VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 16 de junho de 2013

E agora, PT?

Quando, depois de dois pleitos perdidos e após um verdadeiro processo de remodelagem imagética e discursiva, Lula finalmente foi finalmente foi eleito presidente em 2002, o PT tinha a chance histórica de honrar o slogan entoado nos comícios da vitória: "A esperança venceu o medo". A chance, em outras palavras, de honrar os compromissos com os trabalhadores, camponeses, estudantes e as camadas progressistas da classe classe média que o elegeram. Isso implicaria num rompimento com as elites conservadoras e mesmo as ditas progressistas, ou seja, partidárias de um desenvolvimentismo bastante suspeito em vista de sua dependência do capital especulativo.

O que se viu, entretanto, foi algo bastante diferente: sob a égide de uma política estatal assistencialista e de uma política econômica de valorização do consumo, Lula e depois Dilma tentaram - vamos conceder-lhes o duvidoso benefício das duvidosas boas intenções - conciliar todos esses interesses em jogo, num tipo de ilusionismo que sabemos muito bem no que dá quando a corda invisível arrebenta.


É o que está acontecendo agora, com a emergência dos sintomas de uma crise que se revela muito mais generalizada do que se pensava e a ameaça (quase escrevia "iminência", mas não quero que digam que sou do time do time do "quanto pior melhor", ao qual aliás sempre acusaram a esquerda de pertencer) do retorno da inflação galopante. Confrontada com o fim da ilusão de que o acúmulo de "bens" nada duráveis constituiria uma efetiva melhora na qualidade de vida, as classes populares mais uma vez se vêem à deriva, à mercê do que quer que venha pela frente.

Em suma, a máscara do "desenvolvimento social" caiu ou começou a cair, e o que se revela por trás dela é o velho desenvolvimentismo fajuto - leia-se melhor, o dependentismo econômico capitaneado por uma elite que se identifica muito mais com Miame que com o Brasil; fajuto mas nem por isso menos destrutivo ("coisas nossas", como diria Noel), da natureza e de vidas humans. Sem na bandalheira cada vez mais acintosa da dita "classe política" , que no entanto apenas reflete - ou melhor, é parte de - um estado de injustiça consumada que os governos estaduais só parecem dispostos a "combater" com a progressiva implantação de um estado policialesco. Vide Rio e São Paulo.


E, no entanto, às vésperas da tão aguardada Copa do Mundo, o país do futebol e do carnaval começa a deixar de ser, também, o país do conformismo. Parece-me muito simbólico disso que os Terenas, povo tradicionalmente pacífico, tenham se revoltado.

Os protestos em São Paulo podem estar sendo liderados e realizados por segmentos específicos da sociedade, mas o surpreendente apoio popular que eles encontram não é apenas um gesto de piedade ou solidariedade: é, principalmente, a mostra cabal de que a insatisfação longa e duramente acumulada por aquelas mesmas camadas populares e progressistas - e também donas de casa, jovens e adolescentes sem perspectiva etc. - não consegue mais ficar calada.

Ainda assim, mesmo sonoramente vaiada em pleno Mané Garrincha, Dilma mantém indíces relativamente altos de popularidade. É a mostra, talvez, de que a esperança ainda não sucumbiu, nem ao medo nem à traição; mas é também, quem sabe, a última oportunidade para o PT retomar e começar a honrar verdadeiramente seus compromissos históricos, aliando-se efetivamente à já incontida demanda de transformação social dos pobres, miseráveis e remediados desta terra em brasas.


Nunca deixei de cogitar que segmentos de um PSDB ou um PPS (agora MD) pudessem participar desse processo; e, no entanto, as alianças só se forjam pelo pior, com a súbita intransigência de Haddad encontrando guarida na usual truculência de Alckmin. Posso estar redondamente enganado, mas acredito que se em 2002 Lula houvesse peitado os Sarneys da vida teria encontrado respaldo, não no Congresso, mas nas ruas. Agora Dilma, o Congresso e todos nós temos que engolir a aberração de um Infeliciano presidindo a Comissão de Direitos Humanos. Será que o PT não tem mais nada, realmente, a nos mostrar?

Se não, o que sucederá ao PT? A truculência "social-democrata" ou o reacionarismo "social-cristão"? Ou, quem sabe, do tumulto das ruas surgirá algo realmente novo? Se Dilma aspira a um novo mandato - o que, na conjuntura atual, pode ser a única alternativa viável -, é bom que ela defina melhor de que lado está.

Dilma, mostra a sua cara.

11 comentários:

