VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SÃO DONADON E A URNA PROSTITUTA


Havia uma Urna que, após vários anos se prostituindo, decidiu mudar de vida. São Donadon, repleto de longanimidade, confortou-lhe o coração dizendo: “Urna, Urna, minha pobre e gentil senhora, todos somos pecadores nesse mundo. Mesmo o mais santo há que se reconhecer no mais vil pecador. Só assim o mais vil pecador poderá ser reconhecido como santo. Aquele que não tiver pedra, que atire o primeiro pecado. Deixai que todos nós depositemos a semente em ti, pois é de tua promiscuidade que brota o Panteão dos mais belos deuses que há na terra. De ti depende o Panteão de vidro que resplandece sobre os pecados lançados e as pedras emudecidas.” Ouvindo isso, a Urna tranquilizou-se e regalou seu orifício a todos os demais santos com júbilo e alegria.

Finda a parábola, vamos ao menos importante: uma interpretação para nossos dias, para o nosso mês de setembro deste 2013, com seu iminente dia sete, data importante em nosso carnaval fora de ética. Dom Pedro, tu és pedra, e sobre ti edificamos nossa nação faz-de-conta. O fato é que, por esses dias, a Câmara dos Deputados não cassou o senhor Natan Donadon. Preso recentemente por peculato e formação de quadrilha, o parlamentar rondonense foi perdoado, beatificado, santificado pelos seus iguais em voto secreto. Habemus sanctum. O Panteão segue firme. Junho passou, pedras rolaram, pedras quebraram vidros, mas os vidraceiros trabalharam rápido. E os vidros parecem estar reforçados, afinal, pela primeira vez desde a Constituição de 1988 um deputado presidiário segue congressista. Houve um avanço ético do judiciário brasileiro ou foi o legislativo que superou todas as expectativas celestiais do autoperdão? E não precisa ir ao Planalto pra gente falar em santos pecadores. Na morena cidade vereadores cassados não largam o osso, o Mussolini pantaneiro segue descendo a guacha no lombo do povo, é tudo boiada, é tudo boiada, o Mensalão do MS revelado, filmado, comprovado e, por fim, inexistente. Fazem milagres: mais do que o Valdomiro Santiago, a classe política faz as doenças, o câncer da corrupção generalizada, o cancro coronelista, desaparecerem. Mas assim como para o próprio Valdomiro, televisão é sempre fundamental. Magia na tela, ofertas na cesta. Enquanto isso, Eduardo Miranda Martins segue enclausurado para jogar na cara de todos nós as palavras duras de Thoreau: “Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão”. Enquanto isso, os médicos campo-grandenses que matam matam matam pessoas enfiam cem mil reais de salário no rabo murcho de suas consciências ocas. Observando a máquina, quase queremos dizer: Finja-se de louco, Dudu! Faça como Raul! Não o Seixas, mas o Freixes. É a Lucidez o que eles não querem ver passeando livre por aí.
Só a Lucidez pode redimir a Urna prostituta e violentar a auréola de São Donadon.
E a Lucidez é a Reforma Política. E a Lucidez da Reforma Política exigirá mais luz no futuro. Muito mais. A luz de Lênin, talvez. Um Lênin Guaicuru. Um Lênin Luxemburgo Rosa sem Stálin. Um Lenin Tupã-Y Marçal Dorcelina nunca Dorsa. Mas vamos com calma. Uma Lucidez de cada vez, senão a gente fica doido.
A Reforma Política é o ponto central em um presente incerto. Sendo bem claro: a primeira Lucidez é o Financiamento Público de Campanha. Impedir as empresas, os banqueiros, as empreiteiras, a turminha da Kátia Abreu de bancar as eleições. “Ah, mas eles continuarão controlando a Urna prostituta, afinal, são os donos do bordel tupiniquim”, ouve-se. Fiscalizar, cobrar, cuidar da Urna deverá ser trabalho de todos. Não será fácil limpar suas doenças venéreas. Mas há remédio. A seguir, falaremos em democracia participativa, plebiscitos constantes, votação em temas nacionais o ano todo, assembleias populares, socializar a cultura política em detrimento do narcisismo pequeno-burguês. Brindaremos uma juventude curada de antigas viroses espirituais com medicina cubana. Em Cuba, crianças guardam as urnas em dia de eleição. Em Cuba, Yoani Sánchez não consegue sequer um voto em seu próprio bairro, mesmo com seu sorriso verde de dólares. Mas mesmo quem não acredita na medicina cubana, tenha certeza de uma coisa: a Peste é real. A Peste, esse cadáver malcheiroso dentro da Urna. A Urna Prostituta.
