VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pesadelo


Dizem que um gigante despertou
Num esplêndido berço tropical
E olhando as feridas em seu corpo
Decidiu se purgar de todo mal

Arrancou mil espinhos de seus braços
Expeliu um milhão de parasitas
Levantou-se com suas próprias forças
Dissolveu toda a névoa de suas vistas

Encarou seu passado com coragem
Reviveu as estátuas de sal
Destruiu as correntes que o prendiam
À podridão de uma hipócrita moral

Viu suas mãos sujas de sangue
Contou seus mortos infindos
Viu num espelho um índio
E acordou com um grito

Um comentário:

  1. A pior coisa que se pode fazer a um poema é explicá-lo, mas esse aí é tão ruim que nenhuma explicação pode torná-lo pior... Trata-se, naturalmente, de uma interpretação dos protestos iniciados em junho deste ano, o tal "despertar do gigante", e do estado da consciência (e autoconsciência) crítica desse "despertar". Decidido a se purgar dos males que o acometeram enquanto dormia, o gigante não só se livra de suas mazelas políticas, sociais e morais como decide enfrentar seu próprio passado. Reviver as estátuas de sal é negar o medo de olhar para trás (originalmente era "Dissolveu", mas reviver é ainda melhor que dissolver, e com isso liberei este verbo para o verso das névoas). Não é o que acontece agora, mas pode acontecer, e se acontecesse não seria tão simples e florido como alguns acreditam. Mas sonhar esse pesadelo é necessário para acordar de verdade. Em suma, o gigante, por enquanto, apenas sonha que acordou, e esse sonho aí de cima é a melhor versão que eu posso imaginar para algo desse tipo. O índio do fim é um grande clichê, claro, e em minha defesa só posso dizer que esse não é o índio do Caetano, e sim o de Jânder Baltazar Rodrigues (num poema que logo reemergirá das trevas). Mas ele não representa nem os Terena nem os Guarani-Kaiowa, e sim todo o processo histórico de saques, morticínios etc. E esse tipo de explicação sumária também é um influxo direto de um texto do Jânder. Ah, sim... Decidi ilustrar o poema com um desenho do Monstro do Pântano porque gosto do personagem consagrado por Alan Moore, mas também pra deixar definitivamente claro que não acho esse tal "despertar" imune a alienações midiáticas. Eu também não estou livre disso, é claro. Só não esperava achar um Monstro tão adequado aos meus propósitos...

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