VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sigam os bons!

Sim, faltou humor, faltou liberdade e sobrou culto
à personalidade na "Era Chávez".
Mas não faltou heroísmo.
Eu tentava decidir se ia ou não ao cinema assistir ao musical Os miseráveis, baseado na epopeia em prosa de Victor Hugo, quando soube da morte de outro Hugo: Chávez. Aliás, só agora a coincidência me ocorre. Se tivesse ocorrido antes, talvez eu tivesse cedido à tentação que me bateu na hora: a de ir, sim, ver o filme, e a partir dele homenagear Chávez, ou então comparar mais esse outro constructo hollywoodiano (que retoma outro, muito menos sórdido mas não muito menos ideologicamente problemático, que é o romance de Hugo) ou, provavelmente, as duas coisas, com o que foi a vida e ainda é a “obra” de Chávez. Faço questão dessas aspas por vários motivos, mas o principal é o seguinte: que, mais que o que se fez, é o que ainda se faz o que importa nessa “obra”. Acho que deu pra entender, hehe. Rio sem vexame da gravidade do assunto, até porque ele tem seu tanto de enlevo: sem dúvida – e o clichê ainda vale –, Chávez morreu para entrar na História. Quer queira a direita, quer queira a Veja, quer queira a CIA, quer queira a Casa Branca, quer queira o Pentágono, quer queira Hollywood ou não.

Victor Hugo
Quero crer comigo que minha intuição – eu quase ia escrevendo “compreensão prévia” – das contradições de um produto como uma narrativa liberal-cristã (com vagos laivos socialistas) visual e, ainda por cima, musicalmente apropriada, reformatada e remanufaturada por Hollywood, como é esse megainvestimento nos “miseráveis” em pessoa (mas diga-se de passagem que o protagonista social da obra de Hugo passa longe de ser o lumpen-proletariado), quero crer, eu dizia, que isso não tolhe minha consciência – claro que parcial, tudo para nós, como dizia Renato Russo ecoando São Paulo, é em parte – do que foram as contradições Chávez; sim, porque Chávez e sua “obra” são, obviamente, um complexo de contradições. 

Paulo e Renato
Ainda assim, a importância histórica de seu prolongado governo de esquerda me parece tão evidente que não me sinto obrigado a insistir nisso. Contento-me em indicar este texto – um entre vários textos que sopesam com respeito e sobriedade seu legado –, indicado pelo jornalista e professor de História campograndense Oscar Rocha, além dessas belas palavras do mesmo “Ôscar”:
“Hugo Chavéz fez bonito. Não para os brasileiros e estadunidenses, mas para o seu povo e para América Latina. Se não fosse por Chavéz e suas atitudes, juntamente com outros presidentes, hoje, com certeza, estaríamos no Tratado Norte-Americano de Livre Comércio... Preciso dizer mais?”

De outro Oscar,
Niemeyer
Sobre o significado de Chávez – e das conquistas da esquerda na Venezuela, na Bolívia, na Argentina, no Brasil, no Uruguai e, talvez, até no Paraguai – só digo o seguinte: que sem tudo isso a América Latina continuaria quase totalmente reduzida ao saque imperialista a que quase sempre se reduziu. Não que esse saque tenha cessado, e não se realize mesmo sob a tutela desses governos, mas um outro horizonte, forjado a pequenas ou grandes práticas, se delineia.

Fidel, claro
Não incluí Cuba na lista acima porque Cuba é outra coisa. Com todas as suas contradições, Cuba é um farol, um marco histórico irredutível da resistência contra o Império. Ainda que Cuba ruísse agora, e voltasse a ser o que era antes da Revolução, ou seja, um bordel-cassino dos Estados Unidos (como o Leste Europeu se tornou um bordel ou um grande fornecedor para os bordéis, filmes pornôs etc. da Europa Central), ainda assim a mera grandeza de seu exemplo já faria valer a pena sua existência, seu acontecimento. Até porque é, sem dúvida, um acontecimento qualitativamente diferente o que se gesta e demanda agora, de um outro socialismo. Não vou discutir se essa palavra, “socialismo”, ainda corresponde a essa demanda, nem o alcance desta em termos demográficos e geográficos. Se fizesse isso, seria para defender o quase-indefensável: a quase universalidade desse anseio. Entretanto, prestem atenção. Olhem em volta, para além da sordidez consumada com que nos presenteiam todo dia os reality-shows e os noticiários.