Em botânica, chama-se também Urna a boca das plantas insectívoras. Esses dias, o ilustre e cândido deputado Vaccarezza encabeçou um projeto de reforma política. Uma “minirreforma”. Urna, boca grande de planta carnívora: exigir menos documentos comprovando os gastos das contas de campanha, não vetar a candidatura de sujeitos que tiveram contas de campanha rejeitadas pela Justiça Eleitoral, usar o fundo partidário para pagar as multas aplicadas em partidos acusados de cometer irregularidades eleitorais. Vaccarrezza. A Urna prostituta, o Veneno do Escorpião autoinoculado. Esse sujeito é do PT. PT, aliado do PMDB. Quem te viu, quem te vê. Pior ainda, o PSDB. Haja o que houver, não votemos no PSDB. Quem, DEM, vai dizer o quê? Praticamente todos contaminados. Os não-contaminados, usam armaduras pesadas de Quixote. Eu vou atrás dos Quixotes ano que vem. Eu, Sancho Pança, quero a minha ilha, aquela que não se curva noite adentro vida afora, como disse o cantor engenheiro. Dragões danadões donadões não são meros moinhos de vento. Dragões-anguê. Enquanto isso os frágeis guaranis kaiowás, acampados e esfaimados na beira do nosso asfalto MS Forte, são os profetas apedrejados de um mundo em desgraça, de um húmus que talvez estoure a dureza dessa mesma brita onde estamos plantados.
As pedras saíram dos bolsos em junho. Descobriram mais uma vez que o vidro que corta, quebra. Um risco: as pedras bolsonariadas deste setembro perigoso podem quebrar a Urna. Uma esperança: as pedras que eu quero lançar miram o cocuruto corrupto de São Donadon. A Ágora contra o Panteão. Maria Madalena não era prostituta, mostraram os exegetas. E esta Urna será amante do povo, portadora da Boa Nova, anunciarão os historiadores que ainda sonham. Urna, esposa ardente de todos os trabalhadores. Esta Urna será também, no futuro que desejo, caixão da burguesia. Mas já não cheirará mal. Desta Urna sairá apenas o perfume e a música da Revolução. Urna-realejo: uma Revolução em crescendo, com flores, pedras, flechas, beijos despudorados, afinal, castidade e paz de espírito não são virtudes confiáveis. Uma Revolução permanente, com Sonhos que poderão continuar não cabendo na Urna, mas que ao menos poderão fazer amor com Ela sem ter que pagar nada por isso.


(Volmir Cardoso Pereira)



P.S. 1: Há um projeto encabeçado pela OAB chamado Eleições Limpas. Esse projeto, embora não preveja o financiamento público integral de campanha, estabelece que as doações de pessoa jurídica sejam vetadas e as doações de pessoa física se limitem a 700,00 reais. O projeto destaca ainda o voto em lista fechada e aberta e outros temas caros a uma reforma eleitoral urgente. É um bom começo para a Reforma Política. É uma das tantas vias possíveis. Vale a pena ler, apoiar e assinar. Vale a pena muito mais.

https://eleicoeslimpas.org.br/assine

P.S. 2: Dudu segue preso injustamente em Campo Grande. Neste dia 7 de setembro de 2013 a campanha "Dudu livre" promoverá ato em apoio a Dudu e arrecadará livros para levar ao presídio onde o ator se encontra recluso.

http://pollycansadadeguerra.blogspot.com.br/2013/09/campanha-dudu-livre-arrecada-livros.html

2 comentários:

  1. Coragem é um dom e nem todos o encontra e muitos quando encontram ,descartam logo,porque o medo é um dom muito maior !

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