VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ucrânia: rumo à liberdade ou ao neofascismo?

Nas últimas semanas, os olhos do mundo têm se voltado para a Ucrânia. A agitação política envolvendo duas das maiores potências mundiais (EUA e Rússia) chama a atenção e preocupa. Em geral, os meios de comunicação tendem a levar o expectador ao apoio dos revoltosos. Porém, há dois lados na moeda, ou vários lados no cubo, o que cairia melhor para a situação. 

Para quem acha que a revolta na Ucrânia é símbolo de liberdade, apresento Oleh Tyahnybok: líder de uma ala abertamente simpática ao nazifascismo e apontado por muitos como um dos maiores antissemitas do planeta, ele vem sendo um porta-voz da "revolução ucraniana". Basta digitar seu nome e procurar por notícias no 'Google' ou qualquer site de busca. Ao citar as manifestações, o brasileiro 'Estadão' traz parte de entrevista dada pelo mesmo, e para os desavisados passa despercebido. Nela, o nome de Tyahnybok aparece apenas como um então líder da oposição defendendo uma postura antigovernamental, sem quaisquer detalhes de que oposição seria essa. Quem são os líderes do movimento que depôs o agora antigo governo? Quem está na nova disputa política?

Em matéria divulgada pelo 'Daily Caller', divulga-se que o partido de Tyahnybok conseguiu três (!) ministérios no governo provisório. A saber, seu partido é o 'Svoboda' (ironicamente "liberdade", em português), cuja agenda é ultranacionalista, de extrema direita e xenofóbica (defendem políticas de segregação a poloneses, russos e judeus). Para entender melhor a situação, é interessante apontar que historicamente o nazifascismo soube explorar o sentimento de povos em crise e sem esperanças. Foi com promessa de "liberdade" e "salvação" para o próprio povo alemão, afetado por uma crise mundial e pela derrota em uma guerra, que Hitler conseguiu prestígio apresentando-se como um super-herói redentor. E é esse mesmo sentimento que o 'Svoboda' pratica: em meio a uma agitação profunda, o partido de Tiahnybok apresenta argumentos de como o país está perdido e que a única salvação seria que eles tomassem o poder. Mais uma vez, o inimigo público histórico é considerado o responsável pela crise: o judeu e o estrangeiro, no caso russos e poloneses.

Na Crimeia, região que tem sido o olho do furacão nos últimos dias, a maioria da população tem origem russa. Fala-se em independência, em anexação à Rússia. Ativistas da região alertam para o perigo da facção conhecida como 'Setor Direita', que tem sido um nome forte nestes tempos de agitação política. Os esquerdistas mais exaltados chamam a deposição do antigo governo de "golpe nazifascista". A população da Crimeia teme que o crescimento do 'Svoboda' faça com que seu idioma - o russo - seja proibido, dentre diversas outras medidas. Em matéria divulgada pelo site da revista brasileira 'Carta Capital', um dos ativistas russos declara: "eles dizem que precisam lutar contra nós, russos e judeus. Devemos ver isso de braços cruzados?". No site do jornal 'Voz da Rússia', Tyahnybok diz que "serão necessárias brigadas de propaganda, para realizar atividades esclarecedoras no seio das populações orientais".
 
Ao se unirem para derrubar o governo de Yanukovych, os partidos opositores ao ex-presidente ignoraram todas suas diferenças. Liberais se uniram ao 'Svoboda' com o objetivo de depôr o então governo, como uma aliança por um bem maior. Ao praticarem tal união, cometeram um erro histórico já praticado por centristas diversas vezes, como no golpe de 1964 no Brasil, quando a UDN apoiou os militares que mais tarde os colocariam na clandestinidade, ou quando diversos empresários e políticos declararam apoio a Mussolini e Hitler para livrarem-se do "perigo vermelho". A história tem muito a ensinar e, no caso atual, devemos acompanhar e esperar que o pior não se repita mais uma vez.

Neto Liberator

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