectuais (“de esquerda”) guardam para si a consciência histórico-social – a compreensão dos mecanismos históricos e sociais que regem a realidade – que deveriam compartilhar, essa demanda é satisfeita pelos engodos de sempre.

Talvez seja o caso de a esquerda aprender com os evangélicos, que, antes dos estádios de futebol e dos canais de televisão, vendiam seu peixe de porta em porta, no diálogo, franco ou não, mas direto com as pessoas. Nosso peixe – a justiça social efetiva, que passa pela abolição da exploração econômica e das desigualdades sociais – talvez seja menos atraente, até porque ele não oferece nenhuma salvação post mortem. Mas se acreditamos nele precisamos tentar compartilhá-lo, ao invés de apenas reparti-lo entre nós, como pérolas ociosas em congressos universitários ou partidários ou petiscos em conversas de mesa de bar.

E vão desculpando o excesso de alegorias... espectros do Partidão?


Um comentário:

  1. Pois é, vemos por todos os lados sinais de que o povo, ou as demandas populares, desapareceram do discurso dos governantes. Como exemplo, cito o descaso com que sucessivos governos municipais vem tratando a questão da carência de vagas nas creches em SP. Ou a questão do deficit de moradia. Da má qualidade e insuficiência de transporte público. Sem falar de outros temas que são tidos como "luxo", caso da coleta seletiva de lixo e da construção de parques e praças urbanas. O politiburo político administrativo esqueceu de sua origem nos movimentos populares.

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