VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 23 de março de 2014

Plínio Marcos dá o bote em Bigfield

A montagem de um texto inédito de Plínio Marcos numa capital ainda provinciana como Campo Grande é um evento que não pode passar em branco nestes pobres arquivos; ainda mais se tratando de um texto ousado e atual, que trata da sexualidade de forma desabrida e polêmica, ainda mais nestes tempos de paranoias neo-evangélicas...

Aliás, supreende que somente agora, e nessas condições incomuns, O bote da loba tenha sido montado. Não sei nada sobre as condições do original, se ele constitui, por exemplo, um trabalho inconcluso, ou mesmo a data de sua produção. Um amigo e colega, Julio Galharte, cogitou que alguns elementos possam ter sido acrescentados na montagem. Ainda assim, e não obstante relativamente curto e, talvez, dando a impressão de demandar algo mais, trata-se um belo texto, que dá prova da inteligência viva de Plínio Marcos.

O contraste das duas cenas inaugurais, por exemplo – quando aos lamentos e angústias de Laura a cartomante não opõe qualquer discurso, mas uma dança vívida e sensual, quase ofensiva diante do estado da outra –, beira a genialidade, instaurando de forma surpreendente a tensão que animará toda a peça até a grande concilação final. (Se bem que justamente a dança o Julio sugeriu que possa ser um acréscimo; se o diretor puder se pronunciar a respeito...)

O tema declarado de O bote da loba é a sexualidade feminina e sua repressão no mundo moderno, mas o tratamento desse tema ao longo da peça é tão explícito (quase, digamos, em mais de um sentido) quanto sutil. Numa das passagens de humor mais refinado, Laura ouve a descrição das funções de uma espécie de especialista em excitação do corpo feminino que existiria nas comunidades ciganas, e diante de sua incredulidade a cartomante responde que nem todos são loucos ou doentes (como na civilização moderna), subentende-se, para prescindir de tais serviços... Mas chega de spoliers.

Para um estudioso de Machado de Assis e leitor de Clarice Lispector, é impossível não destacar o contraste entre a cartomante de Plínio – que, como me informou o mesmo Julio, estudava tarô a sério – e as deles (em “A cartomante” e A hora da estrela). Não que precisemos dar crédito, necessariamente, a tudo o que ela diz: como o título sugere, pode se tratar, apenas, do bote de uma loba... Mas sua positividade é inequívoca: mais que a inteligência oportunista de suas colegas, ela cumpre o papel de uma analista e terapeuta das mais eficazes. E não importa se ela age em proveito próprio: seus atos são libertadores, não só para o corpo como para a alma de Laura. Para além da que da sexualidade, aliás, O bote da loba trata da unidade do corpo e da alma.

Como não sou crítico de teatro, além de não conhecer o texto, não me sinto à vontade para avaliar a montagem. Só posso louvar a seriedade e a coragem de seus realizadores. As interpretações são fortes e convincentes, embora talvez um pouco aquém da complexidade das personagens (tive a impressão de que algumas vezes as atrizes deixaram transparecer certa preocupação com a plateia, que por sua vez – e como no caso da peça de Jair Damasceno que comentei nesse outro post –, ao final parecia um tanto atônita).

Mas seria preciso conferir as rubricas e, a bem da verdade, assistir de novo. O que eu faria com prazer, se no dia em que escrevo isto, e que é o mesmo da última apresentação de O bote..., outra peça de Plínio Marcos não estivesse em cartaz, e também na segunda e derradeira apresentação... Mas um dia, tenho certeza, as coisas vão ser diferentes, e uma peça “em cartaz” vai fazer jus a essa expressão por aqui.

Muita merda, Plínio! Muita merda, Aline Calixto, Patrycia Andrade, Vitor Hugo e toda a produção de O bote da loba! Viva o Teatro de Campo Grande!

Um comentário:

  1. Ravel, achei bastante interessante a comparação, mesmo que rápida, da cartomante dessa peça do Plínio com as de Machado de Assis e de Clarice Lispector, especialmente a da autora de A hora da estrela. Nesse texto lispectoriano, a Madama Carlota (a vidente que oscila entre declarações confiáveis e não confiáveis sobre o presente e o futuro de Macabéa) pergunta a protagonista da história se ela já experimentou amor de mulher. Diante da resposta negativa de Macabéa, a cartomante indica que ela devia experimentar, já que ele é "mais delicado". O diálogo entre essa afirmação da cartomante de Lispector com a ação da cartomante de Plínio é intenso...

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