Outro dia, alguém que se assume de direita – tendo, inclusive, meu respeito por isso – me dizia que a diferença entre o socialismo e o capitalismo é que este acredita no indivíduo e aquele na coletividade. Eu tentei argumentar que isso era um reducionismo, pois de um certo ponto de vista é exatamente o contrário: é o socialismo quem acredita nas pessoas, em suas demandas de justiça, liberdade e felicidade, enquanto o capitalismo, ou melhor, os capitalistas zelam pelo uso das mesmas. Sob o reino da desigualdade social e da mera formalidade das “democracias” (ou o poder de manipulação da mídia não é um poder?), identificar a condição do homem funcional com a do homem livre é uma farsa deslavada.

Redson, do Cólera
Em sua forma mais nobre e cristalina, o “ideal de esquerda” postula o respeito pela humanidade – “todas as vidas em geral”, como canta o Cólera, para designar também cada vida em particular – como um conjunto de pessoas que precisam e merecem se emancipar coletivamente, e não dentro de um sistema de competição individualista, pois sabem que o convívio humano pleno é muito mais importante que os gozos possibilitados pelo poder e pelo dinheiro, e sabem ou intuem a que está nos levando o individualismo desbragado do capitalismo.

É hoje que minha filha
me mata...
Sim, também a esquerda tem suas massas de manobra. Mas por isso mesmo é preciso apontar as contradição nas práticas esquerdistas ainda predominantes – sobretudo no âmbito da política partidária, ou seja, das disputas pelos lugares hegemônicos de poder. No entanto, nem sempre os democratas sinceros e os “independentes” ou “alternativos” percebem que o funcionamento dessa esfera – os lugares de poder – determina contradições inevitáveis que, hoje percebemos, podem ser trabalhadas mas não expurgadas como quem extirpa uma espinha, até porque, no fundo, essa espinha está incrustada em cada um de nós. Sem que lutar nessa esfera deixe de ser, ainda, igualmente fundamental. Ou talvez eu me engane: quem sabe? Como perguntou outro dia o PC Siqueira num belo texto: quem pode saber?

Rosa Luxemburgo
O que sei, ou melhor, o que acredito piamente é que não há futuro para a humanidade sem o resgate de uma perspectiva socialista, ou seja, que ainda (aliás, cada vez mais) nos encontramos naquele dilema enunciado por Rosa Luxemburgo: Socialismo ou barbárie. “Idealista” que seja essa essa convicção, tenho-a comigo como uma convicção perfeitamente lógica, ou, digamos (se é de “questões objetivas” que se trata), “darwiniana”, pelo menos se nos permitem que esse benefício (ou, que seja, instrumento) que possuímos chamado consciência participe disso a que chamamos “evolução”, ou seja, dessa demanda de conservação e melhoria da espécie que não pode ser apenas a struggle of life de cada um de nós. Porque senão é a destruição que nos aguarda. (Aliás, já está demonstrado cientificamente que, tanto quanto as disputas, as cooperações intra e interespécies biológicas são fundamentais para o equilíbrio ecossistêmico – este, com o qual estamos “contribuindo” tão bem.)

Darwin?!
Não sei se todo esse proselitismo, no fim das contas, certamente, mais sentimental que qualquer coisa, honra a memória e as ações ainda vivas de Chávez, mas é o que a perda do velho comandante me inspira. Quem sabe o que inspiraria ao outro Hugo, o bom e velho Victor... Quiçá um roteiro infilmável?

Tomo a liberdade de dedicar este texto a um velho camarada, militante partidário como há tempos eu desanimei de ser e que, por sua origem social (é filho de um advogado), eu acreditava destinado à direita, mas que, pelo contrário, eu reencontrei reafirmando e pensando com lucidez o lugar à esquerda do qual eu vi, meio desconfiado, ele se aproximar na juventude. Meu amigo Ubirajara de nome bravio, velho amigo com quem, ainda na infância, cheguei a brigar por um motivo quiçá estúpido (ou não, não importa mais); o único amigo que me honrou com um adjetivo que, infelizmente, eu não mereço: “Ravel o velho comunista”. Se estivesse aqui, brindaria com ele: Viva Chávez! Viva Fidel, “Viva Zapata, viva Zumbi...”! Viva a revolução permanente, não exatamente (ou apenas) a de Trotski, mas a da Humanidade. E, sim, viva Raul, viva a Sociedade Alternativa! Viva e vivam os sempre contraditórios anseios de liberdade e justiça, no que têm de melhor e mais vivo.

Vaya con Dios, camarada!

E soube há pouco da morte do Chorão... Outra grande perda, sem dúvida. Mesmo com seus apelos comerciais não raro excessivos, o Charlie Brown Jr. foi uma das poucas bandas de rock a regravar Geraldo Vandré. E o canto ainda vale.


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