  1. Acho que qualquer discussão produtiva sobre o poder político no Brasil precisa começar pela constatação de uma situação sui generis: tanto FHC como Lula como Dilma governaram enquanto seus partidos detinham sequer um quinto do congresso nacional. Nenhum dos três teria governado como fizeram se tivessem bancadas de, digamos, 250 deputados do seu partido no congresso. A mesma situação aconteceria se Marina Silva ou José Serra tivessem ganho a eleição passada.
    Outra constatação é que, mesmo depois de anos de crítica articulada e implacável, tanto o populismo [como prática política acomodadora] como o desenvolvimentismo [como acomodação entre estado e capital em nome de um suposto bem comum de todo o país] foram reerguidos pelo PT em contraposição ao neo-liberalismo abominável dos anos FHC. Para mim a decepção maior é a constatação de que o PT, no fim das contas, acaba atuando como um grotesco PTB versão século XXI, com algumas exceções interessantes que em geral se dissiparam com a chegada da Dilma. Trata-se de compor com o que estiver à mão: Brizola tinha Agnaldo Timóteo e Jaime Lerner e César Maia e GArotinho e Dilma tem os pentecostais e os ruralistas e companhia aparentemente ilimitada.
    Isso implica em "rifar" seus apoiadores mais fiéis, à esquerda. Mas agora o tal capital político que o PT tinha com as pessoas de esquerda parece que acabou. Não me inquieta em nada que sejam os trotskistas expulsos do PT os que de certa forma parecem estar liderando o movimento. Que venham os trotskistas e no bojo dele todas as outras forças mais ou menos articuladas que se cansaram de dar um desconto ao governo do PT. E que, temendo uma derrota nas próximas eleições presidenciais, o PT comece a ter um pouco mais de cautela em vender tudo o que é caro à esquerda em nome de agradar o outro lado. O comprometimento com as oligarquias é muito forte. Recomendo a análise precisa de Perry Anderson no New Left Review sobre a política nos Estados Unidos - estamos querendo, parece, criar uma paródia grotesca da farsa grotesca da democracia com pensamento único dos EUA.

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    1. Bem, Paulo, concordo com sua análise. Só insisto, talvez ingenuamente, que em 2002 havia a chance histórica (como parece haver agora) de o PT fundamentar suas políticas no respaldo popular. Talvez tenha faltado confiança na capacidade de mobilização popular, talvez houvesse outros interesses em jogo, talvez uma análise conjuntural mais realista que a minha tenha desaconelhado essa atitude... Mas eis o preço da Realpolitik petista. Enfim, a questão é: que fazer agora? Quanto à sua comparação do nosso 'status democrático' com o pensamento único dos EUA, ela me dá arrepios... Farsa montada sobre farsa, oco dentro do oco, como dizia o Schwarz.

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  2. Não entendo como um blogueiro tão perspicaz consegue propagar no mesmo tom os ditames da mídia. A mesma que bate em índio, sem-terra, estudantes e movimentos populares, aos quais, atribui baderna em suas mobilizações país afora. Também não consigo entender aonde está provado o retorno da tal "inflação galopante", quais números se baseia para repicar aqui o que o Jabor vomita na Globo?
    Concordo contigo que o Governo não cumpre, na totalidade, seus compromissos históricos com as camadas populares. Mas, está claro que o setor que deseja o seu fim é a elite cruel; a mesma que acha que a merreca (18bi/ 0,5% do PIB) que o Governo destina aos pobres do Bolsa-Familia alimenta a "vagagabundagem", e os 136 bilhões que serão destinados ao Agronegócio, aquele que produz 35% do que vai à nossa mesa, é pouco.

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    1. Bem, Vicente, não posso pautar minhas posições exclusivamente em função das midiáticas. Os sinais de retorno da inflação são evidentes; aliás, a inflação vem se avolumando discreta mas consistentemente nos últimos anos. E também não desejo "o fim do governo", acho que o final do meu texto deixa isso claro, o que desejo é uma revisão de políticas e posições fundamentais. Quanto à equação governo e agronegócio, bem, sobre isso eu me permito, sem querer ofendê-lo, manter um discreto sorriso irônico. Obrigado pelo comentário.

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  3. A Dilma foi vaiada pela classe média e rica que estavam no estádio. Quem é da classe trabalhadora sabe a diferença que esse governo representou para os pobres. Ouço todos os dias no coletivo os trabalhadores elogiando a Dilma. O povo pobre reconhece o que o PT fez, de forma limitada porque a burguesia ainda é muito forte no Congresso Nacional, por milhões de pessoas que viviam na miséria.

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    1. Concordo em termos com seu comentário, Tião. Mas repito o que já disse: os protestos podem estar sendo capitaneados por setores restritos, mas o apoio popular que eles obtêm é um inequívoco sintoma de insatisfação generalizada. Mas o que eu quero insistir é no seguinte: o PT tem outra chance histórica de fudamentar sua "governabilidade" no apoio popular, e não no Congresso Nacional. Vamos ver como ele se comporta.

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  4. Mas quem estar as ruas pedindo melhoria e a maioria que não suporta mais tanta corrupção e o descaso com a saúde, o PT passou mais de vinte anos tentando chegar ao ápice do comando do país, e suas ideologias que foi mola propulsora para se torna-lo conhecido, jogaram em uma lata de lixo, eu lembro bem que na minha juventude tínhamos orgulho de comprar um broxe do PT e colocar no peito, mas hoje tenho vergonha dessa esculhambação e desse falso moralismo fora!

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    1. Embora nunca tenha sido petista (mas me empenhei muito no segundo turno do Lula contra o Collor), compartilho desse sentimento. A questão é: se o PT sair agora, num quadro ideológico confuso como o que vivemos, o que virá depois dele? Dentro ou fora do PT, precisamos construir uma alternativa consistente e, principalmente, MELHOR...

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  5. O PT não é mais aquele partido em os militantes se esnpenhavam para que o broxe e adesivos fosse vendido em sinaleiras e esquinas da vida para ajuda custear sua campanhas, o poder muda e transforma, o dinheiro e posição se não vigiarmos, nos faz ficar soberbos arrogantes, faz até com que esqueçamos de nossos ideais e nos transformam em ditadores disfarçados...Tudo passa!

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